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07/09/2023

Moralidades à quinta-feira

Se observarmos a vida em dois planos distintos, um mais espiritual outro mais terreno, podemos constatar algumas contradições. Quem está habituado a lidar com o espiritual e o esoterismo sabe que é costume generalizar ou relativizar a dor e o valor de cada um face a uma razão suprema que em última instância reporá a justiça. Em traços gerais diz-se: a condição humana determina que todos sofram altos e baixos, todos tenham o seu valor intrínseco. Por contraste e baixando a um nível mais mundano é inelutável recorrer à comparação, a tal que o lifestyle proíbe - artificialmente, porque vive disso -, e com objectividade compreender que a forma como cada um está no mundo e o factor sorte são determinantes no decurso da vida.


E é sobretudo importante fazer entender como é perniciosa a adesão fácil ao discurso Miss Mundo do lifestyle, que nos pretende dar a lição do (aparente) esforço ser sempre recompensado, do recurso e favorecimento da lábia e do oportunismo, do desinteresse ou repugnância pelas reais questões da justiça mascarando-as de lugares-comuns como a igualdade de oportunidades e o mérito no esforço, nos quais pretensos empenhados, trabalhadores e, em geral, indivíduos certinhos saem sempre vitoriosos por contraste aos preguiçosos, invejosos e desregrados.


Em suma, mascarar as qualidades e defeitos do ser humano, tomando a aparência por realidade, colocando tudo no mesmo patamar, pode ser um óptimo pretexto para perpetuar injustiças. Quantos mais bocejos se observam perante quem levanta questões de equidade efectiva, mais sujo fica o mundo - um lugar propício ao destaque da mediocridade.  


 


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Por vezes o pensamento e o sentimento até coincidem e ainda assim há animosidade vinda da pura vontade de conflito, da usurpação de valor alheio ou da necessidade de rebaixar outrem para ganhar ascendente, mais do que de picardia inócua ou reacção a alguma injustiça.



Quantas vezes esticaste as asas e cortaram-te as penas? Quantas vezes alongas as asas e arrancam-te as penas?



Enquanto tiver juízo, a cair no erro da doutrinação, farei sempre a contrario. Espécie de psicologia reversa. Dando-me como exemplo de falha, de defeito, espelhando as minhas fraquezas.



Quem lê as Comezinhas de início sabe que a crítica a quem “olha de cima da burra” é uma das mais importantes ideias deste blogue – em que faço mais finca-pé.



[silêncio]



Onde está a moralidade hoje? Para dentro. Na admissão das falhas como alerta e incentivo a ti própria para mudar de atitude a arrumar o raio das gavetas da mesinha de cabeceira, os documentos do portátil pessoal e duas das três caixas de email profissionais.



Em contraposição carimba-se os que fogem da intriga, do obscuro e do conflito como moralistas ou puritanos, já em vias de ferrados como perigosos defensores das ditaduras, pois se atentam contra os mais nobres valores ao proporem mais reflexão, mais lucidez e, pasme-se, ao terem o topete de sugerir necessidade nalguns momentos de renúncia ao argumento em prol de consenso.



Ainda que sem a posse de toda a informação e conhecimento, presumo em regra que penso melhor do que a maioria. E admito. Detesto a falsa tolerância. Odeio sentir que estão a fazer de conta que respeitam um ponto de vista só para passarem a imagem de grandes democratas, quando é patente que quem o faz, geralmente, gosta da competição ou desporto da retórica, de manipular o discurso e as acções de modo a prejudicar não quem é nocivo ao mundo, mas quem não lhe traz vantagem pessoal. E mais do que tudo gosta da zombaria e só com ela se sente gente, se sente vencedor; e só com ela esconde a solidão. 



Mas contaram-te que estando um grupo de velhas senhoras a lanchar, aproximou-se uma criança pequena, franca e malcriada e dirigindo-se a uma delas disse: ui, é tão feia. Contida, a visada fez de conta ouvir pior do que de facto escutava, afagou a cara do pequenino e virando-se para a dona de casa e avó da criança disse: tão engraçadinho, o teu pequeno.


Cedo ouviste esta história antiga e, como alguns, afagaste e afagas muitas faces de desaforos de engraçadinhos(as) que insistem em achar não que és feia, mas sim burra.



Afinal a moralidade encapotada não é exigível apenas aos bruxos, mas a todos, incluindo aos pregadores mais sofisticados da praça. Cada um vende a banha da cobra que tem mais a jeito e promove o protagonismo e a auto-estima à sua maneira. Escusam de se pôr em pedestais que não vos pertencem, ó eruditos da treta. Desçam à terra.



Só para dizer que hoje seria dia de Moralidades à quinta-feira, mas como sou uma bloguer de trazer por casa, não escrevi nada. Nem me vai sair nada de interesse de chofre. Deixo apenas a nota de que acordei muito mais inclinada para as imoralidades, por isso talvez não seja grande ideia fazer esfregas moralistas.



Não sei se abra uma rubrica: moralismos à quinta-feira. Afinal gosto de sermões. Tão fora de moda. Não é nada sexy nem excitante - assim não arranjo casamento. Que maçada.