Após jantar e findo um dia emocionalmente intenso sem razão aparente adormecemos com o Ritz a fazer as vezes de cão de guarda deitado em forma de tapete junto da ombreira da porta. É impressionante a semelhança de atitude e personalidade com o velho cão Ritz. Salvo no ser medricas com desconhecidos - aí o velho Serra da Estrela impunha-se pelo porte indiferente e altivo em vez de desaparecer. Bem sei que os animais ganham características dos donos, mas há momentos em que me espanta este gato de guarda que arranjámos. Dormíamos quando tocou a campainha – havia esquecido da entrega das compras do Continente. Lá se foi a sorna fora de horas e há que aproveitar para escrever e contar tudo tintim por tintim – há dois dias alguém me perguntou em tom de gozo: mas ainda há alguma coisa da sua vida por revelar nas Comezinhas?
Então, não?
Por exemplo o Nuno disse-me hoje que afinal não sou só a cereja, mas também o creme e o prato do bolo. Tem andado neste registo nos últimos anos. Resumindo: engrampou-me. Julgava-o mais independente. Ele entendeu que eu apreciava liberdade e auto-suficiência e fez o joguinho. Mas qual quê? Passaram os anos e virou mel e grude. Aliás, noto que a proximidade do casamento está a deixá-lo mais abusador. Há dois dias disse-me que era a melhor pessoa que ele conhecia. Ora, uma mulher só pode sentir-se insultada. Ser boazinha é coisa menos sexy à face da terra. A madre Teresa de Calcutá que desculpe, mas não quero participar nesse concurso. Este discurso meloso e atitude sempre concordante dá cabo de mim. Não só me insulta com o boazinha, como ele próprio pratica o bem sendo tolerante, atencioso, compreensivo, cooperante. Essas tretas que dizem que as mulheres gostam, mas que só nos fazem sentir culpadas. Chego ao cúmulo de, ao ler as ensaboadelas lifestyle brasileiras sob o título “confirme se já encontrou a alma gémea", verificar que cumprimos todos os requisitos. Tanta felicidade é enjoativa. Farto-me de sugerir que seja traste. Mas em regra tem uma faltinha de jeito só. Só sabe ser patife quando não convém. Enfim, um perfeito príncipe encantado. O que me havia de calhar em sorte, logo eu com todas as razões para achar que tinha mau gosto. É por estas e por outras que aos 49 anos depois de o ter conhecido há 23 ainda fiquei a magicar se não seria cedo demais, se não seria precipitado casar já. Só sosseguei quando o meu pai, no momento em que desabafei o temor de perder liberdade, me recordou que tal como posso casar, me posso divorciar a qualquer momento – preciso sempre que me lembrem os aspectos práticos da vida. Não há como entrar num casamento a pensar que há porta de saída.