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Definindo os desejos para a passagem de ano sem champagne e à distância, mas do modo usual no que importa.
Que venha um ano de 2024 melhor.
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Definindo os desejos para a passagem de ano sem champagne e à distância, mas do modo usual no que importa.
Que venha um ano de 2024 melhor.
Hoje é um dia triste. Morreu o pai do Nuno. Um homem de uma rectidão a toda a prova e a quem devo, juntamente com a minha sogra, o filho que segue comigo no Intercidades e que mais uma vez se porta como um princípe. A atitude do Nuno face à vida e às adversidades diz muito dos pais. Lições de vida.
Uma caminhada cheia, completa. Sessenta anos ao lado da mulher da sua vida que "roubou" à Semblana na garupa da motorizada à revelia da família levando-a para Ourique, onde nasceu o Nuno. Respeitado pela família, amigos e aqueles com quem trabalhou, viveu em Cascais, Estoril, Espírito Santo no Brasil e Almada.
Há pouco mais de 15 dias fizemos-lhe o último brinde e testemunhei uma vez mais os sorrisos de alegria quando o filho puxava por memórias das pescarias de Guarapari ou da viagem a dois aos Açores ou quando a neta, por quem se perdia de amores, o mimava.
Vai fazer muita falta, Sr. Guerreiro.
Felizmente por cá tudo se mantém parecido. Continuamos poucos e serenos - derrotados aos olhos dos bem-sucedidos. Calhando estar a trabalhar, hoje ser sexta-feira e ainda faltarem dois dias para o final do ano, antecipo já os votos para 2024: é só substituir 2021 por 2024. Digamos que até na tarefa de desejar sou fonas ou poupada.
Façam o favor de ter um Bom 2024.![]()
E se quiserem ter juízo: tentem abstrair do mundo efabulado de conflito, miséria e dificuldades que a comunicação social e as redes sociais querem vender para benefício de poucos. Há pobreza, sim, há grandes discrepâncias de condições de vida, sim - e quem passe muito mal, sim -, há guerras, sim, mas há nichos cada vez mais amplos de riqueza e vidas bastante mais confortáveis para muitos - muitos dos quais são os que mais reivindicam e mais se fazem passar por coitadinhos -, há uma percentagem de população com uma vida muito mais folgada (felizmente) do que aparentam as parangonas das audiências. A choradeira vende e rentabiliza privilégios, não resolve problemas de quem mais precisa.
Muitos portugueses compreendem isto - talvez a maioria, muitos dos quais vivendo do salário mínimo ou de pensões mais baixas -, para desgosto e desdém pela burrice, falta de visão e pouca ambição alheia de quem busca audiências e de quem se distrai na má-língua, nos jogos de interesse e ladainhas de coitadinho do país ou de chico-experto-das-teses-da-economia. Enfim, para desagrado dos iluminados.
É uma maçada ser desagradável, não alinhar nas parangonas e não fazer claque nos jogos de interesse.
Feliz 2024.![]()

*
Ao sair de casa esta manhã trouxe um pires de barra azul claro e um saco de sultanas para fazer a gracinha: desejar um bom 2021 aos pouquinhos leitores das Comezinhas. Creio que dará uma passa a cada um. Se não der, ponho mais algumas.
Passei metade da vida a dizer mal do que chamava ‘balelas do pensamento positivo’. Coisas de tonta, quando não tinha apanhado na tromba o suficiente. Bastou conhecer na pele dificuldades porque muitos passam para abrir os olhos e perceber que as boas palavras são fundamentais. E se é verdade que as circunstâncias objectivas de vida determinam muito do trajecto de cada um, não é menos certo que uma atitude positiva perante a adversidade ajuda a superá-la. Mais até: é preciso ter cuidado com o que desejamos com intensidade, porque ainda que de forma enviesada tende a concretizar-se sem o fogo de artifício associado ao deslumbre. O poder do pensamento e das palavras é muito maior do que os cépticos julgam.
E com isto quero apenas dizer que, apesar de cientes das dificuldades futuras, vale a pena acreditar num ano melhor. Vale a pena desejar o melhor em 2021 para os nossos e para todos. Vale a pena viver e acreditar nos desejos de fim de ano.
Votos de um Feliz 2021.
No fim-de-semana de Natal fui fazendo recolha de vários parágrafos de notícias com a ideia de quando redigisse os diários daqueles dias miscigenar a descrição dos acontecidos com a realidade do país e do mundo. Mas nicles. Acabei por simplificar reduzindo-os a um simples relato. O apanhado “dados” por aí perdido numa página word ficará ao Deus dará provavelmente sem qualquer serventia - podia escrever utilidade, mas não era a mesma coisa.
Havia pensado fazer um balanço do ano, mas está-se a esgotar e não me parece que tenha tempo para isso. Como de costume ao descrever as intenções goradas de escrita acabarei por abreviar dizendo o que queria, mas de modo sucinto. Se alargasse ao último par ou terno de anos diria que introduzi simples mudanças. Fiz pequenas aquisições para casa que me trouxeram conforto: a mesa de trabalho com estante, o sofá, poltrona e o tapete. Investi na minha saúde fazendo a cirurgia bariátrica com perda de bastantes quilos. E no cuidado com a imagem usando alinhadores de dentes e sujeitando-me a depilação a laser. Introduzi uma mudança positiva em termos profissionais, ficando a trabalhar para duas empresas em simultâneo. Voltei a ter o gosto de viajar indo a Amesterdão e à Turquia. Recomecei a andar a pé, o que melhora substancialmente a boa-disposição para trabalhar. E natação que me dá imenso gosto apesar de nos últimos meses me andar a baldar. Até me casei, coisa estranha. Parecendo que não o novo estado civil traz um espírito diferente à vida caseira, quotidiana e às próprias aspirações futuras. Parecendo que não são bastantes mudanças para quem acaba de entrar nos cinquenta. Que sucederam a anos com outro tipo de novidades.
