A manhã de ontem 24 foi passada na ronha, depois de apenas quatro horas de sono não havia disponibilidade para muito. Apenas para descer à padaria onde comprei uma espécie de Bolo Rainha.
Por volta do meio-dia agarrei nos sacos com as lembranças de Natal e fui de Uber a casa da minha mãe precavendo a saída à noite para o jantar mais liberta de carregos. Preguiçosa e desnaturada limitei-me a ver a minha mãe tratar de tudo: os pratos de bacalhau já prontos para mais tarde meter no forno, a mesa posta, os preparativos para fazer os doces de tarde. Assisti ao almoço e conversámos que é o que mais fazemos a vida toda. A única ajuda que consegui autorizasse foi descer com o lixo e demais tralhas para o ecoponto.
Por volta da uma e meia apanhei o autocarro 203 e vim a casa almoçar com o Nuno, que logo depois foi ao barbeiro cortar a trunfa enquanto parti em viagem a pé em busca de um multibanco que tivesse dinheiro. Só ao quinto consegui a proeza. E por me lembrar de ir a um dos inúmeros supermercados Auchan que abriram no Porto – a pobreza galopante de que falam os jornais impressiona, vê-se por estas pequenas manifestações da economia real.
À tarde, depois do telefonema à mãe, o Nuno descascou a fruta para a salada. Nos últimos anos temos feito a antiga e fora de moda salada de fruta aos cubos para contrabalançar os doces de Natal. A divisão é esta: o Nuno descasca, eu parto. E assim preparamos esta complicadíssima receita de sofisticada sobremesa.
Ainda assim este ano houve inovação: resolvi fazer Sonhos pela primeira vez na vida. Afinal algum dia teria de aprender. Acontece que temerária só li a receita da minha mãe no momento em que ia começar a preparar – havia apenas reparado antes nos ingredientes para comprar. Azar, aquilo é feito de uma massa à séria - é preciso mexer com vigor e ainda tem o que saber. O que vale é que tenho a ajuda do Nuno para bater a massa com força. A receita chega ao cúmulo de falar em quatro ovos, mas do cuidado para verificar se é desnecessária metade do último. Por alguma razão nunca me dediquei a estas artes. É coisa para muita inteligência e dedicação. Bom, no meu caso resolveu-se doutro modo: como eram grandes, pus apenas três ovos. E lá fritei as bolinhas feitas com duas colheres de sobremesa e os estafermos saíram maiores do que era suposto. Os da minha mãe são dourados e pequeninos, os meus castanhos e grandes. Bem dizia a tia T. que o lume tinha de ser brando. Estou a dizer isto mas não estavam maus de todo. Para o ano ficam melhor.
Ao final da tarde tentei dormir meia hora mas não consegui. Talvez porque tenha andado um quarto de hora à procura do Bolo Rainha: tinha-o perdido. Razão: é o Nuno que guarda as coisas nas prateiras de cima dos armários e quando pedi que guardasse as caixas da balança e da batedeira (que não foi precisa, mas antes os braços) ele enfiou caixa do bolo juntamente com as outras na prateleira de cima do armário-despensa. Já de manhã havia perdido os sapatos atrás das cortinas. Creio que o neurologista vai ter mais uma cliente.
Ao início da noite depois de conversa ao telefone com a minha enteada pegámos no nosso contributo para o Natal - Salada de Fruta, Bolo Rainha perdido e encontrado, Sonhos manhosos e nos pratos de loiça alusivos ao Natal dados pelo tio J. A. e pela prima E. - e lá fomos ter com a família. Ao pôr uma echarpe quente dentro do saco a cobrir as taças das sobremesas não pude deixar de me lembrar da minha mãe há trinta anos - recordo vê-la fazer o mesmo a caminho de Valinhas. São os tais evangelhos atrás da porta.
O jantar correu bem como é costume, com muitas picardias entre irmãos, os mais do que tudo a penarem pelas vergonhas que os fazemos passar, os nossos pais a tentarem pôr algum bom senso nos disparates verbais dos filhos, a tia em observação, um brinde ao tio distante mas que como de costume liga à hora da ceia de Natal para se juntar a nós, e os netos a alinharem nas patifarias que dão alegria à vida. Como é óbvio não há fotografias do mais importante. Mais tarde trocaram-se pequenas lembranças.
Não há fotografias do essencial, todavia há muitas do comezinho. Na cozinha muita loiça para meter na máquina. Compete-me a tarefa que não faço no dia-a-dia e por isso até me sabe bem nas festas. A minha mãe rabuja sempre comigo, às vezes apenas com o olhar: saia daí, eu faço – a discussão como se põe a loiça da máquina é um debate de décadas. O que interessa é que houve várias mãos a levantar a mesa e ficou tudo mais orientado para não deixar muito trabalho para a mãe.
À meia-noite já em casa abrimos os presentes a dois. A camisola, o estojo de manicure e pedicure, chocolates e o gravador digital do Nuno, que aproveitou logo para gravar as conversas banais como é costume. Os meus fios da Parfois (o desejado dos trevos e outro colorido para animar), a tesoura de cozinha (a mãe notou que eu tinha uma tesoura do chinês na gaveta da cozinha e quis reparar a falha), um porta-moedas, chocolates, uma echarpe quente (nos últimos anos têm-me dado várias e uso cada vez mais) e uma caneta do chinês com inscrições no estojo – não sou a única dos irmãos a pelar-se por compras deste género para desgosto dos outros elementos da família que acham uma heresia.
E claro não falou o mimo para o Ritz: um rato de corda.
Assim continua a descrição do nosso Natal comezinho.![]()