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13/12/2023

Don't give up

Dedos apostes, ideias em nenhures. É procurá-las, menina. Afinal se pousaste os dedos alguma coisa alguém quer que através deles digas de tua justiça. Justiça não, não é tema que queiras rebuscar hoje. Antes ninharias que não importem a ninguém, isso sim é tema de interesse. Mas qual, caramba? Só por acaso agora esticas, pressionas, encolhes e pousas as polpas dos dedos; por acaso da telha. Se acaso disserem algo que valha a pena, é puro piço - ia jurar que se usava este termo como sinónimo de sorte em terras de bom vernáculo, mas pergunto para o lado e dizem-me desconhecer; fico a matutar só comigo e as minhas palavras. Enfim, queria dizer que só por mero acaso acertarei numa ideia que valha a pena esta noite, já que a mioleira foi varrida a piaçaba e não deixou neurónio capaz de cruzar com outro para produzir uma faísca de laivo de pensamento que fosse. E assim se gasta o português em pura vacuidade quando nada há para dizer.


Sempre vem a ideia que aflora amiúde: e porque não calar de vez? Se foste capaz do silêncio online durante dez anos, porque não ponderar na mudez neste momento insano do mundo, nas vésperas de conflitos ainda mais agudos, de barricadas ainda mais cerradas? A principal razão é bem fácil de entender: custa estar calada. O vício de dizer é visceral em mim e no grosso da população mundial. Fazer a diferença passará muito por dizer o menos possível, quanto mais não seja por aquela imagem de maior probabilidade de acerto do raciocínio ou opinião: um relógio parado acerta na hora duas vezes ao dia. A segunda razão já não sei qual é – não as fixo em frente ao espelho como os políticos experimentados ou comentadores bem-sucedidos.


Fico a pensar se a imagem do relógio parado valerá para os sentimentos. A reclusão fará acertar mais? Nem sei bem o que estou a dizer. Sei que há uns dias veio à cabeça uma música de Peter Gabriel, interpretada pelo próprio e Kate Bush, que saiu quando entrava na adolescência, e como a ouvia fascinada no abraço. Pensei nela e em fazer um post que descrevesse o meu eterno estado apaixonado - desde que tenho memória, desde que tenho consciência de mim. Lembro de há uns bons anos ter admitido a um amigo – amigo só amigo, como se fosse pouco – encontrar-me pela primeira vez numa fase de não estar apaixonada. Durou um par de anos e foi momento único na vida, muito estranho, quase não me reconhecendo. Sentia-me verdadeiramente esquisita: nenhum rapaz, nenhum homem a povoar os meus pensamentos/sentimentos. Coisa estranha. E não se fique a pensar que era muito namoradeira. Fui parcimoniosa de reais e muito de platonices. Aqueles anos de despaixão foram possivelmente o pousio que faltava para refazer a vida – um novo início com crença absoluta no que estava a viver. Já ouvi chamar a estes momentos de vida travessias do deserto. Da minha parte senti apenas estranheza em não me sentir eu. E quem sabe se afinal fosse um reencontro comigo própria. Não valorizo assim tanto, prefiro confiar nas palavras da minha mãe, à época ainda receosa do meu regresso ao activo, quando umas semanas após reatar com o Nuno a vi espreitar-me ao telefone e dizer que o sorriso valia tudo – referia-se ao sorriso dengoso de mulher apaixonada, depois de terem passado anos em que me via apagada - disse-me mesmo que me tinha visto perder a exuberância.


De maneira que Peter Gabriel e Kate Bush e Don’t give up dos meus treze anos ainda hão-de fazer parte de um post futuro. O que gosto de prometer não tem cabimento. Depois queixa-te que não te levam a sério, menina. Queixa-te.