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28/12/2023

O que vai na mioleira

No fim-de-semana de Natal fui fazendo recolha de vários parágrafos de notícias com a ideia de quando redigisse os diários daqueles dias miscigenar a descrição dos acontecidos com a realidade do país e do mundo. Mas nicles. Acabei por simplificar reduzindo-os a um simples relato. O apanhado “dados” por aí perdido numa página word ficará ao Deus dará provavelmente sem qualquer serventia - podia escrever utilidade, mas não era a mesma coisa.


Havia pensado fazer um balanço do ano, mas está-se a esgotar e não me parece que tenha tempo para isso. Como de costume ao descrever as intenções goradas de escrita acabarei por abreviar dizendo o que queria, mas de modo sucinto. Se alargasse ao último par ou terno de anos diria que introduzi simples mudanças. Fiz pequenas aquisições para casa que me trouxeram conforto: a mesa de trabalho com estante, o sofá, poltrona e o tapete. Investi na minha saúde fazendo a cirurgia bariátrica com perda de bastantes quilos. E no cuidado com a imagem usando alinhadores de dentes e sujeitando-me a depilação a laser. Introduzi uma mudança positiva em termos profissionais, ficando a trabalhar para duas empresas em simultâneo. Voltei a ter o gosto de viajar indo a Amesterdão e à Turquia. Recomecei a andar a pé, o que melhora substancialmente a boa-disposição para trabalhar. E natação que me dá imenso gosto apesar de nos últimos meses me andar a baldar. Até me casei, coisa estranha. Parecendo que não o novo estado civil traz um espírito diferente à vida caseira, quotidiana e às próprias aspirações futuras. Parecendo que não são bastantes mudanças para quem acaba de entrar nos cinquenta. Que sucederam a anos com outro tipo de novidades.


Há semanas tive a sensação de desgosto, é recorrente. Nunca dói de uma vez, por dor inteira e inteiramente explicável. Se fosse assim poderia ser arrumada a um canto. Xô, fica aí tristeza encaixotada que vou tratar de minha vida. Mas devia ser assim. Aliás, é um pouco assim quando identifico as causas. Todavia há aquela moedeira que lateja no espírito, que moteja do ânimo. Uma mágoa difusa que diz mais do que permito interfira no meu ânimo e sentimentos do que da razão. Essa sempre aplaco com maior objectividade. Avante, imponho-me. Que de deslealdades, baixezas, desatenções ou simples incompatibilidades não reza a história. Vá, até reza, mas em nota de rodapé como mero percalço de caminhadas que valham a pena.


E agora ocorreu-me coisa muito diferente do que por até aqui deambulei. A ideia de estar desfasada da realidade ou de sempre procurar uma visão que chamo naïf do mundo. O que quero dizer? Não é por desconhecimento da vulgaridade, da crueza, da miséria, do conflito, da violência que não as evidencio. É por simplicidade. Ao passo que há gente que sente necessidade de mostrar as podridões do mundo por razões diferentes - para as denunciar e combater, para denotar conhecimento ou para vibrar com elas – há outros como eu que não lhes sentem o apelo. Denunciar e combater o quê? Se as menções mais do que restringir, potenciam-nas. Mostrar ilustração da treta para quê? Se não preciso exibir-me. Vibrar com o lodo porquê? Se me entedia.


Já agora mais um tema extra-propósito. Acerca de fazer sala. Há leituras e conversas que acrescentam. Há outras que se resumem à expressão fazer sala. Quando vejo muitas menções a artigos, palestras, livros etc de amigos, conhecidos e badalados em catadupa por mimetismo compreendo que estão a fazer sala. Vale o mesmo do que falar do tempo ou de futebol à porta da sala de audiências antes do julgamento ou nos minutos que antecedem uma reunião de empresa. Nada. Futilidade ou frivolidade pura. Temos de o fazer quando nada de importante é aconselhável dizer. E pensar que há vidas em que isto é o sumo da existência: as relações e a vacuidade da alegada erudição. Apercebendo-me disto mantenho distância, retiro-me para o meu mundo prosaico onde as molduras não valem mais do que os quadros. Sabendo que só vale a pena intervir levantando-se questão relevante em que marcar posição seja de facto importante: aí sim sujeito-me a aproximar das aparências por breve tempo, para logo recolher ao mundo que vale a pena – quanto mais não seja, este, o comezinho. Saiba não voltar a prolongar tempo demais a intervenção em espaços onde vinga a aparência. É certo que se aprende sempre qualquer coisa, mas o desgaste pelo enjoo acaba por fazer mossa e já vou tendo idade para me poupar.


Outra nota rápida ainda sobre disfarces ou ilusões. A linguagem supostamente polida – e os tiques no uso da língua e no tipo de referências -, nem sempre, mas denota muitas vezes mais pretensão do que instrução e educação. O recurso a termos e ditos decalcados entre clãs são expressão disso mesmo. Também fazem parte de fazer sala. E não vou adiantar muito acerca do assunto, até porque já me fartei de descrever a forma como alguns se põem em bicos de pés seja na Ana Paula, seja aqui nas Comezinhas. A linguagem é só mais um instrumento.   


E voltando às mudanças. Talvez 2024 traga uma nova casa. Hoje resolvi investigar outras além desta aqui em Cedofeita. Vi uma em Lordelo do Ouro. Seria um regresso a essa zona da cidade. Muito bonita, com vista mar. E perto de um bairro social problemático. Vi outra em Campanhã, com jardim. Estrearia viver na quarta freguesia do Porto e mataria saudades de uma zona pela qual tenho carinho por memórias da infância. Talvez mude de casa. Ou não. Isto de mudanças ainda pesa, além do orçamento, no lombo. Porque encaixotar e desencaixotar uma casa é tarefa árdua. Ainda há menos de seis anos fiz a última mudança. Como direi? Estou tentada. Isto apesar de há poucos meses estar convencida que ficaria por muitos anos nesta casa e arranjaria sim um segundo casinhoto longe com erva à volta para plantar as jovens árvores que tenho na varanda.


Mais alterações? Continuo sem saber das profissionais. Mas também não tenho pensado muito nisso. No Outono do ano passado penei julgando poder ficar no desemprego e afinal tudo se compôs. Este Verão penei sabendo do meu futuro incerto (mas mais seguro) neste final do ano. Adiei decisões, como adoptar uma gata, e afinal nada se definiu. Tanta coisa na minha vida ficou em águas de bacalhau temendo adversidades futuras que não se chegaram a verificar ou que fiquei sem saber se ocorreriam. É aquela velha história de só nos arrependermos do que não fizemos. Por acaso nem sei porque digo isto: afinal nem desses arrependimentos sofro.


Depois há o mais importante. O que vier, virá.


Para registo: só ontem comecei a empreitada dos Titãs de Montefiore. Li alguns soltos, mas agora é para levar a eito. Comigo as leituras rendem. Afinal comprei o livro em Agosto, aqui falei dele, mas só agora lhe pego à séria.


E pronto, é isto.