Há semanas tive a sensação de desgosto, é recorrente. Nunca dói de uma vez, por dor inteira e inteiramente explicável. Se fosse assim poderia ser arrumada a um canto. Xô, fica aí tristeza encaixotada que vou tratar de minha vida. Mas devia ser assim. Aliás, é um pouco assim quando identifico as causas. Todavia há aquela moedeira que lateja no espírito, que moteja do ânimo. Uma mágoa difusa que diz mais do que permito interfira no meu ânimo e sentimentos do que da razão. Essa sempre aplaco com maior objectividade. Avante, imponho-me. Que de deslealdades, baixezas, desatenções ou simples incompatibilidades não reza a história. Vá, até reza, mas em nota de rodapé como mero percalço de caminhadas que valham a pena.
E agora ocorreu-me coisa muito diferente do que por até aqui deambulei. A ideia de estar desfasada da realidade ou de sempre procurar uma visão que chamo naïf do mundo. O que quero dizer? Não é por desconhecimento da vulgaridade, da crueza, da miséria, do conflito, da violência que não as evidencio. É por simplicidade. Ao passo que há gente que sente necessidade de mostrar as podridões do mundo por razões diferentes - para as denunciar e combater, para denotar conhecimento ou para vibrar com elas – há outros como eu que não lhes sentem o apelo. Denunciar e combater o quê? Se as menções mais do que restringir, potenciam-nas. Mostrar ilustração da treta para quê? Se não preciso exibir-me. Vibrar com o lodo porquê? Se me entedia.
Já agora mais um tema extra-propósito. Acerca de fazer sala. Há leituras e conversas que acrescentam. Há outras que se resumem à expressão fazer sala. Quando vejo muitas menções a artigos, palestras, livros etc de amigos, conhecidos e badalados em catadupa por mimetismo compreendo que estão a fazer sala. Vale o mesmo do que falar do tempo ou de futebol à porta da sala de audiências antes do julgamento ou nos minutos que antecedem uma reunião de empresa. Nada. Futilidade ou frivolidade pura. Temos de o fazer quando nada de importante é aconselhável dizer. E pensar que há vidas em que isto é o sumo da existência: as relações e a vacuidade da alegada erudição. Apercebendo-me disto mantenho distância, retiro-me para o meu mundo prosaico onde as molduras não valem mais do que os quadros. Sabendo que só vale a pena intervir levantando-se questão relevante em que marcar posição seja de facto importante: aí sim sujeito-me a aproximar das aparências por breve tempo, para logo recolher ao mundo que vale a pena – quanto mais não seja, este, o comezinho. Saiba não voltar a prolongar tempo demais a intervenção em espaços onde vinga a aparência. É certo que se aprende sempre qualquer coisa, mas o desgaste pelo enjoo acaba por fazer mossa e já vou tendo idade para me poupar.
Outra nota rápida ainda sobre disfarces ou ilusões. A linguagem supostamente polida – e os tiques no uso da língua e no tipo de referências -, nem sempre, mas denota muitas vezes mais pretensão do que instrução e educação. O recurso a termos e ditos decalcados entre clãs são expressão disso mesmo. Também fazem parte de fazer sala. E não vou adiantar muito acerca do assunto, até porque já me fartei de descrever a forma como alguns se põem em bicos de pés seja na Ana Paula, seja aqui nas Comezinhas. A linguagem é só mais um instrumento.
E voltando às mudanças. Talvez 2024 traga uma nova casa. Hoje resolvi investigar outras além desta aqui em Cedofeita. Vi uma em Lordelo do Ouro. Seria um regresso a essa zona da cidade. Muito bonita, com vista mar. E perto de um bairro social problemático. Vi outra em Campanhã, com jardim. Estrearia viver na quarta freguesia do Porto e mataria saudades de uma zona pela qual tenho carinho por memórias da infância. Talvez mude de casa. Ou não. Isto de mudanças ainda pesa, além do orçamento, no lombo. Porque encaixotar e desencaixotar uma casa é tarefa árdua. Ainda há menos de seis anos fiz a última mudança. Como direi? Estou tentada. Isto apesar de há poucos meses estar convencida que ficaria por muitos anos nesta casa e arranjaria sim um segundo casinhoto longe com erva à volta para plantar as jovens árvores que tenho na varanda.
Mais alterações? Continuo sem saber das profissionais. Mas também não tenho pensado muito nisso. No Outono do ano passado penei julgando poder ficar no desemprego e afinal tudo se compôs. Este Verão penei sabendo do meu futuro incerto (mas mais seguro) neste final do ano. Adiei decisões, como adoptar uma gata, e afinal nada se definiu. Tanta coisa na minha vida ficou em águas de bacalhau temendo adversidades futuras que não se chegaram a verificar ou que fiquei sem saber se ocorreriam. É aquela velha história de só nos arrependermos do que não fizemos. Por acaso nem sei porque digo isto: afinal nem desses arrependimentos sofro.
Depois há o mais importante. O que vier, virá.
Para registo: só ontem comecei a empreitada dos Titãs de Montefiore. Li alguns soltos, mas agora é para levar a eito. Comigo as leituras rendem. Afinal comprei o livro em Agosto, aqui falei dele, mas só agora lhe pego à séria.
