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09/09/2023

Diário

Passa das quatro e meia da manhã. Acordei há uma hora talvez, depois de me ter deitado cedo. Mais tarde voltarei a dormir um par de horas. Mas resolvi ligar a smooth fm na sala, o globo e a série de luzes, fazer um café, pendurar a roupa que pus a lavar antes de dormir e vir escrever mais banalidades em diário.


Preocupam-me as dores do meu pai que está no hospital com o colo do fémur fracturado. O próprio fez questão de avisar com objectividade, como sempre fazemos em família. Sei que rápido se restabelece, mas era escusado estar a passar por isto.


Nas escritas dois apontamentos. O primeiro para contar que propus ao Nuno abrir uma rubrica ao Sábado com a ajuda dele. Há assuntos em que sou para lá de nódoa como ciência, matemática e música. Na linha de um post publicado há dois anos, a minha intenção é trazer para o blogue alguns dos nossos temas de conversa. E de onde vem esta ideia? Das dificuldades, como quase sempre. Há circunstâncias e domínios em que sinto a massa cinzenta feita betão não poroso, impenetrável. A título de exemplo, em matéria de línguas sempre fui uma nódoa por mais me esforçasse – o que não invalidou que sempre me desenrascasse nas viagens -, sei hoje que a explicação vai muito para além das lengas-lengas da necessidade de estudo e prática (claro que é importante, mas há um mundo de razões para lá disso). Uma nesga de facilidade nessa matéria surgiu nos últimos anos, mas continuo muito fraca. Porém, se até Leonardo Da Vinci tinha dificuldade no latim?, como não ficar inspirada e acreditar que nem tudo está perdido. E como no domínio das línguas, as dificuldades são mais do que muitas noutras áreas. Dirão: todos as temos, todos possuímos maior apetência para uns domínios e menor para outros. Acredito, mas não gosto nem um pouco de me deixar ficar, nunca gostei. Apesar de dar esse ar e de não ser especialista em nada.


Perspectivas e advertências. É claro que corremos o risco de dizer baboseiras, tanto mais que o Nuno é capaz de dizer asneiras convicto da sua correcção como é comum. Sucede que ainda assim aprendo, já que há um mundo que ele conhece para lá do que sei. E  isso interessa-me – nele e noutras pessoas. Só perco o interesse quando compreendo que não valem um chavo e apesar de puderem ter mundos para mostrar, o mau carácter tolda-os removendo importância. O Universo pode ser subtilmente perverso: dá-lhes protagonismo - e respeitabilidade aparente -, mas não efectivos conhecimento, razão, sabedoria. Haverá muito quem veja o resultado das conversas futuras que antecipo como conjunto de banalidades, afirmações inúteis que todos conhecem, diálogos que não acrescentam nada - gosto particularmente dos julgamentos de asnos e asnas no alto da sua vacuidade letrada. As críticas ou o excesso delas costumam vir exactamente dos que sendo ignorantes têm uma capa de aparência de conhecimento mal sustentado de que se orgulham bastante – e nalguns casos com muita audiência. Por tudo isso, vamos expor a nossa insignificância ao ridículo. Entreter-nos com as nossas trivialidades sem qualquer interesse. Anunciar uma nova rubrica sem data marcada para começar, sem ter nada previsto, nem sequer ter congeminado o tema para um primeiro post, nem sequer  falado do assunto com profundidade com o Nuno, parece uma patetice. Mas é assim que as Comezinhas se têm feito: de impulsos, de transparência desde o germinar das ideias até à sua publicação, expondo as falhas e o ridículo. Julgo com alguma pretensão que isso as distingue de parte substancial do que nos cerca, apesar de por incrível que pareça o mundo se estar a aproximar delas por semelhança – isto pode afigurar-se louco para quem acha que já tudo foi vivido, visto, dito e lido, mas não é.


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Entretanto com a mão direita tiro uma fotografia ao Ritz, que me faz companhia e tolhe os movimentos do braço esquerdo enquanto escrevo – ah, os gatos são muito independentes e possessivos e quanto sainete têm as profundíssimas análises literárias acerca das características e temperamento dos gatos replicadas à exaustão. Aprecio muito a intelectualização do gato.


Sei, estou sempre com ideias, a dar início e a deixar os planos a meio. Sim, é defeito. Mas e quem disse que não se pode construir uma estrutura coerente de um todo de começos inacabados? Quem determina que não posso ser como sou? E me impedirá de fazer das fraquezas, forças?


O segundo apontamento. Para a próxima segunda-feira tinha pensado em qualquer coisa sobre elogios e críticas. Ainda delineei um pouco o assunto, mas varreu-se-me tudo. Talvez durante o fim-de-semana consiga agregar alguns pensamentos. Não me esqueci da última agenda: a contraposição das posturas quero, posso e mando face às hipersensibilidades e a calúnia sectária como forma de afirmação e ascensão social. Se conseguir talvez misture tudo numa mexerufada. Se vir que fica muito comprida, separo.


Por fim, deixo só uma nota. Numa espécie de contradição, perguntei ao Nuno se é possível sabendo que sou imprevisível - até para mim própria -, os outros anteciparem o que farei a seguir, passe o pleonasmo. Disse-me: a tua sensibilidade é tal que antecipas o pensamento dos outros sem te dares conta disso.


O presente texto talvez seja visto como mero e vulgar exercício de narcisismo e desfasamento da realidade.