Ontem passei um dia inteiro a pipocar episódios a escrever e sem nenhuma oportunidade ou abertura de tempo para o fazer. Tanto melhor, pensei hoje ao acordar. Falta-me o distanciamento. A avalanche dos últimos tempos exige paragem estratégica. Logo à tarde poderei chegar a conclusão diversa. Agora do nada surge na mioleira o quão nocivo pode ser ouvir bitaites alheios sobre tudo e mais um par de cuecas - sim, botas, para ficarem contentes. Restrição, restrição de preconceito, de mundos tantas vezes pequenos apesar da aparência de grandes vivências e sabedorias. Estrangulam o que desponta novo e sem par na incompreensão e na soberba da devoção à simpatia fictícia, premeditada e oportunista ou na mais caquéctica sobranceria não cuidada nem podada com a delicadeza que exige o trato das verdades herdadas dos avós, dos livros e da vidinha.
Quando tiver tempo delinearei um punhado de contos que imaginei escrever de modo inconsequente. Não faço a mais pequena ideia como articularei o pensamento, os factos e a leve película de respeito pela verdade, os cenários e os sujeitos da acção. Uma pele leve e suave imperceptível a olho nu e ao olho de quem anuncia e divulga livros, viagens, vida própria, actualidade e opinião com a mesma sensibilidade com que publicitaria as qualidades materiais, estéticas e conceituais de tijolos de cimento ou loiça sanitária.
Ao contrário do que fiz até aqui começarei em reserva por elencar os episódios acerca dos quais me quero debruçar e logo verei se há réstia de talento para os contar com a tal distância referida mas não conseguida na Ana Paula. O tal ver de fora. Se tivesse juízo e dada a escassez de tempo nada mais diria até ter conseguido dois ou três exemplares. Mas conheço-me os defeitos e tenderei sempre a vir aqui contar o ponto de situação do acto de criar. Estranha a rapariga, além do permanente anúncio dá mais valor a tudo quanto a envolve do que à obra em si – ai a pretensão. E se a obra for a própria construção? – e pensa ela que traz novidade, coitada da ignorante pouco lida e sabida. Além de soporífera. Não terá noção do quão chata e intragável é? Terão a mais pequena ideia da coragem precisa para estar eternamente a contrariar o confortável à maioria e a quem tem voz e poder de forma a manter-se fiel a si e ao que acredita?, e quão diferente isto é de criar conflito à toa ou afinidade oportuna para gerar audiência? – parvinha coitada, tão básica, tão desfasada, não compreende nem consegue nada da vida e ainda quer dar lições; temos de continuar a atirar-lhe à cara diária e ao longo de uma vida exemplos de verdadeiro génio, superioridade e sucesso para reduzi-la à insignificância. Temos de fazê-la entender que o mundo é bem maior do que a sua pequenez. Há-de amargar bem o topete de ter a veleidade de se achar alguém. Viva o dar palco a nulidades cheias de si. Por ora só um lamiré sobre ficção. Para alguns ficcionar é dar imagem diferente daquilo que a realidade é. Mentir, fantasiar, embelezar, descaracterizar, intrigar, desfear, satirizar, enobrecer, desmoralizar, desvirtuar, purificar, caricaturar etc. Para outros é tão só criar realidade. Muito simples.