E pronto, é isto.
Foram vários os postais mais "antigos" e recentes abertos.
Bom. O Nuno bem queria que esta noite eu tivesse acabado de ler o livro, porém valores mais altos se levantaram. Estive a descrever uma vez mais a nossa futura hipotética casa - já a tenho toda mobilada de cabeça com os nossos móveis. Também já demos um giro por páginas imobiliárias para ver casas em Gaia e Matosinhos presumivelmente menos caras. E ponderámos nas repetidas à exaustão questões da falta de jardim, das escadas e do portão contíguo para a ilha. Hoje investi com particular afinco na defesa dos benefícios do exercício físico: quem sabe dois lanços de muitos degraus não constituirão a razão da nossa extraordinária longevidade?
Socorri-me até da informação institucional da Direcção Geral de Saúde. O assunto é sério. Começo a gostar da casa. Sei que é sério por já ter aceitado os múltiplos defeitos. Até já imaginei a mesa do computador e as estantes no novo +1. Sim, se tenho um quarto normal a mais, porquê insistir no pequeno +1? É fetiche. Gosto daquele aconchego. Sinto-me bem e quero aquele pequeno espaço para mim. O jasmim fica em vaso no primeiro andar para pendurado descer a parede. A japoneira fica no pequeno pátio à esquerda - vou trocá-a de posição. A nespereira à direita. A oliveira ao centro.
Há uns dias no programa 60 Minutos ouvi falar de um género de música africana de Marrocos: Gnawa. Destaca-se o som das castanholas de metal e do guembri - um "baixo" de três cordas. Atraiu-me. Vou começar a ouvir hoje, neste regresso à normalidade dos dias de trabalho após o Natal.
O dia 25 foi mais pachorrento. Manhã de sorna – a imitar vida de gato refastelado ao sol. Vida em casa de pijama e roupão até tarde. Aproveitei para escrever o postal anterior a relatar o dia de Natal. Ainda houve proposta para sairmos e andar a pé, mas este ano não me apeteceu. Só queria estar sossegada a ouvir smooth fm e passarinhar a casa e o corredor onde o Ritz foi espalhando de madrugada os diferentes ratos-brinquedo – já colecciona
A tarde não foi diferente. Ainda pensei ler, mas qual quê? Seria preciso muito ímpeto. Limitei-me a acender as velas do Presépio e a saborear os pensamentos soltos na mais pura da preguiça. Aproveitei também para pedinchar ao Nuno que tocasse piano e lá tive direito a um pedaço de devaneio melódico. Durante todo o dia fiz apenas um telefonema e recebi outro de Natal. Estive até pouco antes das cinco da tarde em pijama – coisa boa –, hora a que lanchámos: chá preto com mel e os biscoitos do cabaz da empresa.
Os sinos da igreja repicaram a assinalar o nascimento de Jesus – o vento hoje trouxe o som mais nítido. Anoiteceu e só nessa altura reparei que a estrela cadente do Presépio se partiu – despistada pu-lo sem reparar. Não é particularmente bonito, mas gosto de ver as pequenas velas arder dentro do estábulo. Apaguei-as antes de sairmos.
O jantar foi muito mais sereno do que ontem. A conversa versou sobretudo sobre memórias antigas – chegámos à conclusão que tirando os meus sobrinhos estamos todos velhos. A mãe estava feliz apesar de muito constipada.
O serviço de loiça corriqueiro de Natal substituiu o bom de ontem. E ao bacalhau de ontem sucedeu o peru. É o que menos importa - o pedido de um dos meus irmãos à mãe foi que houvesse batata assada, mas o que me agradou mesmo foi o regresso ao arroz árabe. Houve sobremesas que restaram de ontem: rabanadas, sonhos, bolos rei e rainha e pudim. A mousse de chocolate acabou ontem. A salada de fruta hoje ficou esquecida (ontem os olvidados foram os frutos secos). E a minha cunhada trouxe formigos.
Uma vez em casa acendi o globo como é costume e as luzes natalícias. Ensonada escrevi este postal para terminar o relato dos três dias de um Natal simples – creio parecido com o de muitos portugueses. Com a despretensão de quem não considera o nosso Natal mais genuíno, mais puro, menos hipócrita ou mais dentro dos cânones do que deve ser. É apenas um Natal entre tantos.![]()
A manhã de ontem 24 foi passada na ronha, depois de apenas quatro horas de sono não havia disponibilidade para muito. Apenas para descer à padaria onde comprei uma espécie de Bolo Rainha.
Por volta do meio-dia agarrei nos sacos com as lembranças de Natal e fui de Uber a casa da minha mãe precavendo a saída à noite para o jantar mais liberta de carregos. Preguiçosa e desnaturada limitei-me a ver a minha mãe tratar de tudo: os pratos de bacalhau já prontos para mais tarde meter no forno, a mesa posta, os preparativos para fazer os doces de tarde. Assisti ao almoço e conversámos que é o que mais fazemos a vida toda. A única ajuda que consegui autorizasse foi descer com o lixo e demais tralhas para o ecoponto.
Por volta da uma e meia apanhei o autocarro 203 e vim a casa almoçar com o Nuno, que logo depois foi ao barbeiro cortar a trunfa enquanto parti em viagem a pé em busca de um multibanco que tivesse dinheiro. Só ao quinto consegui a proeza. E por me lembrar de ir a um dos inúmeros supermercados Auchan que abriram no Porto – a pobreza galopante de que falam os jornais impressiona, vê-se por estas pequenas manifestações da economia real.
