Pesquisar neste blogue

30/09/2023

Últimos dias

20230928_083834


20230928_083942


20230929_14253020230930_090919


A roseira dos três botões é a do Dia dos Namorados de 2021. Sobreviveu às primeiras investidas da chegada do Ritz a esta casa. A planta vivia na cozinha, desenterrou-a várias vezes do vaso, comeu-lhe as folhas quase todas. Passei-a mirrada para um vaso grande na varanda (onde agora está a azálea) e arrebitou, sobrevivendo dois anos. Nos últimos meses estava a morrer nesse vaso maior. Tirei-a apenas com a terra que acompanhava as raízes e um pouco caule verde, mais uma vez parecia morta. Limitei-me a enfiá-la assim num vaso pequeno. Voltou a arrebitar. Gosta de mudança pela mudança, a danada. E sabe sobreviver ao gato, o mafarrico que se esconde debaixo da colcha da cama. A vida sem sofisticação é bem mais saborosa. E o que parece morto ou definhado é o que mais alegrias nos dá. Um dia hei-de falar da filosofia e da literatura em defesa da simplicidade ao longo dos tempos, mas por agora não estou para aí virada, não me apetece. E a verdade é que para isso preciso do parpaliê e dos lugares-comuns de intelectual e para intelectual falta-me a intelectualidade. Foi mais uma madrugada em claro, depois de passar o serão a ler. São 9h23 e devo dormir, mas não sei se consigo. Falta-me o sono, há-de vir quando menos convier, de tarde quando a casa estiver com o movimento das entradas e saídas de fim-de-semana. Preciso arranjar sono para dormir ainda de manhã. O coração acelera de vez em quando, talvez devesse beber menos café.

José Luís Peixoto

20230929_222136


JLP2


JLP3


JLP4


JLP5


JLP9


JLP6


JLP7


JLP8

29/09/2023

Sonho fora de horas

Estranhíssima sensação a do sonho de hoje. Uma rapariga de sete anos sentada ao toucador com pedra de mármore e alçado de espelho, e todo o resto do quarto decorado com mobília típica da primeira metade do século XX. Uma narradora dizia que a menina sensaborona vivia com a mulher adulta vaporosa que esperava o elevador de portas estofadas de verde garrafa. A miúda era sólida e chata como a Arte Nova e observava os movimentos da mulher adulta com quem vivia, não se sabendo quem tomava conta de quem, a quem competia o encargo de manter a realidade funcional. A sensação mais impactante era a da miúda não compreender aquela pose produzida num vestido demasiado bem passado e requebros artificiais a que chamam feminidade. Interpretei como sendo eu a criança e a adulta numa projecção de maturidade incompreensível. Ou seja, ideia muito básica: éramos duas numa: a adulta e a miúda. A narradora dizia que devia escrever. Pensei que o regresso à infância é uma ideia demasiado fácil, demasiado vista. Mas bem sei que tudo depende de como pegasse nela.


Noutra cena do mesmo sonho estava numa espécie de café e falava da lotaria com o José Cid – os meus sonhos têm sempre apontamentos hilariantes. Estava um pouco contida, apesar de certa ternura pelas músicas da figura não queria que compreendesse que o remetia para os anos 70 e 80 e dessa caixa de bafio não o tirava. Isto é, não o trouxe para o presente e acho deprimente muito do que faz nos últimos anos.


Por fim, numa paisagem verdejante dos Açores, mas com uma casinha típica da Madeira, uma tempestade desfeita. Muito vento, muita chuva forte e cortante na diagonal. Magotes de turistas protegiam-se numa estrutura gigante que mais não era senão um daqueles parques de diversão infantis com escorregões tubulares. Nesses tubos entravam longas filas indianas de turistas, feitos formigas, fugidos da tempestade. Um desses canos ia dar às portas dos parques de estacionamento dos Centros Comerciais. Andávamos à procura de acertar nas portas das lojas e do caminho para o carro.

Aos heróis das facilidades

São duas horas, precisamente. Dormi entre as dez e a uma da manhã. A ver se às três me deito novamente para acertar os sonos. Estou a ficar adoentada, o que é normal, a E. e o Z., com quem partilho gabinete na empresa estão com gripe ou virose, ou lá o que é, e contagiaram-me. Espero que o Nuno apanhe rápido para não prejudicar mais adiante a saída para a Turquia.


Preocupa-me um pouco falar do rame-rame e de nada de substância. Ou melhor, de substância de outra ordem. Deverei recomeçar a ler e criar lenha para reflectir. Hoje é dia de aniversário do meu pai. Ontem comprei a usual pequena garrafa de Vinho do Porto da Quinta do Vallado. Tem sido o presente mais comum dos últimos anos aos meus pais e irmãos, sobretudo no Natal. Gosto da garrafa bojuda e da caixa cilíndrica amarela - sou de ideias fixas, agrada-me dar o mesmo presente anos seguidos. Amanhã (aliás, hoje) ao fim do dia passarei na Bertrand para comprar um livro. Ainda não pensei qual, apenas que deveria ser de contos ou crónicas, e se romance, bem curto. O meu pai a fazer 81 anos está como eu (ou eu como ele), a querer paz e sossego nas leituras.


Ontem pus-me a pensar se isto de dosear as leituras não seria uma medida profiláctica no caso de algumas pessoas como eu. Excesso de estímulo pode prejudicar quem processa tudo com complicómetro.


Um dia pode ser uma eternidade de momentos. Ontem tive um de fúria. Irritei-me num momento de consciência ao ver-me em permanência em situações Mr. Bean, sempre atarantada com sucessões de pequenos azares por mais pondere e tente fazer tudo correcto. A psicologia responsabilizar-me-ia pela falta de jeito, arranjaria uma descompensação qualquer que impediria a falta de atenção ou concentração e uma “vida mais feliz” e de “maior sucesso”. Para a psicologia não existe acaso, nem sorte nem azar, nem circunstâncias favoráveis nem desfavoráveis ou injustas, apenas lógica tantas vezes da batata (algumas vezes correcta, lá calha a coincidência com o bom senso). Nada que espante, a psicologia veio substituir a religião e, naturalmente, tem muitas das suas pechas. A pior: a crença cega nos seus princípios e nas tretas salvíficas. Nesse momento de fúria desejei o pior possível ao mundo sem compostura. Ingrato, injusto, cruel. Que explodisse, praguejei. Claro que foi uma tempestade num copo de água e assim como veio passou, até porque tenho consciência de que muito na minha vida é positivo e devo ser agradecida. O destempero mental – a que só o Nuno teve acesso, com a paciência do costume, desta vez por telefone - foi à hora de almoço na subida a pé para casa, depois do caos no trânsito na Rotunda e do desatinado ruído das milhentas buzinas dos automóveis que me desespera. Ao chegar a casa vi um vizinho de cerca de 40 anos a arrastar-se num andarilho – o mesmo que outro dia delicado me chamou a atenção na padaria que havia deixado cair um papel da carteira no chão. Ia a arrastar-se, não. A locomover-se com a dignidade de quem tem uma contingência e vai fazendo a seu dia-a-dia contra todas as crueldades da vida. Entrei no elevador a pensar nele e nas vidas cheias de si, de proa, de abundância e sorte. Pejadas de lugares-comuns sobre o esforço e dedicação com que conquistaram o seu lugar ao sol. Muito convictas do seu talento, capacidade de trabalho, rigor e pasme-se, seriedade. Muito convencidas do que é certo e errado dentro do quadro mental de facilidades que as ampara mas nunca reconhecem contando sempre histórias verídicas (dizem) da treta sobre injustiças que sofreram e de superação de dificuldades criadas à medida do mito de que o esforço é sempre recompensado, o sucesso sempre fruto de trabalho árduo e a sorte factor de somenos importância. O que dizer? Não me maces com coisas tristes, não é? Não mistures assuntos, não tem nada a ver uma coisa com outra, não é? Não terá? Ó gente arrogante. Bem precisos eram uns bofardos em quem não respeita os outros. Cansam-me, sugam-me o ânimo, esses e essas estupores.


