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03/09/2023

Heróis na dor

Neste momento estou no +1 com o Ritz no parapeito da janela alta, a aproveitar a nesga de abertura que permito para enfiar a ponta do focinho e apanhar ar nos bigodes. Também vai gozar quando houver jardim. Lá dentro o Nuno toca piano, enchendo a casa de ternura. Levaremos o teclado pequeno para a casa do jardim que virá um dia. O Ritz farejará cada recanto. Já apanhou ar suficiente, desceu para a velha toalha de praia em cima da mesa do computador, esperneou a língua uma dúzia de vezes para saborear os últimos sentidos do mundo lá fora, bamboleia-se e fechou os olhos, anunciando que vai dormir. O piano não o priva do sono, embala-o.


Ontem o sono doía-me de tanto que era. Mas dormi uma bela noite, acordei bem-disposta com pouca vontade de ler jornais e saber do mundo para lá de vida que me toca. Às vezes penso que se cada um tivesse mais consciência de si e do que é de facto importante, se ocupasse mais de si do que do julgamento dos outros e do mundo envolvente, a vida seria mais fácil para todos. Pensamento naïf. Seja. Há quem o considere mesmo fútil, condicente com o pé desmanchado da Luísa Carneiro. A alegria é bem naïf. Dei também por mim a magicar no que me distancia de tantos compatriotas. Mundos tão díspares, convenções e hábitos enraizados de fatalidade em tantos portugueses, que vêem tristeza e dor onde vejo empenho e percurso banal. Vida normal e na maior parte do tempo, bem alegre. Como dizer-lhes que se perdem em vaticínios tontos em ideias fatídicas ridículas de tão inventadas e rebuscadas. Dá ideia que gostam de criar enredo próprio ou alheio de sofrimento e só assim encontram heroicidade. Ora se vêem como triunfantes guerreiros a cavalgar a dor em carne viva, ora como gente bem-sucedida e benemérita que mais não faz senão em sacrifício pessoal dar a mão para ajudar os caídos que os cercam. Em todo caso heróis na dor. Protagonistas, sempre. Incapazes de compreender e reconhecer a singela alegria alheia e a simplicidade da vida, essa sim a única que lhes dói na verdade e por isso não aceitam.