À tarde, depois do telefonema à mãe, o Nuno descascou a fruta para a salada. Nos últimos anos temos feito a antiga e fora de moda salada de fruta aos cubos para contrabalançar os doces de Natal. A divisão é esta: o Nuno descasca, eu parto. E assim preparamos esta complicadíssima receita de sofisticada sobremesa.
Ainda assim este ano houve inovação: resolvi fazer Sonhos pela primeira vez na vida. Afinal algum dia teria de aprender. Acontece que temerária só li a receita da minha mãe no momento em que ia começar a preparar – havia apenas reparado antes nos ingredientes para comprar. Azar, aquilo é feito de uma massa à séria - é preciso mexer com vigor e ainda tem o que saber. O que vale é que tenho a ajuda do Nuno para bater a massa com força. A receita chega ao cúmulo de falar em quatro ovos, mas do cuidado para verificar se é desnecessária metade do último. Por alguma razão nunca me dediquei a estas artes. É coisa para muita inteligência e dedicação. Bom, no meu caso resolveu-se doutro modo: como eram grandes, pus apenas três ovos. E lá fritei as bolinhas feitas com duas colheres de sobremesa e os estafermos saíram maiores do que era suposto. Os da minha mãe são dourados e pequeninos, os meus castanhos e grandes. Bem dizia a tia T. que o lume tinha de ser brando. Estou a dizer isto mas não estavam maus de todo. Para o ano ficam melhor.
Ao final da tarde tentei dormir meia hora mas não consegui. Talvez porque tenha andado um quarto de hora à procura do Bolo Rainha: tinha-o perdido. Razão: é o Nuno que guarda as coisas nas prateiras de cima dos armários e quando pedi que guardasse as caixas da balança e da batedeira (que não foi precisa, mas antes os braços) ele enfiou caixa do bolo juntamente com as outras na prateleira de cima do armário-despensa. Já de manhã havia perdido os sapatos atrás das cortinas. Creio que o neurologista vai ter mais uma cliente.
Ao início da noite depois de conversa ao telefone com a minha enteada pegámos no nosso contributo para o Natal - Salada de Fruta, Bolo Rainha perdido e encontrado, Sonhos manhosos e nos pratos de loiça alusivos ao Natal dados pelo tio J. A. e pela prima E. - e lá fomos ter com a família. Ao pôr uma echarpe quente dentro do saco a cobrir as taças das sobremesas não pude deixar de me lembrar da minha mãe há trinta anos - recordo vê-la fazer o mesmo a caminho de Valinhas. São os tais evangelhos atrás da porta.
O jantar correu bem como é costume, com muitas picardias entre irmãos, os mais do que tudo a penarem pelas vergonhas que os fazemos passar, os nossos pais a tentarem pôr algum bom senso nos disparates verbais dos filhos, a tia em observação, um brinde ao tio distante mas que como de costume liga à hora da ceia de Natal para se juntar a nós, e os netos a alinharem nas patifarias que dão alegria à vida. Como é óbvio não há fotografias do mais importante. Mais tarde trocaram-se pequenas lembranças.
Não há fotografias do essencial, todavia há muitas do comezinho. Na cozinha muita loiça para meter na máquina. Compete-me a tarefa que não faço no dia-a-dia e por isso até me sabe bem nas festas. A minha mãe rabuja sempre comigo, às vezes apenas com o olhar: saia daí, eu faço – a discussão como se põe a loiça da máquina é um debate de décadas. O que interessa é que houve várias mãos a levantar a mesa e ficou tudo mais orientado para não deixar muito trabalho para a mãe.
À meia-noite já em casa abrimos os presentes a dois. A camisola, o estojo de manicure e pedicure, chocolates e o gravador digital do Nuno, que aproveitou logo para gravar as conversas banais como é costume. Os meus fios da Parfois (o desejado dos trevos e outro colorido para animar), a tesoura de cozinha (a mãe notou que eu tinha uma tesoura do chinês na gaveta da cozinha e quis reparar a falha), um porta-moedas, chocolates, uma echarpe quente (nos últimos anos têm-me dado várias e uso cada vez mais) e uma caneta do chinês com inscrições no estojo – não sou a única dos irmãos a pelar-se por compras deste género para desgosto dos outros elementos da família que acham uma heresia.
E claro não falou o mimo para o Ritz: um rato de corda.
Assim continua a descrição do nosso Natal comezinho.![]()
Na manhã de ontem houve saída a dois para pequenitas compras. Mania, para quê? Se até o costumeiro cabaz voltou? Mas faltava a canela, tinha-me esquecido da canela moída e já agora dos paus - os de cá de casa estão a acabar -, e também por causa das superstições na escolha das cores do fim de ano e dos mimos para os gatos da dona L. que cá veio hoje em substituição da próxima segunda-feira para minha alegria. O pequeno-almoço foi na rua: torrada, compal de alperce e café. Na mesa ao lado uma mulher chamada Liberdade trocava fotografias nas redes sociais com a ajuda de um amigo mais novo. Facto: a Liberdade existe, vi-a, é loira da tinta, faladora, ronda os sessenta anos e discute problemas familiares em tribunal e no café - tomei pequeno-almoço na mesa ao lado. Íamos também visitar uma moradia, porém o vendedor adoeceu. Ficou sem efeito até porque vi mais fotografias na página imobiliária e reparei que o acesso ao que seria o escritório deveria ser feito por escadas de metal. Nos últimos três anos registámos uma visita anual a casas em época natalícia, o que só confirma que esta é a altura propícia aos sonhos. Ainda de manhã semeei os não te esqueças de mim turcos - as sementes de Miosótis são minúsculas e eram muito poucas, a ver vamos se nascem no vaso da erva de gato que não chegou a despontar. E passei a Oliveira para um vaso maior.
