Pesquisar neste blogue

01/12/2023

Conversa de café, ciência ideológica e factos sectários

Nós, os ignorantes das conversas de café,* estamos habituados a ser desconsiderados pelos senhores das teses e conclusões das ciências e os senhores dos factos. Cientistas ou investigadores das ciências sociais e económicas da banda da “ciência”, jornalistas e juristas do lado dos “factos”. Estamos habituados a apanhar na tromba e vamos continuar a perorar contra a vontade da vossa superior sapiência, sabendo que não temos audiência nem vendemos. Estamos no nosso elemento - o da ignorância - só para vos dar palco.


Covinha averiguar a orientação ideológica das teses sociais e económicas e da argumentação dos juristas e jornalistas. Todos nos habituámos a satirizar a artimanha dos advogados ao manipular factos e provas em benefício da causa ou interesse do cliente, mas estaremos cientes do ardil ideológico na promoção e venda das ciências sociais e económicas nos jornais? Não, isto não é teoria da conspiração: é realidade comezinha das discussões no espaço público. Veja-se o exemplo abstracto, claro, da cientista social que à custa de criteriosos levantamentos estatísticos e aturada investigação e análise comparada defende energicamente a engorda a toda a brida dos serviços do Estado e respectivo 'complicómetro' de procedimentos para prover esse bem superior que é o conjunto de regalias de uma fatia da população activa votante - tratando a pátria como refinado paté de ganso. Ou a outra cientista económica que se péla por impostos sobre os rendimentos dos remediados - esses malfeitores que tem o atrevimento de não viver na miséria. Mas há também os cientistas da outra banda que partem do bom senso de considerar errado fazer julgamentos de acções do passado histórico à luz do pensamento actual para as adultíssimas teses do vale tudo até arrancar olhos desde que sejamos aparentemente civilizados - os das teses fabricadas, que a pretexto da defesa da liberdade e da maturidade não só financeira como intelectual e da apologia do mercantilismo fazem tábua rasa das distorções da justiça provocadas pela mais pura ganância e oportunismo. Como se as abstracções libertárias potenciassem um desenvolvimento económico, social e cultural efectivo e equitativo.


Mas voltemos à ciência e aos factos. Tomemos o exemplo da História e da estatística. O conhecimento da História e o relato dos factos históricos é inúmeras vezes enviesado para orientar opinião. Tal como o recurso à estatística. A meia verdade – sim, os factos em muitos casos são verdadeiros – e a selecção das verdades que interessam à tese ou ao argumento podem ser tão danosos para o conhecimento, a verdade e a sanidade das discussões no espaço público – comunicação social e redes sociais – como a ignorância da populaça ou a falsificação da História e da estatística.


O desconhecimento da História é mau, sem dúvida. Todavia a substituição da ignorância pelo excite das teses ideológicas polarizadoras é tão pueril - para usar uma imagem cara aos eruditos - e tão manhosa (mais, aliás) do que a nossa conversa de café – a nossa, da populaça. É por isso no mínimo divertido ver “estudiosos”, “investigadores”, “iluminados” convencidos da sua maturidade e seriedade intelectual – só rindo.


A intuição do bem e do mal é-nos inata. A população pode ser manipulada pelas teses e argumentos – pela razão, dizem os sábios -, mas tenderá a guiar-se pela intuição na hora do voto ou da abstenção. Claro que a intuição é incerta e pode estar inquinada – nos tempos modernos mais viciada ainda atenta a profusão de dados, de informação que jorra a todo o instante e do esgrimir de teses e argumentos de facção. Onde irá parar a intuição do bem e do mal toldada pela desinformação das elites na comunicação social e inebriada pela voragem opinativa das redes sociais? - ambas sem freio e manobradas por  interesses económicos e ideológicos tantas vezes difíceis de identificar.


Não sei responder e no passado recente enganei-me a ler os sinais. Esta realidade absurda do espaço público de opinião que venho descrevendo há anos - tantas vezes dando testemunho dos efeitos na primeira pessoa, passe a redundância - já entrou num patamar de imprevisibilidade. É ainda mais grave do que temia. Via a coisa como uma tendência, mas agora confirmo como facto. A opinião é absolutamente manipulada por gente sem escrúpulos mas também, ou sobretudo, pelo puro absurdo do acaso construído ao segundo – entramos em roda livre. Resumindo: a maioria de nós não sabe o que está a dizer e quanto mais convencida da sua sapiência e erudição, pior. Bem sei que há sempre quem diga muito orgulhoso que acertou na análise e nos vaticínios. Normalmente, mentem.


Não disse nada que não seja do conhecimento de muitos. Sucede que entre os muitos que sabem isto – mais do que isto e capazes de o expressar muito melhor e de modo mais estruturado do que eu – são os mesmos cuja prática opinativa olvida tudo quanto sabe por pura preguiça de dignidade – dá muito trabalho tentar exprimir ideias correctas que procurem o bem comum, se pudermos debitar, enquanto nos espreguiçamos na vida fácil, umas “verdades parciais”, uns "elogios ou insultos semi-mentirosos”, umas "acusações injustas" que nos beneficiem ou privilegiem a nossa facção. Às vezes, está apenas em causa a arbitrária inclinação do momento ou a manifestação de um acumulado de preconceitos. São os mesmos, dizia, que elaborando uma tese em abstracto e partindo da conclusão para a premissa ao contrário do que nos ensina a verdadeira ciência, constroem narrativas pseudo-científicas para manipularem a opinião pública. Ou os que dão eco nos seus espaços mediáticos a teses sectárias para em seguida darem largas à retórica na defesa da facção que representam.


Dir-me-ão: o que há de novo? Isso sempre foi assim. É normal. Aliás, o debate é benéfico. De muitas asneiras polarizadas pode nascer a luz. O jogo de interesses ou jogo do poder está na natureza do homem. Contra estes argumentos de avozinha sábia que já desistiu há muito de tomar parte na vida mundana e tricota a camisola do neto à lareira não me apetece contra-argumentar. Se gostam de historinhas da Carochinha, das contadas em perspectiva enviusada que por mero desporto nega a verdade da versão relatada pela facção contrária - a dos ignorantes - claro que não vos vou tirar esse prazer, agora que se aproxima o espírito natalício. Paz e amor.


 


*Pura brincadeira com a saída de uma investigadora das ciências sociais, a quem o que mais apreciei ter dito foi: "nós, os cientistas".


 


Bom feriado e bom fim-de-semana.