E já são três, preciso de fechar este texto e ir dormir para amanhã trabalhar. Um privilégio poder trabalhar. Ter saúde para isso e os neurónios ainda capazes na medida do possível. Uma cama com edredão e paz de espírito, um luxo - oh, como sei que é um luxo. Uma casa paga, outro privilégio. Uma relação sem conflitos estúpidos, numa convivência harmoniosa, a riqueza das riquezas. Ontem troquei algumas mensagens com o Nuno por Skype. Gosto. Chegámos sempre à conclusão que deveríamos namorar mais por Skype, isto é, dizer patetices e trocar mimos e palavras amorosas que dispõem bem.


Ontem a M. C. e o M. enviaram email a perguntar pelo fecho do blogue. Respondi que preciso descansar, de tempo para a vida pessoal e que tenciono mais tarde voltar a pôr o blogue público. Desejei que corra tudo bem com eles.

28/09/2023

Madrugada azeda

São cinco e vinte e um. Estou acordada desde as três e picos porque me deitei cedo. E vim dar o giro habitual de leitura e cusquice. Daqui a nada volto para a cama ver se durmo mais uma horita para não cabecear na empresa após almoço.


Agora acontece com frequência ficar em branco naquilo que quero escrever imediatamente a seguir às intenções delineadas. Fogem-me as ideias. Hum, creio que uma era esta (qual? céus?, isto assim é tão custoso, sempre este fluxo interrompido pelas ausências). Ah, é isto. A pretensão do alheamento me permitir um certo traço próprio ou cunho. Muito do que leio está ancorado (palavra usada pelas bruxas) na actualidade. Mesmo prevendo que muito do que se escreve hoje em dia se salve como fonte de prova de vida quotidiana, a maioria dos testemunhos não fogem ao pré-estabelecido como verdades fáceis e ilusórias do tempo. Sei que também sou permeável às ditas, sucede que a loucura assumida (sim, usei a palavra) me permite desligar daquilo a que se convencionou chamar factos, realidade. Digamos que permite uma maior consciência. Mais independência. Em tudo há vantagens.


Há quem diga que faz limonadas por só ter limões como mero recurso a retórica fácil e para se fazer valer. E há quem esprema os limões para a língua para ajudar nas digestões difíceis e enjoos. É desagradável dizer isto, mas há diferença. Tenho dificuldade em perdoar a desonestidade e a mentira para enaltecimento próprio, tal como a ofensa gratuita. Detesto gente que pisa em agredidos para fazer figura junto de agressores. Especialmente, odeio espécimes do sexo feminino que sendo medíocres vivem da aparência, da presunção de sabedoria, do exibicionismo de escaparate, e sempre tentam humilhar e descredibilizar mulheres de real valor para fazerem figura (de urso), agradarem e conquistarem benesses e a simpatia de paspalhos levianos que não respeitam a mulher. Não é um sentimento bonito, mas começo a desejar-lhes mal, a umas e outros. É a forma que me resta de repôr alguma justiça no mundo. Sei que se me explicasse mais me diriam que estava a ser ingénua, a acreditar em falsas agredidas. Ingénua é a puta que os pariu a todos, a maior das agressoras que continua a educar os filhos e as filhas a desrespeitar as mulheres e a julgar todo o insulto gratuito e a injúria muito legítimos, e ridículos e pouco sofisticados ou inteligentes os que não se sujeitam às agressões. À semelhança dos cabrões que vivem a tentar estragar a vida alheia, a elogiar e a idolatrar canalhas. As cabras asnas presumidas e os asnos cabrões muito cheios de si - esses sim merecem ser insultados até aprenderem a respeitar o outro.


Hei-de dar-lhes no focinho até morrer. Sozinha. Sem amparo de jogos de interesse. Sem criar redes de maledicência dissimulada de costas quentes como é habitual entre cobardes que se dizem muito corajosos. Hei-de foder-lhes o juízo até ao tutano. Aos filhos e filhas da puta. Como sempre. Desde sempre. Assim não faço boas relações nem arranjo bons tachos, nem tenho audiência nem vendo o que escrevo, nem enriqueço. Isso preocupa-me muito. Uma maçada.

27/09/2023

Diário

Ontem comecei o dia por ir aos correios levantar a encomenda da Wook. Havia feito o pedido na semana passada e como vem sendo costume o funcionário dos CTT encarregue da entrega fez de conta que tocou a campainha dando essa informação à empresa, não fazendo o serviço. O Nuno estava atento à hora da entrega e não tocaram. O costume. Os funcionários de empresas como os CTT ou a CP fazem o que me entendem e temos de estar sujeitos à natureza, feitio e seriedade de cada um. Na semana anterior a funcionária que vendeu ao telefone os bilhetes de comboio iniciou a chamada com um suspiro de tédio e assim continuou toda a chamada - sempre com tom de voz de frete. Ao menos não cancelou os bilhetes de revanche como uma colega sua numa viagem anterior, colocando-nos da situação de estar sentados em lugares pagos para os quais foram vendidos bilhetes a outros passageiros em duplicado - Portugal no seu melhor. A desonestidade, incompetência e labreguice de alguns a prejudicar o todo. Nós pagamos, eles fazem greve e o que querem e os políticos, comentadores e jornalistas da situação dizem que os coitados dos trabalhadores - os que tem voz e condicionam a opinião pública através dos megafones - têm as suas razões. Quem não tem razão é quem paga e não bufa. 


De maneira que fui levantar os quatro livros de presente da minha sobrinha, que fez aniversário no mês passado e como foi passarinhar só agora foi presenteada com parte da longa lista de preferências de livros que ela e a mãe têm nas plataformas digitais. Só facilita a vida a quem quer presenteá-las. Telefonou-me ao fim do dia a agradecer. Gostei do tom de voz. Sendo bastante contida, trazia na voz a alegria de quem está a adorar os primeiros dias na faculdade. Disse o que me soou a música, quando fiz notar que gostava daquela animação sobre a faculdade: tia, agora só tenho o que gosto. Ah, alegria. Tudo quanto de mais desejável se quer ouvir a quem acabou de fazer 18 anos. Além de mais já conhecia a instituição académica e vários alunos mais velhos, e leva do liceu alguns amigos. Só boas coisas.


Recebi a chamada da Abreu a confirmar que já está pronta a documentação da viagem à Turquia. E tive mais um dia de muito trabalho, pelo que decidi dar um basta (à moda dos brasileiros) nos excessos. Noutros, já que comecei pelo tempo em demasia aqui no blogue: quando de portas abertas exige-me atenção que neste momento não devo conceder. Também profissionalmente resolvi que bastava. Falei com uma colega e a chefia explicando que estou com tarefas a mais para quem está a trabalhar a meio tempo. Nas últimas semanas ocupavam-me o dia quase inteiro acabando por prejudicar o tempo útil para a empresa base. E sobretudo consumia-me tempo importante capaz de prejudicar a saúde. Como nem tudo é perfeito perdi competências que me agradavam mais do que as que me permanecem confiadas, mas há que fazer renúncias. Assim, a partir de hoje, salvo meia-dúzia de dias os meses serão pacíficos até que se dê o movimento previsto há muito, e que não posso divulgar, nessa segunda empresa para a qual presto serviços. Movimento que implicará o muito possível termo da minha prestação de serviços. Ou não, sabe-se lá o que reserva o futuro. O certo é que não estou virada para grandes aventuras nem rasgos neste domínio.


Noutros campos talvez me venha o rasgo. Dois, a saber. A escrita. Está tudo parado até em planos, salvo este diário contínuo. A minha mioleira precisa descansar para avançar depois. Era bom conseguir ficção. Agora já não é uma questão de preguiça, mas de ânimo, concentração, reconstrução da memória e talento. A carta de condução. O enguiço dos enguiços na minha vida. E é com receio que registo isto aqui. É vergonhoso voltar a tocar no assunto antes de resolvê-lo em definitivo. A ver vamos se depois de vir da Turquia tenho juízo, leio finalmente a merda do código de estrada e me disponho a inscrever e assistir às soporíferas aulas de código e mais tarde de condução. Essa sim, seria uma enorme vitória na minha vida, por mais comezinha pareça a quase todos. Tanto se resolveria depois de desfeito este enguiço. Tanto. Podia fazer um desafio a mim mesma. Só reabrir o blogue depois de carta tirada, carro comprado e primeira pequena viagem a conduzir feita. Isso sim, seria grande ideia. Um desafio.


