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23/12/2023

A propósito da decadência da democracia

Aproveitado do comentário-resposta ao post Sensatez.


Não precisamos recuar 2300 anos a Platão para a crítica da democracia directa e o apelo à existência de elites pensadoras. Nietzsche também criticava a democracia e as decisões das massas como expressão de mediocridade. Pugnava pelos tais seres excepcionais que liderassem. Hoje está outra vez em voga, o que diz muito sobre o nosso tempo. Cada vez que o vejo citado em páginas fofinho-impetuosas com frases inspiradoras da treta até tremo. Estas visões de arrasar o que existe para de dar azo a pulsões salvíficas são de uma inconsistência espantosa.


Serei naïf-enfadonha mas, seja qual for a forma de governo escolhida, ainda gosto de fios condutores, de harmonizar posições ditas antagónicas e da ideia de evolução com progressos e retrocessos. Gosto de ir a Rousseau buscar a ideia base de soberania do povo, de vontade geral ou interesse comum e de contrato social (devo ser uma perigosa e ignorante jacobina aos olhos dos "observadores"), mitigando-a com os ingleses (os “Johns” Locke e Stuart Mill ) na ideia de respeito pelas liberdades individuais (incluindo a liberdade de expressão), maioria representativa e divisão de poderes. E apesar do absurdo de compulsão opinativa em que vivemos ainda acredito com Tocqueville que a igualdade de oportunidades, o bom nível educacional transversal às várias camadas sociais e a liberdade de opinião podem potenciar a criação de um espaço onde se verifique a participação em liberdade dos cidadãos na vida pública, como propunha Hannah Arendt.


Mas esta gente sábia bem conhecia os perigos da tirania da maioria e que a igualdade pode conduzir à discriminação de quem pensa de modo diferente. Isto é, maior igualdade pode significar menor independência intelectual. Será esta a tal causa da decadência da democracia? Voltamos a estaca zero. É o que dá falar do que não se sabe, atirar meia dúzia de nomes de pensadores cuja obra não se leu, dizer três patacoadas e não se chegar a conclusão alguma. É por isso que não me gosto de meter nestas alhadas. Sinto-me sempre uma intrujona - não menos do que muitos que peroram cheios de si e de certezas.