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06/03/2022

Funil, arroz de polvo e originalidade

Vai ser difícil expores o que te passa na cabeça. Toda a vida te tiveste e penalizaste por preguiçosa. Os demais corroboravam o rótulo até há uma quinzena de anos, nalguns casos continuam a assim te considerar. Não procuras justificações, mas a explicação. Ontem descobriste uma nova música, Esperanza Spalding de seu nome. Ficaste encantada com as interpretações que ouviste, com a graciosidade e talento. Leste a biografia. Colocaste uma apresentação no blogue e muito possivelmente a paixão momentânea ficará por aí ou, então, procurarás mais um apontamento ou outro sobre o seu trabalho, ouvirás mais uns concertos nos próximos meses ou anos e pronto. Passou. Não tens por feitio e natureza vontade e dedicação para escrever um texto onde reúnas os dados de que tomaste conhecimento para partilhares com os demais as influências que recebeu, o género ou sub-géneros musicais que interpreta, as melhores apresentações. Podias fazê-lo, mas o que te dita a natureza é que fales sobre a graça juvenil com que agarra no contra-baixo ou pega no baixo e deles extrai originalidade, a desenvoltura alegre com que comunica com o público, o extraordinário ouvido que permite cante em português com doce sotaque brasileiro quase perfeito, a segurança liberta e domínio na voz, sei lá, coisas assim. Nunca serás uma conhecedora do trabalho da música Esperanza Spalding.


Acabaste o curso com a fraca média de doze, nunca soubeste reproduzir em exames escritos e orais as longas listas de requisitos e consequências da aplicação da lei. O peculiar funil por onde passas toda a informação que recebes estreita aquilo que devolves aos outros. Não é mera desculpa, sabes bem que se te esforçasses e dobrasses poderias vir a ser capaz de reproduzir o que é suposto. Não são peneiras, tantas vezes foram as que tentaste fazer o esforço em vão. O que o teu cérebro devolve não é o que os outros esperam ou desejam, não é o normal. Em regra dá para os mínimos e os demais consideraram amiúde que é essa a tua fasquia por falta de vontade e esforço. Assim foi logo no início da faculdade e ao longo de todo o curso salvo em apontamentos de excepção quando em orais te disseram que era espantoso como não sabias aquilo que mais nenhum aluno deixava de saber e chegavas onde é muito raro alguém chegar ou quando criaram um nova abordagem de colocar as questões que te levou a ser a única aluna aprovada face à novidade. Tudo isto parece vaidade tonta, mas não é. Traz sofrimento. Não é fácil admitir que não se chega onde todos chegam. Até porque esta incapacidade reflecte-se na vida, no percurso dela e na falta de bons resultados.


Ontem comeste arroz de polvo. Ao fim de vários dias a rejeitar quase tudo o que comias, foi uma bênção, estava delicioso. A tua mãe trouxe-te a calda dele, foi só juntar arroz e água e ficou perfeito. Vem isto a propósito de tudo quanto é bom exigir dedicação e repetição. Os pratos não costumam sair perfeitos à primeira, nem à segunda. Exigem treino, experiências repetidas, exigem mão. Assim é a música. Atrás de cada interpretação estão horas de desafinos, quartos desarrumados, saturantes repetições, frustrações e cansaço e compreensão de quem vive com o músico. Tudo isto para dizer que não desconheces a necessidade de trabalho, de dedicação, de sacrifício. Dito isto, também não ignoras a natureza de cada um, as limitações e as peculiaridades. E cada vez gostas e admites menos que te exijam e exijam a outros parecidos contigo que vivam num molde que não vos pertence. O que é fácil, óbvio e acessível a uns pode ser dificílimo a outros e nada tem a ver com mais ou menos empenho, trabalho, esforço. Além do que, o contributo que podes dar ao mundo (sim, soa a pretensão) pode não passar por imitar o que é suposto ou aceitável. E se reconheces competência e talento nas pessoas que reproduzem informação de forma atenta, clara e objectiva, não tens que te assemelhar a elas. Não é esse o teu papel. Não queres ser injusta, mas cansa-te a repetição. Vês quilómetros de informação replicada à exaustão. Chega ao caricato de cá em casa fazerem observações sobre o que lembra a situação actual e veres reproduzidas as mesmas memórias quando abres o computador. Sei, a noção de comunhão com o presente e os outros é importante. É natural que as referências e a mundividência sejam comuns a tantos e estar em sintonia com a maioria e o seu tempo deve ser tranquilizador, mas a verdade é que quando te dizem que podias colocar isto ou aquilo no blogue respondes muitas vezes: não, isso é evidente. Para logo a seguir veres esses istos e aquilos mencionados noutros espaços com grande destaque. Naturalmente a sensação com que ficas é do quão desfasada és, de estares noutro filme. Essa é a história da tua vida.


Nunca te tomaste por criativa, até por nada de valor teres criado. O tolhimento pela educação impede-te talvez de o seres, ao menos nos moldes que tens como sendo reais. Tens aquela imagem de desprendimento um tanto rebelde que não condiz com o alinhamento de educação e sentido do dever que te impregnam. O esforço vais fazendo na medida do possível e nas horas que sobram da vida comezinha de quem trabalha para ter as comodidades desejáveis. Resta-te ao menos a liberdade intrínseca de não fugires daquilo que és, o gosto pela vida e a curiosidade que te leva todos os dias desde sempre a procurar saber e pensar em termos próprios, originais. Sem necessidade de reproduzir nos moldes apreciados e valorizados pela maioria ou pelas tribos influentes tudo quanto conheces. Para fingir que és coisa diferente do que és não tens vocação. De pseudo-artistas, de pseudo-autores de sucesso está o mundo cheio, não precisa de mais ninguém.