Ontem a I. enviou email a perguntar pelo fecho do blogue. Expliquei o precisar de descansar e contei que tenciono regressar daqui a meses. Pedi que me fosse contando coisas. Hoje também recebi email do M. L. a perguntar pelo fecho. Disse-lhe que voltarei mais tarde.


Hoje a caminho do trabalho fiz um percurso diferente a pé. Em vez de fazer Serpa Pinto em direcção à Ramada Alta e descer N. S. de Fátima, desci a Constituição, aproveitei para ir espreitar a evolução da última casa na modesta rua Freire de Andrade (meu ilustre antepassado; era engraçado acabar por comprar lá casa - estão a fazer a última, esta com garagem, mas também sem jardim, apenas pátio -, afinal chegámos à conclusão que podíamos comprar a que está à venda e fomos visitar há meses, mas seria estúpido em termos financeiros) tudo para vir pela Avenida de França, que essa ao menos tem árvores, o que sempre dá alguma alegria à pequena caminhada, pese embora a confusão das obras do metro.

25/09/2023

Segunda-feira

É segunda-feira. Levantei-me há meia hora. Estendi a roupa, tomei café e descalça (oh prazer) varri a varanda - o vaso da Nespereira caiu várias vezes com o vento do fim-de-semana passado e uma vez à semana. O Nuno está lá dentro a lavar a loiça do jantar de ontem.


Adormecemos cedo. Sinto-me mais descansada. Foi mais um fim-de-semana intenso. Entre Almada e os ecos do encontro em Valinhas, que me foram relatados pela Mãe e pelo meu primo M. ao telefone. E enviados em imagens pelo meu irmão N. Além do muito que chegou via WhatsApp.


Respondi ao email do amigo R. que me perguntou pelo fecho da porta das Comezinhas. Disse que preciso descanso e que tenciono reabrir portas daqui a uns meses.

24/09/2023

Modo observação

Há ocasiões em que os factos e circunstâncias já não me parecem tal qual são despidos de intencionalidade, surgem antes com o propósito de os guardar ou esquecer na mioleira para que um dia os conte.


Veio isto a propósito de ter reparado nos movimentos do maquinista do comboio no fim da viagem de ontem.

Regresso ao Porto

20230924_105417 


Rame-rame. Ainda junto a Santa Apolónia.

23/09/2023

Dia 1 de porta fechada

20230923_091208 (1)


Fechei o blogue a visitas. Assim ficará  por bastante tempo. Espero. O suficiente para fazer o que me apetece.


Dentro de meia-hora saio para apanhar o Intercidades para Lisboa. Levo um pequeno e antigo bloco para aproveitar o sossego (haja ele) do comboio a fim de delinear os próximos passos na escrita.


Sigo com a malinha de fim-de-semana para dois do costume.


Nota. Hoje há reunião grande em Valinhas, no meu paraíso de infância. Ficou lá atrás, no tempo.

22/09/2023

Muito obrigada


Capturar


Capturar

Uma vida

viajar 


Imagem tirada do Google.


*


Chegou a ansiada sexta-feira que costuma antever descanso. Nem por isso. Sábado vou a Almada. Domingo como de costume regresso. Segue-se, espero, uma semana banal de trabalho, com as idas e vindas a calcorrear as ruas desta cidade postal, a estar e falar com as pessoas do costume às quais sempre se junta uma ou outra novidade, a usar a mesma máquina de café da empresa, a sentar no gabinete com privilégio da bonita paisagem, a relaxar à noite na cumplicidade caseira. No final da próxima semana poderei descansar e preparar-me para uns dias na Turquia. Quando voltada da Capadócia, depois de espreitadas Ankara (sim, Ancara para os precisosos) e Istambul, darei por terminadas as pequenas alterações no rame-rame feitas nos últimos dois anos, que tanta falta me fizeram durante uma temporada atípica. Todavia, agora tudo quanto preciso é voltar a serenar e ganhar tempo para o mais importante. Até porque tudo está em aberto em termos profissionais e o que é preciso é ter calma. Ao menos julgo não correr o risco do desemprego, o que não é nada mau. A vida pessoal precisa da entrega e dedicação diluídas nos últimos anos. 


Tudo a voltar aos eixos. Até ver.


E todos estes ires e vires sensaborões podem continuar a desenrrolar-se nas Comezinhas em diário aberto à vista de quem passa. Ou não, pode ser o fim de um ciclo. E o esboço de outro ainda por descobrir. Até porque começa a surgir muita vontade de romper. Tudo é normal. Tudo como é costume. Uma vida banal como outra qualquer. Desde pequenita sempre com vontade de levar a trouxa ao ombro. A vida sempre em aberto. 

21/09/2023

Fim de dia

20230921_190200

Dois apontamentos de diário

1. Hoje ao ouvir alguém falar em mudança tomei mais uma decisão. Os leitores das Comezinhas já deverão estar cansados de tantas decisões e promessas vãs. As tais que por serem tantas na maioria não cumpro. O que interessa é que estou radiante com a ideia de pôr fim a uma realidade e dar início a uma outra que não faço a menor ideia qual será - o que mais feliz me fez toda a vida: partir física ou mentalmente. Quando tiver tempo cá trocarei isto por miúdos.


2. Hoje fui chamada a atenção por esquecimento de tarefa no trabalho. Há 16 anos sou funcionária de uma empresa e presto serviço para outra - nos últimos dois como colaboradora. Digamos que é o mesmo que ter dois empregos em part time. Sucede que tenho dificuldade em gerir o tempo e os meus limites. Percebendo isso a pessoa que me chamou a atenção teve o cuidado de me dizer que estava disponível para pontualmente fazer parte das minhas tarefas por saber que eu estava assoberbada. Ao longo destes 16 anos a regra naquela empresa foi esta: a da decência e do cuidado entre profissionais. É muito bom que isto exista e poder trabalhar assim. É evidente que nem tudo foram flores ao longo dos 16 anos, mas falo do que prevalece num país onde reconheço a tendência não ser esta atentos os facilitismos e falsidades. Digo isto sabendo que por factor que não depende de mim poderei deixar de prestar serviços para esta empresa e regredir profissionamente. Não é isso que me demove de estar agradecida. Pelo contrário. 


3. Afinal são três notas. Não me sobra tempo para palermices.

20/09/2023

Uma outra forma de ambição

Viver além da crença, convicção e escolha como se cada um fosse peça de puzzle essencial, contendo parte da explicação do Universo e obrigado a entender-se com os demais na eterna busca da causa das coisas. Forçado pela Natureza à plena igualdade no mal e no bem, sem possibilidade de prescindir de ninguém para a compreensão e sobrevivência do todo.


Nada de extraordinário nem original: o tal grão de areia na engrenagem universal como uma matrioska. Seja ela os quatro ou cinco elementos, átomo, bosão ou partícula elementar. Esteja em que dimensão estiver: nas quatro conhecidas, nas outras quatro ou cinco teorizadas ou nas ainda por antever. A eterna busca do conhecimento.


Tentar compreender o máximo possível antes que nos devorem o cérebro por completo como está a acontecer em larga escala. Recordando a anedota contada por George Steiner: se na aproximação de uma onda gigante o judeu dispõe de apenas 10 minutos de vida, ainda tem tempo para aprender a respirar debaixo de água.


Uma outra forma de preocupação. Uma outra forma de ambição.

O post aberto ontem

Dos mais "antigos", apenas dois.



*


Bem sei que a maravilha é tal que não devia estragar com azedume. Mas é mais forte do que eu. Não critico a pretensão ao acaso. O facto de se pretender dar uma imagem do que não se é ou mostrar conhecimento que não se tem atirando em poucas linhas ou curtas falas resmas nomes de autores, obras, lugares visitados em viagem, pratos exóticos, compositores, álbuns ou o quer que seja como quem puxa de trunfos de poker denota gente a léguas da sabedoria e da educação por mais as tente impingir a quem passa. O mesmo vale para quem a propósito ou despropósito não perde uma oportunidade para sacar de uma referência aparentemente culta no intuito de desprezar por comparação pobres ignorantes ou parolos. Quanto mais perto da ignorância e da grosseria de dedinho no ar mais praticam este desporto. Fazem lembrar as vitrines antigas e concorrem com as antigas cristaleiras de salas pirosas.


