Pesquisar neste blogue

17/09/2023

Diário

Dizem as más-línguas que pessoas inteligentes não revelam planos e sonhos. Gosto de fazer quase tudo ao contrário do ditado por convenções tontas e tive a prova que viver a reservar o que genuinamente pensava e sentia não trouxe especial felicidade. Nem outro resultado que não fosse imagem pouco fiel do que era. Aparentando voluntária ou involuntariamente o que não era. Outras características como a curiosidade, independência, inconsequência e alguma lata trouxeram-na. Talvez esteja aqui a razão de há anos vir contando quase tudo nas Comezinhas.


Levantando vôo lembrei-me esta manhã dos grandes autores. Ou melhor, dos escritores que considero grandes. São os que não se temem a si, mais dos que dizem não temer os outros - ai, ai a pobreza de discurso, a infantilidade da linguagem na perspectiva dos arautos da sofisticação e pretensão. Assumem-se inteiros. Medo, hão-de ter mais do que muito, mas enfrentam-no. O que é muito diferente de se arvorarem em senhores da verdade, do conflito e da arte com o relativismo moral conveniente a passarem entre os pingos da chuva e seduzirem leitores fáceis pseudo-intelectuais. Vem isto a propósito do contraste entre cunho diarístico e a ficção. Dei por mim a ponderar se deveria enveredar por ficcionar o que vivo e me chega da vida dos outros, fazendo à moda de vendedores de livros: entrelaçando o meu percurso com histórias de vida furtadas. A resposta foi prontamente negativa, como se pode imaginar. São-me bastantes os pedaços de vidas que me foram dados de livre e espontânea vontade e com a consciência e a confiança de não estarem a ser enganados, de não terem caído numa mentira ou cilada. O resultado seria sempre pífio, apesar de render elogios e vendas. Inspirar-me-ei sempre em gente de fibra: nos grandes e não nos medíocres promovidos, por mais que muitos tentem inverter o epíteto – hoje qualquer um diz o que quer e na posse do megafone inverte a realidade mediante a retórica e a manipulação. Quem me inspira e admiro assume-se inteiro e isso compreende-se em cada capítulo, em cada conto, em cada romance. Não tem vergonha de si próprio nem do que sente e pensa, muito menos enfeita, depura e intelectualiza e o que sente e pensa para causar o ridículo impacto de erudição ou densidade. Quem tem audácia e profundidade não precisa dar ar delas. Quem pretende dar ar tudo quanto causa em pessoas com dois dedos de testa, e sem interesse em promover livros, amigos ou retórica de facção e com isso obter as vantagens do elogio, é o bocejo. Mas, claro, tem o seu papel no mundo: pode sempre entreter elites fajutas e público pouco exigente composto por gente que gosta de historinhas de intriga, figurinhas, excitaçõezitas, clichés, pretensa originalidade e erudição de algibeira.


Baixando o vôo à realidade comezinha e piando mais fino conto que a última deambulação acerca do futuro do blogue veio com esta constatação: depois de oito anos de regresso à escrita e de exercício básico e corriqueiro da dita - os primeiros quatro na reserva do processo de criação, os restantes quatro exibindo aqui diariamente muito do que assaltou a mioleira incluindo os grandes defeitos e fragilidades – só falta mais um para fechar o ciclo de nove anos. E como estas coisas não acontecem do dia para a noite e os períodos vão fechando e abrindo como a auto-estrada abre das duas faixas para três, das três para quatro e as volta a reduzir mais adiante, com inúmeras oportunidades de saída que se escolhem ou evitam, é natural que se note um processo de mudança em curso aqui no blogue – um pequeno prec. É a transparência. Talvez esteja a falar de um novo salto para a ficção a começar a esboçar-se. Ainda com contornos por definir, como as luzes difusas na auto-estrada em noite chuvosa. Oh alegrias pequenas, que seria de nós sem elas? Talvez esteja a falar da cada vez menos paciência para a viciada opinião sobre a actualidade e também da velha irritação de dar pérolas a (alguns poucos) porcos; sustento para medíocres se gratificarem com o que escrevo. E repare-se que tenho o maior respeito pelos meus leitores – não é deles que falo, mas de verdadeiros larápios cuja leitura nunca é inocente. De qualquer modo, cheguei à conclusão: há coisas que nunca mudam, as décadas vão passando e os piratas nunca largam o osso. É o que menos importa – sempre se revelará a diferença entre original e cópia. Talvez uns engulam o riso do desdém e outros compreendam quão longe estou da mania de perseguição de que me culpei erroneamente tanto tempo. Talvez esteja a deixar-me ir no sentido de sempre, da mudança. Ah, sensação boa de prazer. Mudar. Devagarinho, como leio. Mentiria se dissesse, como vivo. Não posso dar lições a ninguém para aproveitar a vida com o vagar, as oportunidades e as virtudes que ela merece. Entrelaço momentos de muita velocidade aos de pasmaceira e pélo-me por mudança. Talvez não dê tempo para saborear tudo. Uma maçada. Deveria martirizar-me por isso, só que não. Aborrece-me a mesmice, salvo quando gosto. Às vezes quando escrevo de modo convencional sob o ponto de vista da linguagem e da substância – aproximando-me de mundos que não reconheço meus nem quero - elogiam-me a sensatez e o rigor, o que muito me irrita por compreender que revelam dificuldade em aceitar a diferença e só consideram mais do mesmo. É tudo muito fácil de compreender. Tudo o mais vulgar possível, ou talvez nem por isso.


Olhando de fora para o que acabei de escrever, o que me apraz dizer acerca dos parágrafos precedentes? Quem raio esta imbecil pensa que é? Julga-se no direito de palpitar sobre a mediocridade alheia e não sai do umbigo e nem sequer aí passa do plano das intenções com que massacra quem a lê. Promete, promete e nada de sério, virtuoso e belo sai das suas mãos. Não passa de uma fala-barato sem valor. Ah, sensação boa. Não há como uma esfrega na auto-estima e não precisar de furtar para me saciar. Enfim, estou feliz. E nada irrita mais do que a alegria e o contentamento alheio. Uma maçada.


Amanhã não haverá O que é esta segunda-feira? Está alinhavada, mas não me apetece publicar. Talvez na próxima semana. Ou vai para o lixo. É para onde estiver virada.


Beijinhos a abraços a quem passa (hoje deu-me para aqui).


Boa semana.