Quão difícil é definir uma posição recta e justa nos dias presentes. Para lá da permanente tentativa de aferição de veracidade das palavras e imagens que jorram a todo o instante no espaço público e que consumimos sem tempo nem espaço mental para processar, impõe-se a necessidade de distanciamento sobre os momentos de avalanche, de molde a não ser apanhado pelo próprio movimento.
Quem está dentro ou tem interesse directo na direcção dos factos – todos temos, mas há quem viva quase só disso – não resiste a deslizar, tantas vezes julgando-se capaz de conduzir o arrastamento da neve em movimento. O discernimento nestes casos está comprometido por mais excitante e atraente seja o discurso, por mais esteja na moda no último século o testemunho presencial das ocorrências.
Basta abrir os jornais, ver os noticiários televisivos ou tropeçar nas redes sociais para compreender a distância que nos separa da noção oitocentista de imprensa (alargando hoje o espectro a toda a comunicação social) como garantia contra os abusos do poder. O contra-poder ou quatro poder é hoje o primeiro poder: condiciona o legislativo, o executivo e o judicial. Os jornais, as televisões (e as redes sociais) determinam e condicionam através da retórica e interpretação abusiva dos factos, da constante manipulação da opinião pública – mais do que qualquer outro sector na sociedade: mesmo o financeiro – quem representa as populações e faz as leis, quem governa e o sentido das decisões judiciais. Não só por serem os principais (des)educadores dos cidadãos e eleitores, como pela dependência e promiscuidade dos interesses partidários, económicos e culturais. E não há aqui lugar a tretas de ingratidão com quem nos fornece informação – esse joguinho do tão agradecidos que deveríamos estar a quem nos informa e protege dos abusos pode constituir o sustento e justificação do mercado da informação manipulador e sem escrutínio. Afinal quem nos defende dos abusos do poder da comunicação social? E nada disto tem a ver com autoritarismo ou censura. É, pelo contrário, preocupação com a saúde da democracia. A comunicação social está desabituada de lidar com contra-poder e assim transformada em primeiro poder. Defender imprensa livre, sim. Defender jogos e promiscuidade de interesses políticos, económicos e culturais ou tão simplesmente mera excitação acéfala, não.
A ditadura pacífica e brutificante da comunicação social só perde em perversidade para as ditaduras totalitárias anti-democráticas bastante mais nocivas e violentas. Todavia não é por estas últimas continuarem a existir que devemos fazer de conta não ver a sujidade na nossa casa, por mais tranquila e próspera seja – apesar da exploração constante da fragilidade e pobreza quando interessa e beneficia a política partidária, corporativa e sindical rasteira e a chicana entre tribos de interesse na sociedade civil. Tudo muito longe da procura do bem comum – e aqui está a moral, essa palavra de tão má fama no presente.
Boa quinta-feira.
Adenda. O presente texto foi alterado e actualizado esta manhã.