Não há espaço para mastigar, saborear, olhar, escutar tanta é a quinquilharia. Não há ar nem espaço para compreender a razão, beleza e expressão do mundo. A arte.


Se o provincianismo citadino, moderninho, sofisticado, actualíssimo, diplomado, viajado e deslumbrado nos clichés da erudição prevalece, só há lugar para exibição de arrogância disfarçada de engraçadismo e sarcasmo, só sobra pequenez de espírito. 


E quão longe deste mundo pobre de espírito estava Ennio Morricone, que merece mais do que ser medido por catálogos e desprezado se ouvido em best of. Quão longe da pequenez estão os versos e as barbas de 20 mil anos do ancião de Gonçalo Fernandes, que não conheço além deste livro e encontrei por acaso numa prateleira vulgar e, felizmente, não numa das muitas estantes vitrine que vejo diariamente expostas no mundo online como vi na meninice em gente bastante menos culta e erudita do que se imaginava e dizia.


A escolha dos posts de hoje é uma agulha no palheiro. A propósito: encontram bons versos por aí neste imenso mundo online, em casas sem visitas, sem menções nem comentários (graças a Deus) e desdenhadas por quem pretensamente deveria perceber da poda. Boa prosa também. Não esperem é encontrá-la em vitrines supostamente mais sofisticadas e atraentes ou cristaleiras vistosas e pirosas com rótulo de "a melhor prosa" ou "os melhores versos" e sempre muito publicitadas. Não encontrarão, aí descobrirão engodo.


Bom dia.


E desculpem o desagradável, bem sei que estas antipatias são maçadoras e não vendem. Falta a dose diária da gracinha fácil como droga de anestesia da realidade. Hoje foi assim, há assuntos que merecem mais seriedade do que parece à primeira vista. Amanhã já posso virar novamente para a gargalhada. Amanhã? Qual quê? Daqui a meia-hora. 

19/09/2023

Fashion

53198974160_875ef7ba62


Sandálias. Fizeram o Verão partidas e deram a alma ao Criador.


*


Mais cedo pensava com os meus botões: as chanatas não descolam dos pés das pseudo-eruditas e pseudo-eruditos muito lidos, sabidos e vividos. Ou nem por isso. É deprimente. A necessidade de aparência é tramada.


Entretanto reparei nas minhas velhas sandálias. Não abrilhantam.


Pronto, agora só falta tirar férias de mim. Isto de aturar-me não é fácil.

O post aberto ontem


  • Kierkegaard, de 16 Janeiro 2022. Um post sobre a escolha. Hoje muito menos angustiada do que no passado.

Ondas

Ontem passei um dia inteiro a pipocar episódios a escrever e sem nenhuma oportunidade ou abertura de tempo para o fazer. Tanto melhor, pensei hoje ao acordar. Falta-me o distanciamento. A avalanche dos últimos tempos exige paragem estratégica. Logo à tarde poderei chegar a conclusão diversa. Agora do nada surge na mioleira o quão nocivo pode ser ouvir bitaites alheios sobre tudo e mais um par de cuecas - sim, botas, para ficarem contentes. Restrição, restrição de preconceito, de mundos tantas vezes pequenos apesar da aparência de grandes vivências e sabedorias. Estrangulam o que desponta novo e sem par na incompreensão e na soberba da devoção à simpatia fictícia, premeditada e oportunista ou na mais caquéctica sobranceria não cuidada nem podada com a delicadeza que exige o trato das verdades herdadas dos avós, dos livros e da vidinha.


Quando tiver tempo delinearei um punhado de contos que imaginei escrever de modo inconsequente. Não faço a mais pequena ideia como articularei o pensamento, os factos e a leve película de respeito pela verdade, os cenários e os sujeitos da acção. Uma pele leve e suave imperceptível a olho nu e ao olho de quem anuncia e divulga livros, viagens, vida própria, actualidade e opinião com a mesma sensibilidade com que publicitaria as qualidades materiais, estéticas e conceituais de tijolos de cimento ou loiça sanitária.


Ao contrário do que fiz até aqui começarei em reserva por elencar os episódios acerca dos quais me quero debruçar e logo verei se há réstia de talento para os contar com a tal distância referida mas não conseguida na Ana Paula. O tal ver de fora. Se tivesse juízo e dada a escassez de tempo nada mais diria até ter conseguido dois ou três exemplares. Mas conheço-me os defeitos e tenderei sempre a vir aqui contar o ponto de situação do acto de criar. Estranha a rapariga, além do permanente anúncio dá mais valor a tudo quanto a envolve do que à obra em si – ai a pretensão. E se a obra for a própria construção? – e pensa ela que traz novidade, coitada da ignorante pouco lida e sabida. Além de soporífera. Não terá noção do quão chata e intragável é? Terão a mais pequena ideia da coragem precisa para estar eternamente a contrariar o confortável à maioria e a quem tem voz e poder de forma a manter-se fiel a si e ao que acredita?, e quão diferente isto é de criar conflito à toa ou afinidade oportuna para gerar audiência? – parvinha coitada, tão básica, tão desfasada, não compreende nem consegue nada da vida e ainda quer dar lições; temos de continuar a atirar-lhe à cara diária e ao longo de uma vida exemplos de verdadeiro génio, superioridade e sucesso para reduzi-la à insignificância. Temos de fazê-la entender que o mundo é bem maior do que a sua pequenez. Há-de amargar bem o topete de ter a veleidade de se achar alguém. Viva o dar palco a nulidades cheias de si. Por ora só um lamiré sobre ficção. Para alguns ficcionar é dar imagem diferente daquilo que a realidade é. Mentir, fantasiar, embelezar, descaracterizar, intrigar, desfear, satirizar, enobrecer, desmoralizar, desvirtuar, purificar, caricaturar etc. Para outros é tão só criar realidade. Muito simples.

Mimos

20230919_074045


20230919_074238


Jarros amarelos. Presente da delicada dona L.

17/09/2023

Diário

Dizem as más-línguas que pessoas inteligentes não revelam planos e sonhos. Gosto de fazer quase tudo ao contrário do ditado por convenções tontas e tive a prova que viver a reservar o que genuinamente pensava e sentia não trouxe especial felicidade. Nem outro resultado que não fosse imagem pouco fiel do que era. Aparentando voluntária ou involuntariamente o que não era. Outras características como a curiosidade, independência, inconsequência e alguma lata trouxeram-na. Talvez esteja aqui a razão de há anos vir contando quase tudo nas Comezinhas.


Levantando vôo lembrei-me esta manhã dos grandes autores. Ou melhor, dos escritores que considero grandes. São os que não se temem a si, mais dos que dizem não temer os outros - ai, ai a pobreza de discurso, a infantilidade da linguagem na perspectiva dos arautos da sofisticação e pretensão. Assumem-se inteiros. Medo, hão-de ter mais do que muito, mas enfrentam-no. O que é muito diferente de se arvorarem em senhores da verdade, do conflito e da arte com o relativismo moral conveniente a passarem entre os pingos da chuva e seduzirem leitores fáceis pseudo-intelectuais. Vem isto a propósito do contraste entre cunho diarístico e a ficção. Dei por mim a ponderar se deveria enveredar por ficcionar o que vivo e me chega da vida dos outros, fazendo à moda de vendedores de livros: entrelaçando o meu percurso com histórias de vida furtadas. A resposta foi prontamente negativa, como se pode imaginar. São-me bastantes os pedaços de vidas que me foram dados de livre e espontânea vontade e com a consciência e a confiança de não estarem a ser enganados, de não terem caído numa mentira ou cilada. O resultado seria sempre pífio, apesar de render elogios e vendas. Inspirar-me-ei sempre em gente de fibra: nos grandes e não nos medíocres promovidos, por mais que muitos tentem inverter o epíteto – hoje qualquer um diz o que quer e na posse do megafone inverte a realidade mediante a retórica e a manipulação. Quem me inspira e admiro assume-se inteiro e isso compreende-se em cada capítulo, em cada conto, em cada romance. Não tem vergonha de si próprio nem do que sente e pensa, muito menos enfeita, depura e intelectualiza e o que sente e pensa para causar o ridículo impacto de erudição ou densidade. Quem tem audácia e profundidade não precisa dar ar delas. Quem pretende dar ar tudo quanto causa em pessoas com dois dedos de testa, e sem interesse em promover livros, amigos ou retórica de facção e com isso obter as vantagens do elogio, é o bocejo. Mas, claro, tem o seu papel no mundo: pode sempre entreter elites fajutas e público pouco exigente composto por gente que gosta de historinhas de intriga, figurinhas, excitaçõezitas, clichés, pretensa originalidade e erudição de algibeira.