A tarde foi de telefonemas e troca de mensagens antes de um reparador sono de fim de dia. Parei o ritmo para falar com família e amigos. Houve troca de palavras intercontinental sobre o gosto que está no sangue pelas árvores de fruto que une Portugal à Austrália e várias outras mensagens que temo sempre cansarem dada a profusão nesta época - mas será que vale a pena desacreditar na sinceridade e engrenar na indiferença? Uma conversa de telefone em voz alta para almoço que reúne avó, filha e neta homónimas, outra mesa mais a norte em fim de almoço com uma voz mandona e simpática de quem tem uma vida agitada, e mais perto a boa-disposição de quem apesar dos muitos afazeres passa sempre a sensação de que tudo se pode descomplicar com antecipação e plano, noutro telefonema a atrapalhação por me ter esquecido de um presente recebido (amanhã comporei a falta usando a oferta e tirando uma fotografia), noutra cidade o desabafo de quem tropeçou no gato e magoou o joelho no degrau da escada, nada que não se componha com a presença dos netos (as crianças sempre amenizam as dores e trazem esperança), um outro gato terrorista noutra casa, noutra fotografia, e conversa sobre os excessos de mimo e zelo com os cães e gatos, no entretanto entra uma mensagem terna de um amigo a quem ainda não tinha ligado nesta longa escadinha de chegados e menos chegados por ordem cronológica, e logo em seguida demorados desabafos entre duas amigas acerca da falta de tempo de tão veloz é a vida e como nos atafulhámos de compromissos e a consciência de termos de ser nós a impor limites pela simples razão dos outros não terem tempo ou disponibilidade para pensarem em nós. Falámos também no trânsito de ontem na A1. Pelo meio mais gripes, hérnias, cirurgiões e neurologistas, menos mau do que a pneumonia que me desaconselhou uma das chamadas previstas. Aos que padecem, os desejos são para que se restabeleçam rápido. E saúde, alegrias e realizações para todos.
À noite chá preto com mel, risos soltos e muitos desaforos no meio de conversas a dois a quem já restam muito menos anos dos que já passaram – a aconselhar planos futuros na consciência de termos de valorizar o que há e pode ser transformado no melhor dos mundos de sonhos já amadurecidos. Paz com rabugice à mistura, ternura, despaciência e amor.
É a nossa vida comezinha em época festiva, em véspera de Natal.![]()
Aproveitado do comentário-resposta ao post Sensatez.
Não precisamos recuar 2300 anos a Platão para a crítica da democracia directa e o apelo à existência de elites pensadoras. Nietzsche também criticava a democracia e as decisões das massas como expressão de mediocridade. Pugnava pelos tais seres excepcionais que liderassem. Hoje está outra vez em voga, o que diz muito sobre o nosso tempo. Cada vez que o vejo citado em páginas fofinho-impetuosas com frases inspiradoras da treta até tremo. Estas visões de arrasar o que existe para de dar azo a pulsões salvíficas são de uma inconsistência espantosa.
Serei naïf-enfadonha mas, seja qual for a forma de governo escolhida, ainda gosto de fios condutores, de harmonizar posições ditas antagónicas e da ideia de evolução com progressos e retrocessos. Gosto de ir a Rousseau buscar a ideia base de soberania do povo, de vontade geral ou interesse comum e de contrato social (devo ser uma perigosa e ignorante jacobina aos olhos dos "observadores"), mitigando-a com os ingleses (os “Johns” Locke e Stuart Mill ) na ideia de respeito pelas liberdades individuais (incluindo a liberdade de expressão), maioria representativa e divisão de poderes. E apesar do absurdo de compulsão opinativa em que vivemos ainda acredito com Tocqueville que a igualdade de oportunidades, o bom nível educacional transversal às várias camadas sociais e a liberdade de opinião podem potenciar a criação de um espaço onde se verifique a participação em liberdade dos cidadãos na vida pública, como propunha Hannah Arendt.
Mas esta gente sábia bem conhecia os perigos da tirania da maioria e que a igualdade pode conduzir à discriminação de quem pensa de modo diferente. Isto é, maior igualdade pode significar menor independência intelectual. Será esta a tal causa da decadência da democracia? Voltamos a estaca zero. É o que dá falar do que não se sabe, atirar meia dúzia de nomes de pensadores cuja obra não se leu, dizer três patacoadas e não se chegar a conclusão alguma. É por isso que não me gosto de meter nestas alhadas. Sinto-me sempre uma intrujona - não menos do que muitos que peroram cheios de si e de certezas.
Os postais "antigos" abertos ontem.
Cadeirão de orelhas, de 11.05.20.
Azálea, de 24.08.23. É impressionante o número de vezes que penso qualquer coisa durante o dia que não chego a concretizar, sequer a verbalizar e verifico no dia seguinte ter sido tocado por alguma leitura. Exemplo: ontem vi que a azálea tem duas flores novas à conta deste sol dos últimos dias, pensei em fotografar e pôr aqui no blogue. Não o fiz por falta de tempo. Hoje de manhã vi que abriram o postal da azálea. Está constantemente a acontecer. Tal como outro tipo de coincidências. Digo que é estranho; dizem-me que antecipo. Compreendem a razão para dizer que preciso limpar os cookies do cérebro e não do computador? É como já trazer o tal micro-chip na mioleira. E estou ciente que dá ideia de teoria da conspiração ou mania da perseguição. Sucede que nem tudo pode ser encafuado nessas respostas fáceis.
