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14/12/2023

Trigo

É um tanto patético alguém afirmar-se fora do baralho. Dá sempre a ideia menor ou pueril de querer marcar diferença, mas é facto. Foi o modo como nasceste para o mundo online: a estranha, a forasteira fora do baralho. Se assim sempre te sentiste, porque não assumi-lo quando ainda em idade de o fazer? Afinal estavas na casa dos vinte, pese embora a carga de ombros fosse bem mais entradota e pesada – não é essa a imagem que chegava lá fora, ao que parece davas um ar muito mais ligeiro e leviano. É o que dão julgamentos muito inteligentes e oportunistas: ver tudo e todos por catálogos e pela rama.


Vem isto a propósito de algum desalinho que te porá sempre na berma da vida em sociedade. Sempre tendeste para ave solta, mui pouco dada a tribos e grupos que tais. Sempre te fez espécie a coesão de clube restrito. É mais fácil encontrares afinidade com indivíduos isolados do que aderires a uma rede de relações. A disciplina de voto e opinião mimetizada nunca te entrou na cachimónia. E por mais te façam sentir errada, te queiram dar lições de falsa civilidade e sabedoria e dicas de ajuste à realidade, preferes continuar a caminhar pelo próprio pé ainda que a levar na tromba. Preferes ser alvo de desamor e desprezo à dissimulação e à intrujice. Manias. E ainda assim ao longo das décadas vais aprendendo até com os que te desprezam e tantas vezes são bem menos do que se julgam.


Talvez por isso reajas mal às pancadinhas nas costas e ao permanente encosto. “Entre pares” como gosta de pensar quem faz a vida entrosado. “Entre iguais” é suposto elogiar mais por obrigação do que por devoção e cumprir todos os rituais de iniciação e perpectuação de alianças de interesse. Das que podem durar décadas sem real verdade e confiança na relação. Ir ao beija-mão e pagar em referências, elogios e presenças todas as esmolas de consideração artificial ou egoísta.   


Claro que isto pode ser exagerado e haverá pontualmente bons ou genuínos sentimentos no meio da falsidade, mas para quê sujeitares-te a esse calvário do oportunismo, se sabes fazer a vida pelo próprio pé? E sobretudo se cada vez mais te é indiferente a herança que deixas. Se o que sobrar for rigorosamente nada, não sofrerás com isso à hora da morte. Pelo contrário, sairás do mundo mais leve. Vês tantos trabalharem para a imagem de génio, arte e erudição, convencidos de deixarem importante legado à humanidade em gestos, estratégias e materiais de suposto grande comprometimento com o seu tempo. Não farás concorrência - nem terias capacidade para tal. Por ti passas pelo mundo apenas como testemunho vulgar - sem importância -, pasmada não de espanto, mas de cansaço com tanto génio de imitação alheio.


Não é questão de prescindir dos outros. É não os usar com oportunismo como meio de singrar. É não te sujeitares, ou pelo menos tentares não o fazer, ao habitual jogo das trocas de favor, através do qual vacuidades se transformam por artes mágicas em sumidades. Sejam trocas de favor formais ou informais. Ir passando aqui e acolá e não confundir amizade com busca de benefício calculista e egoísta. Já te enganaste? Ui, vezes sem conta. O caminho está cheio de aparências. Elas iludem e as boas palavras são cada vez mais fáceis e baratas sobretudo nestes novos mundos abertos pela internet. Cais inúmeras vezes. Nuns casos na falsa intimidade, noutros casos na falsa estima. São pecadilhos de que não te arrependes por aí além. És também feita de matéria crédula e não tens remorsos. Todos esses mundos de facilidades, que em regra se aproximam rápido e cheios de familiaridade, tu cá tu lá, ou repentina estima e consideração entusiasta, acabam por se revelar artifício, repentino e superficial interesse - às vezes prolongam-se no tempo, mas na base da manha. De qualquer modo, apesar de todos os defeitos comportam eles próprios realidade onde podes encontrar matéria de conhecimento. Não se perde tudo: entre o joio ajoeira-se trigo. E se mais não tiver importância, sempre entretêm.


 


Adenda. Não faz sentido nenhum pôr a etiqueta - Tag - neste postal. Onde raio isto é opinião? É apenas um punhado de considerações sem importância que não se costumam fazer em voz alta. Mas vou actualizar a hora e acrescentar a tag para pescar mais um ou dois leitores a juntar à dúzia habitual. Hoje apetece-me, apesar de ser pura batotice, isto é, promoção tonta ou exibicionismo. Amanhã pode não apetecer. E é assim a vida.