Baixando o vôo à realidade comezinha e piando mais fino conto que a última deambulação acerca do futuro do blogue veio com esta constatação: depois de oito anos de regresso à escrita e de exercício básico e corriqueiro da dita - os primeiros quatro na reserva do processo de criação, os restantes quatro exibindo aqui diariamente muito do que assaltou a mioleira incluindo os grandes defeitos e fragilidades – só falta mais um para fechar o ciclo de nove anos. E como estas coisas não acontecem do dia para a noite e os períodos vão fechando e abrindo como a auto-estrada abre das duas faixas para três, das três para quatro e as volta a reduzir mais adiante, com inúmeras oportunidades de saída que se escolhem ou evitam, é natural que se note um processo de mudança em curso aqui no blogue – um pequeno prec. É a transparência. Talvez esteja a falar de um novo salto para a ficção a começar a esboçar-se. Ainda com contornos por definir, como as luzes difusas na auto-estrada em noite chuvosa. Oh alegrias pequenas, que seria de nós sem elas? Talvez esteja a falar da cada vez menos paciência para a viciada opinião sobre a actualidade e também da velha irritação de dar pérolas a (alguns poucos) porcos; sustento para medíocres se gratificarem com o que escrevo. E repare-se que tenho o maior respeito pelos meus leitores – não é deles que falo, mas de verdadeiros larápios cuja leitura nunca é inocente. De qualquer modo, cheguei à conclusão: há coisas que nunca mudam, as décadas vão passando e os piratas nunca largam o osso. É o que menos importa – sempre se revelará a diferença entre original e cópia. Talvez uns engulam o riso do desdém e outros compreendam quão longe estou da mania de perseguição de que me culpei erroneamente tanto tempo. Talvez esteja a deixar-me ir no sentido de sempre, da mudança. Ah, sensação boa de prazer. Mudar. Devagarinho, como leio. Mentiria se dissesse, como vivo. Não posso dar lições a ninguém para aproveitar a vida com o vagar, as oportunidades e as virtudes que ela merece. Entrelaço momentos de muita velocidade aos de pasmaceira e pélo-me por mudança. Talvez não dê tempo para saborear tudo. Uma maçada. Deveria martirizar-me por isso, só que não. Aborrece-me a mesmice, salvo quando gosto. Às vezes quando escrevo de modo convencional sob o ponto de vista da linguagem e da substância – aproximando-me de mundos que não reconheço meus nem quero - elogiam-me a sensatez e o rigor, o que muito me irrita por compreender que revelam dificuldade em aceitar a diferença e só consideram mais do mesmo. É tudo muito fácil de compreender. Tudo o mais vulgar possível, ou talvez nem por isso.


Olhando de fora para o que acabei de escrever, o que me apraz dizer acerca dos parágrafos precedentes? Quem raio esta imbecil pensa que é? Julga-se no direito de palpitar sobre a mediocridade alheia e não sai do umbigo e nem sequer aí passa do plano das intenções com que massacra quem a lê. Promete, promete e nada de sério, virtuoso e belo sai das suas mãos. Não passa de uma fala-barato sem valor. Ah, sensação boa. Não há como uma esfrega na auto-estima e não precisar de furtar para me saciar. Enfim, estou feliz. E nada irrita mais do que a alegria e o contentamento alheio. Uma maçada.


Amanhã não haverá O que é esta segunda-feira? Está alinhavada, mas não me apetece publicar. Talvez na próxima semana. Ou vai para o lixo. É para onde estiver virada.


Beijinhos a abraços a quem passa (hoje deu-me para aqui).


Boa semana.

O post aberto ontem

Foram quatro, entre eles:


 Uns furos acima, de 20 Maio 2023. Acerca da legítima, avisada e sempre vilipendiada voz de Cavaco Silva.

14/09/2023

Diário

O pior dos dias tem vindo deste mundo impalpável. Há momentos em que para lá da peçonha soltada por víboras - a todo o pretexto e por mais inócuas e pedagógicas possam parecer as palavras -, chego à conclusão que na melhor das hipóteses o que vinga é o julgamento fácil de quem não pára um segundo para compreender a sua pequenez, a tal que vê sempre lá, no outro. Na melhor das hipóteses vinga quem não tem inteligência nem sensibilidade para avaliar, mas ainda assim procura dar o ar de ter ascendente - suposto barómetro de comportamento e predicados -, vendo noutros bastante mais capazes quando muito meros aprendizes que deve ensaboar. E assim víboras presunçosas convencem a plateia da sua imensa qualidade e mérito. É a nossa sina: dar voz e altar à mesquinhez.


20230909_151157


De resto, interessa o mundo físico. Farei um pequeníssimo intervalo aqui nas Comezinhas valorizando o que mais importa. Conto apenas: há aspectos da vida em que sou verdadeiramente extraterrestre. Só hoje ao dirigir-me sozinha a pé para a empresa caí em mim lembrando-me que tenho direito a duas semanas de licença de casamento. A mais pura das verdades é que nem sequer me tinha passado a questão pela cabeça. Agora, em cima do acontecimento, fica sem efeito. Um verdadeiro calhau – como é possível nem sequer me ocorrer a ideia? Afinal as alianças ficaram prontas antes de tempo e já as pusemos. Assentam bem. Gostamos da capicua: tamanho 21 para ele, 12 para ela. Se fizer a brincadeira da leitura das matrículas que aprendi na primária dá c e f, isto é, casamento feliz. Promete.


Até já.

Moralidades à quinta-feira

Quão difícil é definir uma posição recta e justa nos dias presentes. Para lá da permanente tentativa de aferição de veracidade das palavras e imagens que jorram a todo o instante no espaço público e que consumimos sem tempo nem espaço mental para processar, impõe-se a necessidade de distanciamento sobre os momentos de avalanche, de molde a não ser apanhado pelo próprio movimento.


Quem está dentro ou tem interesse directo na direcção dos factos – todos temos, mas há quem viva quase só disso – não resiste a deslizar, tantas vezes julgando-se capaz de conduzir o arrastamento da neve em movimento. O discernimento nestes casos está comprometido por mais excitante e atraente seja o discurso, por mais esteja na moda no último século o testemunho presencial das ocorrências.


Basta abrir os jornais, ver os noticiários televisivos ou tropeçar nas redes sociais para compreender a distância que nos separa da noção oitocentista de imprensa (alargando hoje o espectro a toda a comunicação social) como garantia contra os abusos do poder. O contra-poder ou quatro poder é hoje o primeiro poder: condiciona o legislativo, o executivo e o judicial. Os jornais, as televisões (e as redes sociais) determinam e condicionam através da retórica e interpretação abusiva dos factos, da constante manipulação da opinião pública – mais do que qualquer outro sector na sociedade: mesmo o financeiro – quem representa as populações e faz as leis, quem governa e o sentido das decisões judiciais. Não só por serem os principais (des)educadores dos cidadãos e eleitores, como pela dependência e promiscuidade dos interesses partidários, económicos e culturais. E não há aqui lugar a tretas de ingratidão com quem nos fornece informação – esse joguinho do tão agradecidos que deveríamos estar a quem nos informa e protege dos abusos pode constituir o sustento e justificação do mercado da informação manipulador e sem escrutínio. Afinal quem nos defende dos abusos do poder da comunicação social? E nada disto tem a ver com autoritarismo ou censura. É, pelo contrário, preocupação com a saúde da democracia. A comunicação social está desabituada de lidar com contra-poder e assim transformada em primeiro poder. Defender imprensa livre, sim. Defender jogos e promiscuidade de interesses políticos, económicos e culturais ou tão simplesmente mera excitação acéfala, não.