A quem irrito profundamente e a quem me encanita desejo Bom Natal e Feliz Ano Novo para si, sua família e amigos.
Aos demais de convivência transparente e pacífica desejo em rigor o mesmo: Bom Natal e Feliz 2024 para si, sua família e amigos.
No jornal onde não raro se chama (ou insinua) ignorante a quem passa.
Por acaso, o único que subscrevo.
Acontece a todos, é uma maçada.
Se não tivesse tanto sono escreveria sobre estes temas: casas e claridade, consulta médica, casas de acolhimento, Natal, planos para último fim-de-semana do ano, meias de seda e de lã. Teria talvez disposição para contar que há muito não me cruzava com alguém a fazer chichi na rua e que me causa alguma perplexidade ver uma etiqueta a anunciar a venda de "bonecos" de Presépio - imagens, apetece-me logo corrigir, com a indignação de reta-pronúncia. Mas estou muito ensonada. Fico-me por aqui, acrescentando apenas um comentário: parte substancial das agendas ou entradas em que refiro planos futuros de escrita ficam por aí mesmo e nada me pesa na consciência. Afinal deixar só a ideia no ar e ir abordando o tema ao longo dos anos em textos dispersos pode ser mais conseguido do que esmiúça-la no momento para sair bem alinhada e dentro dos padrões expectáveis. Há quem chame a este deixar fluir o pensamento e escrita falta de organização.
Agora, se me dão licença, vou passar-me pelo chuveiro, vestir o pijama, pôr a água a ferver para o saco de água quente e vou dormir. Boa noite.
Esta entrada é um misto das séries "Recapitulando" e "O post aberto ontem". Fico com a sensação de que quem abriu os postais conhece o blogue Comezinhas de trás para a frente, além de presumir a intenção. Hesitei em deixar o post anterior viver à superfície mais umas horas - sabido que o que passou vai quase sempre para o esquecimento - antes de voltar à carga com as questões usuais, plasmadas nos dois textos, de Abril último e de Junho de 2021, que reproduzo mais abaixo.
A despropósito ou nem tanto. Tenho plena consciência que reflexões ou longos devaneios maçadores não têm nem nunca terão muita audiência - e desta vez não estou a criticar, apenas a constatar. Nem sequer é queixume. É só a habitual dissecação de minudências que me interessam. Ser mais ligeiro ainda que dando aparência de profundidade através da sofisticação da linguagem*, da profusão de referências, da escolha de temas ditos "sérios" etc, criar enredo, comoção, reacção imediata, debate leve dá sempre muito mais resultado se a intenção for angariar clientela. Mas nem todos temos, sabemos ou queremos concorrer para o mesmo. Parece-me absolutamente válido cada um procurar o seu registo sem mimetizar o que é tido por receita de sucesso. Interessa, sobretudo, ser fiel a si. Talvez daí reagir tão mal aos castradores "conselheiros(as)" ou "consultores(as)" do êxito. Há-de chegar o momento de maior leveza em que não terei mais vontade deste tipo de remoques - virão outros, com certeza -, mas pelo visto ainda não é chegado esse momento de saturação, talvez porque leve muitos anos em cima de observação de estragos por prepotência sem que haja reacção por quem sofre as consequências - em muitos casos sequer consciência de estar a ser ofendido.
*A título de exemplo, ontem usei por aí a expressão "um bocado". Se fosse seguir os conselhos possivelmente usaria "um pouco" para respeitar a escrita asséptica mais comummente usada por gente que se diz ter muitos predicados e perderia o tom popular que não nos diminui, antes pelo contrário, enriquece. E podia dar exemplos no sentido contrário. Fui educada no gozo dos termos pretensiosos. Sucede que a definição do que é educado ou não é altamente subjectiva - depende de clã para clã, de matilha jocosa para matilha jocosa e também do dito elevador social - é uma forma de afirmação. Daí em rigor considerar pouco inteligente alinhar no sarcasmo básico - apesar de trazer tantos preconceitos vocabulares agarrados à pele - que visa achincalhar quem usa palavras pirosas de modo espontâneo - claro que quando o notamos em gente pespineta é inevitável o sentimento crítico, mas no geral o sarcasmo reactivo denota uma vez mais a tal necessidade de demarcação, os tais em bicos dos pés. E ser educado - aquilo para que devíamos concorrer - também é estar acima dessas pulsões de ego que dizem mais das nossas próprias frustrações, das necessidades de afirmação, da busca de pertença a uma tribo do que da piroseira ou falta de educação alheia.
