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10/12/2023

Mais uma corrida

Mais uma viagem. De Cacilhas a Santa Apolónia de Uber. Motorista de meia idade, brasileiro. A conversa começa amena acerca de cegos de bem com a vida. Ele formado em História recorda um amigo da faculdade, professor de ciências da computação. Um homem de esquerda com quem se entende bem. A conversa desliza e por qualquer razão digo: o mundo está louco com as guerras de informação. É a era da pós-verdade, diz do volante. Para continuar com a descrição do Brasil: Bolsonaro destruiu o país. Fala das desigualdades no Brasil - com trinta milhões de pobres - e no mundo. Provocadas pelo capitalismo, afirma. Da responsabilidade dos Estados Unidos na Guerra da Ucrânia. Lembro o ímpeto imperialista de Putin. Do massacre de palestinos. Recordo veemente o massacre hediondo de judeus. Mostro desagrado firme por manifestações de apoio ao Hamas. Diz-me que não responde ao horror com horror. Abstenho-me de continuar a discussão neste ponto.


Reconheço que é inquestionável existência de desigualdades no mundo. Falámos da inexistência de SNS nos Estados Unidos e no começo da depauperação das "seguranças sociais" europeias e demais Ocidente. Ele ensaia a defesa dos sistemas comunistas, nomeando China e Rússia como entes fora destas desgraças. Acusa Estados Unidos e Reino Unido de dominarem o mundo pós-guerra. Fala do poderio militar. É facto, afirmo, e volto à tecla do costume: é sempre preferível a Democracia. O Nuno reforça a ideia. Lembro que a Europa viveu o período razoável de bem-estar económico sem guerras. O Nuno, habituado a conversar com sul-americanas fãs de Putin, aproveita para descrever as diferenças abissais que encontrou na RFA e na RDA no ano da queda do Muro de Berlim. Continuo para dizer que não queremos repetir o terror da URSS com milhões de deportados e assassinatos. Nem reconhecemos qualquer vantagem em regimes revolucionários/totalitários. O Nuno acrescenta sensatez à conversa. O condutor diz-nos cândido que o comunismo ainda não foi consumado e quando for, não haverá  sequer Estado. Repudiámos delírios. A conversa volta-se para o comezinho: o quão condicionados na vida económica e burocrática. Ele refere o trabalho precário. Eu refiro a forma como lidámos de modo automatizado e escravizado seja com os grupos económicos, seja com Estado. Recordo o sistema de avaliação social ou cívica da China. Digo que temo daqui a alguns anos não dispormos de qualquer autonomia, dando o exemplo financeiro: impedir um indivíduo de comprar automóvel face à má pontuação na avaliação como cidadão do Estado ou cliente de grupos económicos.


E pronto, cá vamos no Intercidades.