A ditadura pacífica e brutificante da comunicação social só perde em perversidade para as ditaduras totalitárias anti-democráticas bastante mais nocivas e violentas. Todavia não é por estas últimas continuarem a existir que devemos fazer de conta não ver a sujidade na nossa casa, por mais tranquila e próspera seja – apesar da exploração constante da fragilidade e pobreza quando interessa e beneficia a política partidária, corporativa e sindical rasteira e a chicana entre tribos de interesse na sociedade civil. Tudo muito longe da procura do bem comum – e aqui está a moral, essa palavra de tão má fama no presente.


Boa quinta-feira.


 


Adenda. O presente texto foi alterado e actualizado esta manhã.

13/09/2023

De raspão

Céus, amanhã é quinta-feira. E mais uma vez: nada na manga. Têm sido uns dias acelerados. O que vale é que faltam duas horas para a meia-noite - uma fartura de tempo na qual terei de encaixar umas linhas moralistas - e na sexta-feira não trabalho por boa causa.

Marrocos e Líbia

Bem sei que é pouco mais do que descargo de consciência, mas mais vale pouco do que nada. Aqui: donativos para a Unicef.


UNICEF0


Unicef1


Unicef1.5


Unicef2

Jantar de quarta-feira

20230913_202312


Salada vulgar e sem primor. Alface, cenoura, tomate e ovo cortados grosseiramente. Azeitona e noz. Temperada com azeite, vinagre balsâmico, flor de sal e coentros. Sem nenhuma novidade. Uma maçada.

Agora

Ouvindo uma selecção de Yiruma, das tais anunciadas como boa para adormecer bebés - fico a pensar se o compositor e pianista sul-coreano não se ofenderá. Perfeito para acompanhar o lançamento e validação de contas-correntes. Ajuda a evitar as gralhas.


Lá fora está quente, uma pequena neblina cobre o mar. Cá dentro o ar-condicionado ventila fresco.


Bom dia.

12/09/2023

Mimos

20230912_135245


20230912_124745 20230912_132113


Os colegas de trabalho deram-nos um Jasmim e palavras amáveis que me deixaram comovida e sem saber como agradecer.


A Japoneira resolveu presentear-nos com um botão de Camélia em Setembro - a época normal para florir é Fevereiro/Março.


A planta dos pimentos picantes rebentou (a erva do gato ainda não nasceu, mas no lugar onde está não apanha sol, talvez por isso).


Bastante mimada, como vai sendo costume.

O post aberto ontem

Ontem passearam por capítulos da Ana Paula. Agradeço a leitura. Como acordei às 5h30 tive tempo para deambular também pela novela. Começa a ser estranho relê-la, já comecei a criar distância. É uma espécie de universo fechado, passado.  



 

Abriram também o post Silhueta, de 29-08-2017, publicado a 02.12.19. O que me remete para um tempo distante, não por terem passado tantos anos assim, talvez 20, não sei bem, em que escrevi pela primeira vez esta coisa muito primária e infantil da sombra ou reflexo da lua no mar revolto com a qual me continuo a identificar. Como tanto do que escrevi entre 1999 e 2007 a primeira tentativa em pior do que medíocre inglês ficou por aí perdida num dos muitos espaços online por onde passeei. Não faço questão de edificar. Não me tenho em boa conta - isto é, não comungo da falta de noção dos que nascem e vivem, independentemente da condição, convencidos de serem merecedores de todas as comodidades e prerrogativas e tomam atitudes de superioridade considerando-se mais do que habilitados a deixar marca. Nem em termos de religião acredito em tribos eleitas ou povos eleitos - talvez seja um dos pontos por onde me afasto não só do céu cristão como do meu sangue judeu. Para contrariar, e sabendo pôr-me no lugar onde devíamos estar todos - o da igualdade -, Deus fez o favor de ajudar a reduzir-me à insignificância por perda de memória de vários períodos ao longo da vida, muitos já neste século, alguns no passado. Mesmo que quisesse procurar o que não destruí - fisicamente quase tudo, online muito, e num caso e noutro nada que tivesse qualidade - não poderia nem sequer interessa. Como disse a propósito das minhas primeiras incursões na audição de jazz: há gente que constrói, aprofunda e cria raízes e há gente que passa. A forasteira não foi um acaso desprovido de sentido.

Por fim, abriram também ou calhou e pode ter calhado tudo - é aliás o mais provável, mas acredito na coerência do acaso - o post Eddie Calvert, Loneliness, de 10.11.19. Música escolhida pelo Nuno, que entre muitas outras qualidades foi desde início a pessoa capaz de me tratar como igual e assim se manter. 

11/09/2023

O post aberto ontem

Não recentes, foram dois.



  • Crapô, de 5 de Junho 2021. Mais uma vez um post muito visitado.

  • Hóstias, de 31 de Agosto 2022. Reminiscências de um outro tempo.


Já agora acrescento o aberto anteontem.



  • Perborato, de 3 de Janeiro 2021. Mais reminiscências.


 


Aliás, muito das Comezinhas faz-se de lembranças antigas. Nada que faça mossa e me faça sentir desfasada do tempo presente, apesar de saber que a maioria não perde tanto tempo a recordar. Nomeadamente, gente de acção. Cada um é como é e "pró" que nasce. Gosto de recuar 40 anos sem rebuscar tal como sinto que consigo "fazer recordação" de um facto ou episódio passado há menos de 48h sem sofisticar. Isso também me dá gozo, tudo quanto interessa a quem não escreve por espírito de sacrifício ou para causar sensação. 

A aproximação do fim da jornada

20230911_180320 (1)


Mar de prata em fim de tarde.


(sim, a fotografia não tem qualidade; sim, tem reflexo; é o que menos me interessa.)


*


Boa semana.

O que é esta segunda-feira?

Hoje são várias as palavras eleitas e antes mesmo de as elencar conto que não defini o que vou escrever em seguida: elogio, crítica, quero, posso e mando, hipersensibilidade e política. É possível que não esteja capaz de desenvolver um todo estruturado, por isso começo por deixar as ideias essenciais.


As noções. 1) A falta que faz o elogio e como pode ser excessivo e pouco honesto. 2) A crítica e o prejuízo que causa quando excessiva e o lucro que podemos obter dela. 3) A prepotência: as virtudes e benefícios de ter as ideias definidas e vincadas e os malefícios das atitudes quero posso e mando. 4) A hipersensibilidade como motor de avanços civilizacionais de respeito pelos direitos humanos e da Natureza e as desvantagens do dogmatismo (este vocábulo com sentido tão profundo e estudado há-de dar um post no futuro) e puritanismo. 5) Política.


Cada um é como cada qual e cada qual tem os seus recursos de sustento intelectual e emocional. A forma como para uns é dispensável o incentivo, não invalida a falta que ele possa fazer a outros. O florescer da vida para tantos pode acontecer muito em resultado desse ânimo externo, que a outros tanto falta. A afirmação solitária e impetuosa de alguns pode fazer-se de forças e independência dispensáveis a quem é amparado e incentivado. Para lá da condição humana somos todos diferentes, cada um com percurso peculiar. O elogio pode fazer maravilhas no mundo se não for fácil e desonesto, isto é, a troco de benesses. A crítica constante e desagradável pode amarfanhar e anular qualidades humanas relevantes, mas também conferir maiores graus de exigência aos visados e fazê-los mais consistentes.


Do equilíbrio difícil entre elogio e crítica, que deveria basear-se não só nos factos como na justeza da interpretação dos acontecimentos, podem nascer espíritos mais clarividentes, menos sofredores e mais harmoniosos.