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Toca a tentar mais umas linhas irreflectidas. De chofre. Afinal ainda há dias, depois de escrever o último texto do género, pensei que devia tentar engrenar e conceber qualquer coisa - hesitei em escrever obra, história e algo, porém obra é pretensioso, na história cansam os enredos e algo é poucochinho. Mas lá terei de arranjar termo correcto para definir o que faço, sem ser redigir linhas ou textos. Diria pensamentos se não fosse pueril, diria crónicas se o catálogo me coubesse. Diário, talvez tudo se resuma a diário. Ou simples notas soltas. Cai-me melhor. Não é importante agora, já dediquei seis linhas à casualidade. Abramos outro caso a apreciação. Hum, qual? Não sei mesmo. Pensei na conversa com o M. de há uns dias, mas ia cair no meu criticismo de sempre, mais uma vez admitido em diálogo. Passo sempre estas fases em que compreendo o quão pouco acrescentam pessoas gananciosas que se têm em grande conta. O M., como de costume, referiu meia-dúzia de nomes de pessoas cuja opinião ouvia e lia e um tédio enorme apoderou-se de mim. Tudo é redondo e fútil. É uma sensação comum a muitos que se cansam dos excitados interesseiros que ocupam o espaço público. Progressivamente fui deixando de lhes prestar atenção. Ainda há um ou outro que me levam tempo precioso, mas também esses irão à vida, mais rápido do que imagino, presumo. Dou crédito inicial por mais reservas sinta, retiro o aproveitável e passo adiante que se faz tarde para perder tempo com malabaristas. Cansada de gente falsa, arrogante e pretensiosa que se toma por esclarecida, capaz de entender o mundo e a todo o momento através da opinião enviesada e viciada se limita a engrenar na disputa do poder pelo poder. Pelo jogo, pela diversão, pela vaidade. Alguns no meio de tudo isso fingem procurar a luz da simplicidade para descanso da consciência. É tão só isso, um refúgio. Jamais renegam ao mundo do interesse, do artifício, da hipocrisia. Dissimuladamente fazem de conta que apreciam a lado honesto da vida, todavia limitam-se a achá-lo fofinho e caricato. Um apontamento bucólico a cortar o tédio da paisagem. Gozam de eterno desdém pelo verdadeiro, que consideram fraqueza e menoridade. Tomam-no por ignorância. Podem ficar onde estão. Longe. Bem longe. A distância que nos separa será sempre abismal. Adiante. Venha mais um caso à apreciação deste colectivo de juízes que é cada um de nós. Ah, e tal e coisa, não devemos julgar os outros. Ah, a verdade é relativa. Ah, todos temos imperfeições. Ah, a pluralidade de opinião é fundamental. Quanto mais o afirmam, mais julgam dissimuladamente, mais tecem e manobram na sombra a teia dos interesses e privilégios próprios ou de poucos, fazendo passar este jogo sórdido por defesa da democracia. Na aparência da tolerância criam uma sociedade desdenhosa. Incentivam sub-repticiamente os ódios latentes na sociedade, as invejas, os ressentimentos. Escarafuncham-nos para provocar mais dor e fazerem-se notar por contraste, para realçar a sua suposta superioridade moral e intelectual. Na aparência da tolerância, acicatam a violência: fazem de conta que combatem o ódio apenas na busca de maiores audiências ou do voto supostamente moderado. É a arte da farsa. A vitória da esperteza e do oportunismo alçados a sofisticação e do argumento a valor supremo de tolerância. A imposição do respeito por espertos demagogos de retórica fácil que aproveitam a apatia e silêncio de muitos para cativar os excitáveis e sempre mais interventivos e barulhentos. A vitória da ruidosa maioria das controvérsias, das questiúnculas, das causas rentáveis, da manipulação e culto da indignação sobre a discrição do bom senso e da busca do melhor para todos. A vitória dos interesses de alguns em prejuízo do todo, nunca abdicando de interesses próprios em benefício do bem maior. Desde a base ao topo de pirâmide da sociedade disseminou-se a farsa da esperteza e do oportunismo. É a derrota da inteligência e da sensibilidade, sempre desdenhada e descartada por não vender nem inflamar.
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Entre outros jogos de cartas em criança e adolescente joguei muito Crapô - uma espécie de Paciência disputada por dois jogadores. No mundo das cartas há um sem-número de expressões usadas, herdadas de antigos parceiros de mesa de jogo. O Crapô era sobretudo pretexto para longas conversas com os meus compinchas de serão: avó, mãe e primo.
Lembrei-me disto a propósito de uma expressão que a minha mãe usava quando na minha vez de jogar e havendo casas abertas, mostrava os passos todos - provando que era possível a jogada -, em vez de ir directa à conclusão, não insultando a inteligência da adversária. Dizia a minha mãe que se a sô dona L.W. ali estivesse me diria para não fazer joguinhos infantis. Referia-se à companheira de Crapô no Uíge.
A escrita e a opinião também têm" joguinhos infantis. Temo até que na maior parte das vezes não tenham mais do que isso mesmo. A obsessão da enumeração dos factos – os necessários e os inúteis - para conferir aparente seriedade às opiniões sujeita o mundo actual a um enorme e emaranhado dilúvio de argumentos supérfluos. E a reacção das pessoas que não estão viradas para joguinhos infantis acaba por ser a do gato do anúncio face à conversa da dona que lhe traz whiskas saquetas: obviamente, desliga para o Vaticano até ouvir o sumo do diálogo.
Consciente que no mundo actual vale a gestão das minudências e do supérfluo, quem não souber memorizar e digladiar argumentos supostamente fundamentados mesmo que forjados, estará votado à desconsideração. Factos existem para todo o gosto e feitio, vingam os floretes e oratória – conclusão a que cheguei na adolescência ao assistir ocasionalmente à verborreia argumentativa em lugares em que se dizia dar valor à opinião. A atenção a estas nuances terá contribuído para que começasse a lidar mal com o contraditório - megera me assumo.
Claro que a falta de consistência também existe. O passar um conjunto de cartas para uma casa aberta, sem demonstrar possibilidade da jogada, colocando-as duas a duas nas outras também abertas previamente, pode ser abusivo e enganoso por não ter fundamento (suficientes casas abertas) e estará dependente da seriedade de quem faz a jogada e da atenção do outro jogador verificar a sua legitimidade – será batota?
