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29/09/2023

Aos heróis das facilidades

São duas horas, precisamente. Dormi entre as dez e a uma da manhã. A ver se às três me deito novamente para acertar os sonos. Estou a ficar adoentada, o que é normal, a E. e o Z., com quem partilho gabinete na empresa estão com gripe ou virose, ou lá o que é, e contagiaram-me. Espero que o Nuno apanhe rápido para não prejudicar mais adiante a saída para a Turquia.


Preocupa-me um pouco falar do rame-rame e de nada de substância. Ou melhor, de substância de outra ordem. Deverei recomeçar a ler e criar lenha para reflectir. Hoje é dia de aniversário do meu pai. Ontem comprei a usual pequena garrafa de Vinho do Porto da Quinta do Vallado. Tem sido o presente mais comum dos últimos anos aos meus pais e irmãos, sobretudo no Natal. Gosto da garrafa bojuda e da caixa cilíndrica amarela - sou de ideias fixas, agrada-me dar o mesmo presente anos seguidos. Amanhã (aliás, hoje) ao fim do dia passarei na Bertrand para comprar um livro. Ainda não pensei qual, apenas que deveria ser de contos ou crónicas, e se romance, bem curto. O meu pai a fazer 81 anos está como eu (ou eu como ele), a querer paz e sossego nas leituras.


Ontem pus-me a pensar se isto de dosear as leituras não seria uma medida profiláctica no caso de algumas pessoas como eu. Excesso de estímulo pode prejudicar quem processa tudo com complicómetro.


Um dia pode ser uma eternidade de momentos. Ontem tive um de fúria. Irritei-me num momento de consciência ao ver-me em permanência em situações Mr. Bean, sempre atarantada com sucessões de pequenos azares por mais pondere e tente fazer tudo correcto. A psicologia responsabilizar-me-ia pela falta de jeito, arranjaria uma descompensação qualquer que impediria a falta de atenção ou concentração e uma “vida mais feliz” e de “maior sucesso”. Para a psicologia não existe acaso, nem sorte nem azar, nem circunstâncias favoráveis nem desfavoráveis ou injustas, apenas lógica tantas vezes da batata (algumas vezes correcta, lá calha a coincidência com o bom senso). Nada que espante, a psicologia veio substituir a religião e, naturalmente, tem muitas das suas pechas. A pior: a crença cega nos seus princípios e nas tretas salvíficas. Nesse momento de fúria desejei o pior possível ao mundo sem compostura. Ingrato, injusto, cruel. Que explodisse, praguejei. Claro que foi uma tempestade num copo de água e assim como veio passou, até porque tenho consciência de que muito na minha vida é positivo e devo ser agradecida. O destempero mental – a que só o Nuno teve acesso, com a paciência do costume, desta vez por telefone - foi à hora de almoço na subida a pé para casa, depois do caos no trânsito na Rotunda e do desatinado ruído das milhentas buzinas dos automóveis que me desespera. Ao chegar a casa vi um vizinho de cerca de 40 anos a arrastar-se num andarilho – o mesmo que outro dia delicado me chamou a atenção na padaria que havia deixado cair um papel da carteira no chão. Ia a arrastar-se, não. A locomover-se com a dignidade de quem tem uma contingência e vai fazendo a seu dia-a-dia contra todas as crueldades da vida. Entrei no elevador a pensar nele e nas vidas cheias de si, de proa, de abundância e sorte. Pejadas de lugares-comuns sobre o esforço e dedicação com que conquistaram o seu lugar ao sol. Muito convictas do seu talento, capacidade de trabalho, rigor e pasme-se, seriedade. Muito convencidas do que é certo e errado dentro do quadro mental de facilidades que as ampara mas nunca reconhecem contando sempre histórias verídicas (dizem) da treta sobre injustiças que sofreram e de superação de dificuldades criadas à medida do mito de que o esforço é sempre recompensado, o sucesso sempre fruto de trabalho árduo e a sorte factor de somenos importância. O que dizer? Não me maces com coisas tristes, não é? Não mistures assuntos, não tem nada a ver uma coisa com outra, não é? Não terá? Ó gente arrogante. Bem precisos eram uns bofardos em quem não respeita os outros. Cansam-me, sugam-me o ânimo, esses e essas estupores.


E já são três, preciso de fechar este texto e ir dormir para amanhã trabalhar. Um privilégio poder trabalhar. Ter saúde para isso e os neurónios ainda capazes na medida do possível. Uma cama com edredão e paz de espírito, um luxo - oh, como sei que é um luxo. Uma casa paga, outro privilégio. Uma relação sem conflitos estúpidos, numa convivência harmoniosa, a riqueza das riquezas. Ontem troquei algumas mensagens com o Nuno por Skype. Gosto. Chegámos sempre à conclusão que deveríamos namorar mais por Skype, isto é, dizer patetices e trocar mimos e palavras amorosas que dispõem bem.


Ontem a M. C. e o M. enviaram email a perguntar pelo fecho do blogue. Respondi que preciso descansar, de tempo para a vida pessoal e que tenciono mais tarde voltar a pôr o blogue público. Desejei que corra tudo bem com eles.