Muitas das questões abordadas por aqueles que são tratados como radicais das causas identitárias pelos que tenho denominado ultra-conservadores – o que é um pouco injusto com a ideia benigna conservadorismo; deveria sim considera-los agressores – são pertinentes e justas apesar de parecerem hipersensibilidades de histéricos. O mundo é ingrato para muitos sem razões atendíveis, salvo a perpectuação ou a regressão à lei da selva. A imposição da lei do mais forte por contraposição à escalada de puritanismo – e excessos de ridículo como reacção à lei do mais forte num intuito de impor lógicas bizarras que também elas estão longe de justas - tem servido de estratégica ou táctica para protagonismos políticos. Os discursos, as argumentações e as atitudes prepotentes baseadas na factualidade crua - que dão a sensação de rigor e de objectividade -, sem interpretação contextualizada de modo justo e isento, mas pelo contrário resultado de manipulação retórica, fazem parte da política no sentido menos digno.


Não são os direitos humanos e a protecção da Natureza que estão em jogo na maioria das discussões, mas a política no sentido mais rasteiro. O que não prenuncia nada de bom. Não há aqui nenhuma epopeia para apuparmos o Velho do Restelo que representaria o travão a grandes avanços, há sim a mais elementar necessidade de bom senso.

10/09/2023

Jantar de Domingo

20230910_194836 20230910_201056


20230910_201449


Jantar corriqueiro e prático de Domingo. Coxas de frango com batata frita e salada. 


Pincelado com azeite, sal, limão e massa de pimentão, pus na gaveta da máquina tudo junto logo de início e liguei por 15 minutos. Erro. Tive que voltar a pôr mais 10 minutos uma vez que o frango não estava cozinhado. 


Não segui nenhuma receita e cozinhei o frango com pele para ter mais sabor. Só a tirámos no prato.


Da próxima colocarei as coxas durante 10 minutos juntando depois as batatas mais 15.

Diário

Custou-me acordar hoje, como antigamente. Agarrada a um cansaço ancestral. Tudo porque passei mais uma noite nas minhas deambulações. De madrugada em leituras esotéricas com um aprofundar que ainda não acontecera, ou já calhara e não me lembrava – o mais provável. Ainda ontem à tarde pensava que devia voltar a deixar de dar atenção a estes temas e focar na vida mais terrena e prosaica, mas que lhe fazer?, se sou sempre impelida para eles e me dão prazer?


Passei no hospital para ver o meu pai, a boa-disposição reina apesar das dores. A cirurgia para colocação de prótese total será amanhã. Ao regressar dormi mais um pouco por puro deleite. Fui ao supermercado em cinco minutos. O Nuno toca piano e daqui a mais um pouco vou ligar a fritadeira de ar quente para fazer as coxas de frango e o resto das batatas.


O post de amanhã continua por escrever. Espero conseguir depois do jantar. E este é o exercício de escrita de hoje.

09/09/2023

O post aberto ontem

Um recente.



  • Programa de festas, de 27 de Agosto 2023. Uma referência à necessidade de relaxar e à noite que se seguiria de programa com um casal amigo do Nuno vindo de Lisboa: Uma noite esplêndida. A repetir com outros amigos daqui a uns meses. Por agora o calendário de fins-de-semana está quase lotado.

Diário

Passa das quatro e meia da manhã. Acordei há uma hora talvez, depois de me ter deitado cedo. Mais tarde voltarei a dormir um par de horas. Mas resolvi ligar a smooth fm na sala, o globo e a série de luzes, fazer um café, pendurar a roupa que pus a lavar antes de dormir e vir escrever mais banalidades em diário.


Preocupam-me as dores do meu pai que está no hospital com o colo do fémur fracturado. O próprio fez questão de avisar com objectividade, como sempre fazemos em família. Sei que rápido se restabelece, mas era escusado estar a passar por isto.


Nas escritas dois apontamentos. O primeiro para contar que propus ao Nuno abrir uma rubrica ao Sábado com a ajuda dele. Há assuntos em que sou para lá de nódoa como ciência, matemática e música. Na linha de um post publicado há dois anos, a minha intenção é trazer para o blogue alguns dos nossos temas de conversa. E de onde vem esta ideia? Das dificuldades, como quase sempre. Há circunstâncias e domínios em que sinto a massa cinzenta feita betão não poroso, impenetrável. A título de exemplo, em matéria de línguas sempre fui uma nódoa por mais me esforçasse – o que não invalidou que sempre me desenrascasse nas viagens -, sei hoje que a explicação vai muito para além das lengas-lengas da necessidade de estudo e prática (claro que é importante, mas há um mundo de razões para lá disso). Uma nesga de facilidade nessa matéria surgiu nos últimos anos, mas continuo muito fraca. Porém, se até Leonardo Da Vinci tinha dificuldade no latim?, como não ficar inspirada e acreditar que nem tudo está perdido. E como no domínio das línguas, as dificuldades são mais do que muitas noutras áreas. Dirão: todos as temos, todos possuímos maior apetência para uns domínios e menor para outros. Acredito, mas não gosto nem um pouco de me deixar ficar, nunca gostei. Apesar de dar esse ar e de não ser especialista em nada.


Perspectivas e advertências. É claro que corremos o risco de dizer baboseiras, tanto mais que o Nuno é capaz de dizer asneiras convicto da sua correcção como é comum. Sucede que ainda assim aprendo, já que há um mundo que ele conhece para lá do que sei. E  isso interessa-me – nele e noutras pessoas. Só perco o interesse quando compreendo que não valem um chavo e apesar de puderem ter mundos para mostrar, o mau carácter tolda-os removendo importância. O Universo pode ser subtilmente perverso: dá-lhes protagonismo - e respeitabilidade aparente -, mas não efectivos conhecimento, razão, sabedoria. Haverá muito quem veja o resultado das conversas futuras que antecipo como conjunto de banalidades, afirmações inúteis que todos conhecem, diálogos que não acrescentam nada - gosto particularmente dos julgamentos de asnos e asnas no alto da sua vacuidade letrada. As críticas ou o excesso delas costumam vir exactamente dos que sendo ignorantes têm uma capa de aparência de conhecimento mal sustentado de que se orgulham bastante – e nalguns casos com muita audiência. Por tudo isso, vamos expor a nossa insignificância ao ridículo. Entreter-nos com as nossas trivialidades sem qualquer interesse. Anunciar uma nova rubrica sem data marcada para começar, sem ter nada previsto, nem sequer ter congeminado o tema para um primeiro post, nem sequer  falado do assunto com profundidade com o Nuno, parece uma patetice. Mas é assim que as Comezinhas se têm feito: de impulsos, de transparência desde o germinar das ideias até à sua publicação, expondo as falhas e o ridículo. Julgo com alguma pretensão que isso as distingue de parte substancial do que nos cerca, apesar de por incrível que pareça o mundo se estar a aproximar delas por semelhança – isto pode afigurar-se louco para quem acha que já tudo foi vivido, visto, dito e lido, mas não é.


20230909_051452 (1)


Entretanto com a mão direita tiro uma fotografia ao Ritz, que me faz companhia e tolhe os movimentos do braço esquerdo enquanto escrevo – ah, os gatos são muito independentes e possessivos e quanto sainete têm as profundíssimas análises literárias acerca das características e temperamento dos gatos replicadas à exaustão. Aprecio muito a intelectualização do gato.


Sei, estou sempre com ideias, a dar início e a deixar os planos a meio. Sim, é defeito. Mas e quem disse que não se pode construir uma estrutura coerente de um todo de começos inacabados? Quem determina que não posso ser como sou? E me impedirá de fazer das fraquezas, forças?


O segundo apontamento. Para a próxima segunda-feira tinha pensado em qualquer coisa sobre elogios e críticas. Ainda delineei um pouco o assunto, mas varreu-se-me tudo. Talvez durante o fim-de-semana consiga agregar alguns pensamentos. Não me esqueci da última agenda: a contraposição das posturas quero, posso e mando face às hipersensibilidades e a calúnia sectária como forma de afirmação e ascensão social. Se conseguir talvez misture tudo numa mexerufada. Se vir que fica muito comprida, separo.


Por fim, deixo só uma nota. Numa espécie de contradição, perguntei ao Nuno se é possível sabendo que sou imprevisível - até para mim própria -, os outros anteciparem o que farei a seguir, passe o pleonasmo. Disse-me: a tua sensibilidade é tal que antecipas o pensamento dos outros sem te dares conta disso.


O presente texto talvez seja visto como mero e vulgar exercício de narcisismo e desfasamento da realidade.