Este texto não é dirigido a ninguém em especial, nem crítica a ninguém em especial. É tão só uma constatação do absurdo argumentativo em que se transformam trocas de opinião aparentemente informadas e sofisticadas. Se esvaziássemos todo o supérfluo dessas discussões veríamos que a verdade e o essencial estão bem longe, e cada vez mais longe e arredados do que vinga no mundo.
No fundo, no fundo este postal é capaz de ser tão só saudade dessas jogatinas e do tempo em que me divertia com a Batalha Naval e a Bisca na escola ao invés aglutinar conhecimento como seria suposto. Deve ser isso. Nunca fui grande aluna nem jogadora, mas sempre aproveitei o momento e tentei dar atenção ao essencial.
Quais as preciosidades imprescindíveis ao curso da humanidade deixarei esta noite registadas? As televisões e o mundo online pipocam política. A sensação é a de estarmos já naqueles plenos quinze dias quentes anteriores ao Domingo de eleições, porém olho para o calendário e o dito teima em dizer que faltam quase três meses para as legislativas. Os excites com as movimentações dos protagonistas ou são precoces e o fogo apaga não tarda nada ou esta gente dos jornais e do comentariado pretende alinhar numa de tântrico e estender esta estucha por oitenta e tal dias. Há quem aprecie, a mim soam a empatas em monices sensaboronas.
Debruçar-me sobre caixas plásticas de cozinha parece-me muito mais palpitante. Sobretudo porque este fim-de-semana comprei um um recipiente na loja do simpático casal chinês vizinho. Não sei como são os tão desconsiderados estabelecimentos comerciais chineses dos meninos dos mindinhos no ar, do ai não me toques, mas os meus amáveis anfitriões – com vidas e preocupações normais de pais como uma filhota pequena; sei por a mãe me ter confessado não ter quem fique com a pequenita além determinada hora - venderam-me uma caixa de plástico capaz de ir ao micro-ondas "made em Fajões", concelho de Oliveira de Azeméis. Esta é para dar recheada de sonhos feitos por mim - este ano vou estrear-me nessas lides natalícias. Cá em casa já tenho duas da mesma gama de tamanhos diferentes. Só estranhei o rótulo dizer “sem tampa”.
Outro assunto palpitante do dia é o frio de rachar. Revigorante. Até as ideias ficam mais espertas – não é que se note aí fora, mas cá dentro estão muito mais frescas. Fazer o percurso casa trabalho a pé com estas temperaturas faz renascer qualquer um para a vida. A aragem gelada, que corta a pele da cara como lâminas, espevita e faz sorrir. Nas mãos a sensação não é agradável, pelo que fui desencantar umas luvas que é bem possível tenham mais de vinte anos. Outros pares de pele não sei onde andam, mas com certeza ainda existem. Fico-me por estas de lã que me sabem pela vida. Durante o percurso é engraçado assistir aos comentários das pessoas que saem dos carros, casas e lojas. Interjeições e comentários reactivos vários disparam da boca como vergastadas de têmpera. O frio faz falta ao carácter, essa é que é essa.
Depois da passeata cortante sento-me no estaminé com o pequeno-almoço: nuns dias café, água e banana, noutros café, água e pão de abóbora e noz. E começa o dia comezinho e retoma o ciclo que dá ideia ser sempre igual aos distraídos habituados a barafustar contra vidas rotineiras sem sentido, como se o sentido fosse inatingível.
E assim se vai fazendo um diário fiel em vez de um tratado de aparências. Se tivesse pachorra até compraria uma agenda anual daquelas onde antigamente se anotavam todas as compras com o preço (e a soma no final) para gerir o orçamento familiar.
[Durante o dia não tive oportunidade de escrever. Se o tivesse feito falaria do sonho da noite passada. Julgo que na sequência das conversas sobre a semana de quatro dias: acordei quando estava a averiguar a possibilidade de nos inscrever (ao Nuno e a mim) num curso de Literatura (o Nuno além de levar comigo todos os dias a ler postais, ainda vai ter que ir para a escolinha comigo quando afinal teria sido suposto frequentar a Escola Superior de Música - não sei se compre duas batas aos quadradinhos e duas mochilas), hesitante em escolher voltar à Católica (nos sonhos não há rigor nem lógica) ou Faculdade de Letras. Estava com o talão de recibo da propina na mão. Tínhamos 90% de desconto: escrito o valor de 9,98€ mês (não digo que os meus sonhos são muito divertidos?). A bem dizer preferia um mestrado de História de Arte, aliás, acho que quando vier a semana dos quatro dias já haverá qualquer coisa mais sólida online. E aí será ouro sobre azul. O essencial é desviar-me de tudo quanto seja a corja das vedetas da "erudiçãozita" nacional. Ainda curioso foi o facto de numa das primeiras leituras da manhã ter dado com um postal onde se referiam dificuldades no acesso ao ensino superior - isto anda tudo ligado, eles "andem" aí. E que é que as compras do supermercado têm a ver com sonhos, mestrados e licenciaturas? Tudo, tem tudo a ver. Só para terminar com a nota azeda da praxe. Como é costume torpecei por aí numa pespineta enjoada armada em oráculo do rigor a dar conselhos muito iluminados - aliás é recorrente, a espevitada está sempre em modo de orientadora do correcto e incorrecto na arte de bem aparentar -, dessas por quem batem os badalos dos elogios interesseiros e previsíveis; como de costume só leio as gordas e passo adiante: receita de muitos anos - não perder tempo com de leitura de presumidos e presumidas que se auto-promovem à custa de redes de influência; faz maravilhas à higiene mental e à dignidade.]