Quais as preciosidades imprescindíveis ao curso da humanidade deixarei esta noite registadas? As televisões e o mundo online pipocam política. A sensação é a de estarmos já naqueles plenos quinze dias quentes anteriores ao Domingo de eleições, porém olho para o calendário e o dito teima em dizer que faltam quase três meses para as legislativas. Os excites com as movimentações dos protagonistas ou são precoces e o fogo apaga não tarda nada ou esta gente dos jornais e do comentariado pretende alinhar numa de tântrico e estender esta estucha por oitenta e tal dias. Há quem aprecie, a mim soam a empatas em monices sensaboronas.
Debruçar-me sobre caixas plásticas de cozinha parece-me muito mais palpitante. Sobretudo porque este fim-de-semana comprei um um recipiente na loja do simpático casal chinês vizinho. Não sei como são os tão desconsiderados estabelecimentos comerciais chineses dos meninos dos mindinhos no ar, do ai não me toques, mas os meus amáveis anfitriões – com vidas e preocupações normais de pais como uma filhota pequena; sei por a mãe me ter confessado não ter quem fique com a pequenita além determinada hora - venderam-me uma caixa de plástico capaz de ir ao micro-ondas "made em Fajões", concelho de Oliveira de Azeméis. Esta é para dar recheada de sonhos feitos por mim - este ano vou estrear-me nessas lides natalícias. Cá em casa já tenho duas da mesma gama de tamanhos diferentes. Só estranhei o rótulo dizer “sem tampa”.
Outro assunto palpitante do dia é o frio de rachar. Revigorante. Até as ideias ficam mais espertas – não é que se note aí fora, mas cá dentro estão muito mais frescas. Fazer o percurso casa trabalho a pé com estas temperaturas faz renascer qualquer um para a vida. A aragem gelada, que corta a pele da cara como lâminas, espevita e faz sorrir. Nas mãos a sensação não é agradável, pelo que fui desencantar umas luvas que é bem possível tenham mais de vinte anos. Outros pares de pele não sei onde andam, mas com certeza ainda existem. Fico-me por estas de lã que me sabem pela vida. Durante o percurso é engraçado assistir aos comentários das pessoas que saem dos carros, casas e lojas. Interjeições e comentários reactivos vários disparam da boca como vergastadas de têmpera. O frio faz falta ao carácter, essa é que é essa.
Depois da passeata cortante sento-me no estaminé com o pequeno-almoço: nuns dias café, água e banana, noutros café, água e pão de abóbora e noz. E começa o dia comezinho e retoma o ciclo que dá ideia ser sempre igual aos distraídos habituados a barafustar contra vidas rotineiras sem sentido, como se o sentido fosse inatingível.