08/09/2023

O post aberto ontem

Foram dois "antigos".



  • Mosca-morta, de 02 Maio 2020. Um dos postais com mais saída nesta casa. Uma piadinha doméstica.

  • Verdes - Mentrasto, de 30 Junho 2020. Também com bastante saída. Acerca da Glória, uma figura da minha infância que muito estimo.

07/09/2023

Diário

Após jantar e findo um dia emocionalmente intenso sem razão aparente adormecemos com o Ritz a fazer as vezes de cão de guarda deitado em forma de tapete junto da ombreira da porta. É impressionante a semelhança de atitude e personalidade com o velho cão Ritz. Salvo no ser medricas com desconhecidos - aí o velho Serra da Estrela impunha-se pelo porte indiferente e altivo em vez de desaparecer. Bem sei que os animais ganham características dos donos, mas há momentos em que me espanta este gato de guarda que arranjámos. Dormíamos quando tocou a campainha – havia esquecido da entrega das compras do Continente. Lá se foi a sorna fora de horas e há que aproveitar para escrever e contar tudo tintim por tintim – há dois dias alguém me perguntou em tom de gozo: mas ainda há alguma coisa da sua vida por revelar nas Comezinhas?


Então, não?


Por exemplo o Nuno disse-me hoje que afinal não sou só a cereja, mas também o creme e o prato do bolo. Tem andado neste registo nos últimos anos. Resumindo: engrampou-me. Julgava-o mais independente. Ele entendeu que eu apreciava liberdade e auto-suficiência e fez o joguinho. Mas qual quê? Passaram os anos e virou mel e grude. Aliás, noto que a proximidade do casamento está a deixá-lo mais abusador. Há dois dias disse-me que era a melhor pessoa que ele conhecia. Ora, uma mulher só pode sentir-se insultada. Ser boazinha é coisa menos sexy à face da terra. A madre Teresa de Calcutá que desculpe, mas não quero participar nesse concurso. Este discurso meloso e atitude sempre concordante dá cabo de mim. Não só me insulta com o boazinha, como ele próprio pratica o bem sendo tolerante, atencioso, compreensivo, cooperante. Essas tretas que dizem que as mulheres gostam, mas que só nos fazem sentir culpadas. Chego ao cúmulo de, ao ler as ensaboadelas lifestyle brasileiras sob o título “confirme se já encontrou a alma gémea", verificar que cumprimos todos os requisitos. Tanta felicidade é enjoativa. Farto-me de sugerir que seja traste. Mas em regra tem uma faltinha de jeito só. Só sabe ser patife quando não convém. Enfim, um perfeito príncipe encantado. O que me havia de calhar em sorte, logo eu com todas as razões para achar que tinha mau gosto. É por estas e por outras que aos 49 anos depois de o ter conhecido há 23 ainda fiquei a magicar se não seria cedo demais, se não seria precipitado casar já. Só sosseguei quando o meu pai, no momento em que desabafei o temor de perder liberdade, me recordou que tal como posso casar, me posso divorciar a qualquer momento – preciso sempre que me lembrem os aspectos práticos da vida. Não há como entrar num casamento a pensar que há porta de saída.

Moralidades à quinta-feira

Se observarmos a vida em dois planos distintos, um mais espiritual outro mais terreno, podemos constatar algumas contradições. Quem está habituado a lidar com o espiritual e o esoterismo sabe que é costume generalizar ou relativizar a dor e o valor de cada um face a uma razão suprema que em última instância reporá a justiça. Em traços gerais diz-se: a condição humana determina que todos sofram altos e baixos, todos tenham o seu valor intrínseco. Por contraste e baixando a um nível mais mundano é inelutável recorrer à comparação, a tal que o lifestyle proíbe - artificialmente, porque vive disso -, e com objectividade compreender que a forma como cada um está no mundo e o factor sorte são determinantes no decurso da vida.


E é sobretudo importante fazer entender como é perniciosa a adesão fácil ao discurso Miss Mundo do lifestyle, que nos pretende dar a lição do (aparente) esforço ser sempre recompensado, do recurso e favorecimento da lábia e do oportunismo, do desinteresse ou repugnância pelas reais questões da justiça mascarando-as de lugares-comuns como a igualdade de oportunidades e o mérito no esforço, nos quais pretensos empenhados, trabalhadores e, em geral, indivíduos certinhos saem sempre vitoriosos por contraste aos preguiçosos, invejosos e desregrados.


Em suma, mascarar as qualidades e defeitos do ser humano, tomando a aparência por realidade, colocando tudo no mesmo patamar, pode ser um óptimo pretexto para perpetuar injustiças. Quantos mais bocejos se observam perante quem levanta questões de equidade efectiva, mais sujo fica o mundo - um lugar propício ao destaque da mediocridade.  


 


*


 


Posts anteriores desta série.



Por vezes o pensamento e o sentimento até coincidem e ainda assim há animosidade vinda da pura vontade de conflito, da usurpação de valor alheio ou da necessidade de rebaixar outrem para ganhar ascendente, mais do que de picardia inócua ou reacção a alguma injustiça.



Quantas vezes esticaste as asas e cortaram-te as penas? Quantas vezes alongas as asas e arrancam-te as penas?



Enquanto tiver juízo, a cair no erro da doutrinação, farei sempre a contrario. Espécie de psicologia reversa. Dando-me como exemplo de falha, de defeito, espelhando as minhas fraquezas.



Quem lê as Comezinhas de início sabe que a crítica a quem “olha de cima da burra” é uma das mais importantes ideias deste blogue – em que faço mais finca-pé.



[silêncio]



Onde está a moralidade hoje? Para dentro. Na admissão das falhas como alerta e incentivo a ti própria para mudar de atitude a arrumar o raio das gavetas da mesinha de cabeceira, os documentos do portátil pessoal e duas das três caixas de email profissionais.



Em contraposição carimba-se os que fogem da intriga, do obscuro e do conflito como moralistas ou puritanos, já em vias de ferrados como perigosos defensores das ditaduras, pois se atentam contra os mais nobres valores ao proporem mais reflexão, mais lucidez e, pasme-se, ao terem o topete de sugerir necessidade nalguns momentos de renúncia ao argumento em prol de consenso.



Ainda que sem a posse de toda a informação e conhecimento, presumo em regra que penso melhor do que a maioria. E admito. Detesto a falsa tolerância. Odeio sentir que estão a fazer de conta que respeitam um ponto de vista só para passarem a imagem de grandes democratas, quando é patente que quem o faz, geralmente, gosta da competição ou desporto da retórica, de manipular o discurso e as acções de modo a prejudicar não quem é nocivo ao mundo, mas quem não lhe traz vantagem pessoal. E mais do que tudo gosta da zombaria e só com ela se sente gente, se sente vencedor; e só com ela esconde a solidão. 



Mas contaram-te que estando um grupo de velhas senhoras a lanchar, aproximou-se uma criança pequena, franca e malcriada e dirigindo-se a uma delas disse: ui, é tão feia. Contida, a visada fez de conta ouvir pior do que de facto escutava, afagou a cara do pequenino e virando-se para a dona de casa e avó da criança disse: tão engraçadinho, o teu pequeno.


Cedo ouviste esta história antiga e, como alguns, afagaste e afagas muitas faces de desaforos de engraçadinhos(as) que insistem em achar não que és feia, mas sim burra.



Afinal a moralidade encapotada não é exigível apenas aos bruxos, mas a todos, incluindo aos pregadores mais sofisticados da praça. Cada um vende a banha da cobra que tem mais a jeito e promove o protagonismo e a auto-estima à sua maneira. Escusam de se pôr em pedestais que não vos pertencem, ó eruditos da treta. Desçam à terra.



Só para dizer que hoje seria dia de Moralidades à quinta-feira, mas como sou uma bloguer de trazer por casa, não escrevi nada. Nem me vai sair nada de interesse de chofre. Deixo apenas a nota de que acordei muito mais inclinada para as imoralidades, por isso talvez não seja grande ideia fazer esfregas moralistas.



Não sei se abra uma rubrica: moralismos à quinta-feira. Afinal gosto de sermões. Tão fora de moda. Não é nada sexy nem excitante - assim não arranjo casamento. Que maçada.