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02/12/2023

Década

Como fechar a década? Com o balanço. Não custa muito a fazê-lo admitindo o muito tempo que perco com o foleiro, as irritações e o supérfluo - o que me diminui e inspira os piores instintos. Feito o mea culpa, seria um bom propósito ao encetar nova década dedicar-me a tempo inteiro ao que é verdadeiro, leal e motivador. E estudar mais, escrever mais. Só boas intenções ao tentar dissipar a má sensação provocada pelo vício de cair nas armadilhas das provocações e da frivolidade.


A década começou com o início do declínio profissional e a empolgação na vida afectiva. Abriu ainda com muitos sonhos. O principal ficou encerrado com a decisão negativa ao fechar do pano do decénio e a decisão de atenuar a carência provocada com dispor do nosso tempo e recursos com crianças e adolescentes que precisem. A vida é como é. Outra aspiração importante teve um apontamento de concretização que ficou na prateleira. Entretanto decorre o dia-a-dia de escrita e o encorpar deste diário que o tempo dirá se vai para o lixo ou para a prateleira do esquecimento. A ambição não vai além do expor o que penso e sinto diariamente.


Sobrarão sonhos? Ou projectos? No fim da década houve uma pequena melhora em termos profissionais. Não me cairia mal outro desenvolvimento positivo nessa matéria, mas não me vou mover mais do que já fiz para obter a melhoria. Se acharem que mereço e posso ser útil, dir-me-ão. Se não acharem, ficarei a trabalhar para a reforma e nada mais do que seja justo fazer da minha parte. Ao contrário dos sonhos na vida a dois, no qual o mais importante passa pela minha capacidade de continuar a acreditar e na vontade de entrega. No fundo corresponder à constante dádiva de amor com que sou brindada. Esteja eu à altura e que o carinho e a confiança que nunca foram abalados nestes 23 anos – nem no interregno de 10 anos - possam dar-nos momentos ainda mais bonitos e cúmplices. E que possamos ter sorte no meio alternativo que arranjamos para suprir a falta de filhos em conjunto. Depois há os sonhos materiais: o casinhoto com jardim; julgo que há-de vir. Bom, claro, e o mais importante: o voto para não sermos traídos pela falta de saúde.


O amadurecimento permitiu uma cada vez menor dificuldade em expressar o que sinto. É talvez a grande conquista da década, depois da década anterior ter sido a da superação. É uma sensação agridoce, a de conseguir sem pudor abrir o coração e o pensamento só agora quando começa o declínio e o receio de perda do mundo que me foi amparando. Não pôde ser antes, roubada que me foi muito cedo a esperança numa vida bonita, e confirmada a tal sina na juventude.


Há dias muito bons. Há heranças boas – a da leveza e do humor. A do não me levar muito a sério, ou não me ter em boa conta e de não querer impingir-me nem enganar. E a da boa relação com quem vem por bem – e são muitos com quem me tenho cruzado e dão tanto. Não me é difícil sentir a tal gratidão que se diz desejável. Outra herança boa é a da lucidez e do bom senso. Espero continuar a saber gerir a vida sem deslumbramentos e irresponsabilidades. Às heranças juntam-se as conquistas, as da própria natureza de força e ânimo no constante superar e as do apoio cúmplice de quem me estima.


São parcas as minhas ambições para a próxima década. Só ser feliz.