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02/09/2023

Diário

Nem sabes por onde começar o diário de hoje, tal o sono e a cabeça cheia. Talvez por dizer que tiraste fotografias do almoço no decadente Portucale, com fantástica panorâmica sobre o Porto, mas julgas que não vais publicar. Estás farta de comida e acreditas que quem passe por aqui já pense: mas aquela fulana (os ariscos que cá vêm pela curiosidade e a quem sobretudo irritas) ou aquela rapariga (os que te estimam) só pensa em empanturrar-se. Não, na verdade perdes-te também noutras coisas e exactamente nessas que estão a pensar, todavia não tens grande inclinação para expor intimidades desse género – se vier a despropósito neste postal que crês vá ser comprido, prometes desenvolver, mas é bem possível que não. Voltando aos prazeres da mesa. Sim: sol, chuva, vento, praia, serra, árvores, plantas, bichos, passeio, conversa, música, nado, leitura, comida, tudo isso e muito mais te agrada e ganhas bastante tempo a fazer aquilo que te dá satisfação. Chegas a ter o topete de tirar prazer de trabalhar. Sim, a lançar conta-correntes e outras tarefas desinteressantes para a maioria. É-te fácil ter prazer, não há como dizer de outra forma. Não defendes as rotinas à toa. Conheces o gozo que podem proporcionar se a cabeça e o coração estiverem alinhados, se não forem meras fugas em frente. Agora seria oportuno explicar de onde vem esta aceitação satisfeita da vida. Talvez fales de um momento do passado em que por uma unha negra estiveste para deixar de ser. Como dizer isto sem soar a lamechice ou pensamento inspirador da treta. Quando compreendeste que um movimento teu só não pôs fim a tudo por um rasgo do acaso ter mudado a rota do destino num ápice e que para o bem e para o mal não és inteiramente senhora de ti, começaste a reencontrar um fio que une o todo e te empurra dia após dia, dificuldade após dificuldade, alegria após alegria. Primeiro a muito medo e à medida que os anos foram passando, cada vez mais a recuperar a segurança perdida, com reveses, hesitações e fúrias mas também com ânimo e ajudas - a vida a refazer-se.


Nesse processo lembras-te de teorizar sobre os idiotas felizes nos quais te incluías, os que ao planear e sonhar encontram contentamento, ainda que não haja concretização de parte desses desejos – seria impossível porque isto é gente para milhares de sonhos. Porém, é evidente que há momentos de desalento, de frustração – aprendeste a conhecer-lhes as causas, sabes porque choras, aprendeste a conhecer-te. As sensibilidades maiores estão onde dói mais e claro que quando te aproximas dos 50 há decepções que magoam. Basta dizer que não tiveste filhos e que chegada a esta idade não tens isso resolvido para metade do mundo compreender do que falas. Estás habituada a enfrentar as dores contigo própria. Há outras mágoas, todas de menor importância. E só isso te dá a real dimensão de que nada é de facto muito grave e que quase tudo é superável. Talvez daí o teu pudor em falar de sentimentos desta natureza, apesar de mais do que comuns na tua geração. Odeias a ideia de banalizá-los. Já revelaste as causas aqui há dois ou três anos, seria demais repetir. Adiante. Até porque isto parece meio melodramático e tens pouca pachorra para esse registo, além de possuíres a consciência de que o mais importante muda com a vida e as circunstâncias e de não te levares muito a sério por respeito à verdade.


Antes do almoço foste com o Nuno à ourivesaria comprar as alianças. Sendo verdadeiramente extraterrestres não com antecedência devida, pelo que estarão prontas uma semana depois do casamento. Perfeito. Até porque não tinhas a menor intenção de trocar alianças na presença de terceiros, num acto público. Há coisas íntimas que não dizem respeito a mais ninguém. A ideia era fazê-lo mais tarde, ora aí está um belo pretexto. A menina queria muito que uma data fosse gravada. Tiveste de convencê-la: o que mais há são datas e isso é o menos importante. O Nuno, que para o caso não se lembra das datas, concordou. Chegam os nomes, disseste. Ela sugeriu juntar corações e assim ficou decidido, com umas colcheias a rematarem, que sempre vos atam mais do que as datas - os principais interessados estão mais encantados com a ideia da bênção da chuva no dia da escolha das mais banais e tradicionais alianças. Tudo certo.


Falaste hoje ao telefone com o C., a T., e a F., que testemunharão. É difícil apanhar o C. e a F. quietos em Portugal, mas parece que os ventos estarão favoráveis e poderás contar com eles. Se conseguir as trocas nas escalas no hospital, a tua enteada virá também. Não sabias que hoje se pode prescindir de testemunhas, mas já que existem, serão quatro. E o festejo resumir-se-á ao almoço com as testemunhas. Falaste com os teus pais ao telefone para os pôr ao corrente de tudo isto e o Nuno com os dele e com a sua pimpolha. A ti parece-te tudo sincronizado como um relógio suíço, no bom sentido – até o atraso nas alianças não podia ter vindo mais a calhar.


Continuas com sono por teres passado a noite a ver casas online pelo país fora e mais cedo deste por ti a pensar que as melhores decisões que tomaste na vida foram as mais arriscadas e as mais contrárias à opinião de todos – isto não vem a propósito do casamento já que crês que quem vos cerca está genuinamente contente. Mas voltando às decisões difíceis, são elas que trazem as melhores alegrias. Ainda que haja drama. A mais importante das decisões implica complicares muito a tua vida, uma carga de trabalho e uma quota de coragem que perdeste muito novinha, além do que exige superação de obstáculos subjectivos prévios que nunca soubeste como solucionar. Aí sim, sempre esperaste que se resolvesse por um golpe de magia – mas não podes contar com dois golpes de magia numa vida, é pedir muito. Se quiseres, tens de te fazer à vida e logo para a complicar de um modo como nunca antes numa idade em que já pedias descanso. É, parece que é assim que a vida acontece e as felicidades possíveis surgem para lá das ilusões e dos enganos. Tudo normal. 


O que não é normal é este tintim por tintim, qualquer pessoa de juízo omitiria tudo isto ou quando muito faria uma nota discreta a posteriori - estes são os assuntos onde te empenhas em pôr clareza. Mas nem tu tens juízo nem as Comezinhas deixarão de ser um diário espontâneo e franco, apesar de haver sempre margem para o indizível.