Agora que já mostrei o meu novo brinquedo de astros já posso voltar a escrever – é como quem diz: continuar a brincar. Sim porque isto de deixar deslizar os dedos tem dias que é puro prazer. Começo no Vale de Josafat para dizer que pouco ou nada sei acerca desta região simbólica – por vezes apontada a leste de Jerusalém, nas redondezas do Monte das Oliveiras -, onde Deus julgará as multidões, segundo o profeta Joel no Antigo Testamento. Nada sei agora, porque em miúda quando ouvia a minha avó falar em Vale de Josafat – ou talvez também na escola da Misericórdia, não sei -, mais do que pensar, sentia o que seria isso de todos ficarmos a saber ou conhecer todos, tudo quanto pensamos ou pensámos e fazemos ou fizemos. Não era uma sensação agradável, o que demonstra não me ter em boa conta – julgo que temia soubessem o que pensava: só asneiras com toda a certeza. Agora e para começar oito mil milhões, fora os que já passaram, parece-me tarefa hercúlea. A ideia de Juízo Final é apelativa e parece fácil, mas está longe de ser. Se pode constituir um extraordinário escape para vontades vingativas mais ou menos imaginativas, quem nele trabalha com afinco acaba por se esfolar vivo, que o diga Miguel Ângelo penando na Capela Sistina. E por aqui me fico, acrescentando apenas que um dia, quando souber bem os contornos da diferença entre Messias e Jesus Cristo voltarei a fazer um postal deste género.
De onde vem isto? De uma ideia bem fútil. Há dias em que me acho medonhamente feia, noutros, bonitinha – nesses últimos aproveito para tirar fotografias a ver se me engano. Ora há uns dias nas minhas deambulações mentais descobri que são os traços cristãos de gentileza (aparente, quem sabe) que conferem a suavidade da aproximação à beleza. Há assim qualquer coisa de bonomia num sorriso bondoso de Nossa Senhora. Heresia, heresia, sacodem os iluminados devotos. Na maioria dos dias sou francamente judia, de traços muito definidos e duros. Carácter mais determinado. Está no sangue, há-de vir à tona, não há como suavizar a conversão ancestral. E ainda há os dias em que nem uma coisa nem outra, fico mesmo com cara de rafeira feiosa. De modo que é assim tal qual me vejo. Talvez devesse fazer o tal teste genético que encomendei online, mas acabei por não concluir e devolver para obter os resultados, por não me apetecer fornecer dados genéticos a uma qualquer organização que os publicita na internet. Quem sabe descobriria afinal não ter sangue judeu? Teria sido uma história mal contada. Quem sabe não fosse preponderante um qualquer outro grupo étnico? Podia ir para a Torre do Tombo - não faz o meu género de ignorante que confunde herança genética por região geográfica e religião -, isso é para gente sábia.
Por agora é tudo, como se pode constatar não tinha nada de jeito para escrever. Só puro prazer de dizer o que me apetece. Para ilustrar este postalzito deixo duas imagens do livro que me deu a minha avó: o volume IV do Lives of The Fathers, Martyrs and Principal Saints, de Alban Butler, edição de 1862. Devia ler e inspirar-me na santidade dos biografados. E faço-o. Começando e continuando por fazer só asneiras. Como é sabido Santo que se preze, antes da vida devota ao Bem, faz tudo quanto não deve.