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31/08/2022

Hóstias

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Pensei, pensei o que escreveria no regresso desta mini pausa de dedilhar na caixa de edição das Comezinhas. Teria de ser qualquer item impactante, que mexesse mesmo com o destino do mundo e o significado das coisas. Vai daí, congeminei trazer umas postas de red fish com palito a segurar a placa do preço. Só que ao passar pelo supermercado tentei-me com estas hóstias. Manias de criança. Na enfermaria do Externato da Misericórdia uma das irmãs encarregava-se de fazer e prensar as hóstias, dando as aparas aos alunos. Bem sei que é local um pouco estranho para tratar de hóstias, mas os tempos antigos eram diferentes e assim mesmo lá acontecia. As que hoje trago são de Salamanca, vendidas no Froiz. São óptimas. O sabor assemelha-se ao das línguas da sogra. O Ritz, gato europeu, e eu devoramo-las a meias, como em criança fazia aos gelados com o Ritz, cão Serra da Estrela.


Não estão consagradas, pelo que os ateus não precisam ficar preocupados com o perigo de contaminação e os crentes podem saboreá-las e divertir-se sem peso de consciência.


Piadinhas envolvendo religião, mais old fashion não podia haver. Soam às antigas graçolas de seminarista. Cada vez mais desinteressantes, as Comezinhas.


Boa noite.

26/08/2022

Esperanza Spalding no Carnegie Hall

Agenda

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Desde há semanas tenho vindo a pensar escrever sobre emigrantes e gente que viveu nas ex-colónias. Deixo o tema em agenda, mas sempre vou dizendo que pretendo aflorar o preconceito com que uns e outros foram ou são mimados. A noção básica que muitas das críticas têm tanto a ver com ressentimentos e frustrações de quem maldiz quanto com as pechas que eventualmente sofram os primeiros.


Outro tema para ficar em agenda é uma vez mais o dos dissimulados. Há 22 levei com uma história absurda de um tipo com perfil falso. Passado todo este tempo, ainda não me pediu desculpa de modo identificado e directo e acha-se no direito de continuar a atazanar a partir de perfis falsos, mantendo a pose digna quando assina o nome verdadeiro. Não me chegava esta abécula e percebo, agora, que outro também gosta de dar ar respeitável quando identificado, mas de tretas palermas de modo encapotado. Claro que dirão que isto são boatos e é evidente que esta gentalha ficará impune. Quem sai mal na fotografia serei eu, que dou ar de tonta com a mania da perseguição, mas pouco me rala que a verdade não seja visível aos outros. Conheço-a. Nesta choça onde vivemos ser pulha é requisito para ter sucesso. Isto só me serve a mim, para que saibam como os tenho na conta de vermes. O post servirá para colocar o ponto final que há muito me aconselham pessoas lúcidas.


Por último, ao voltar destas pequenas férias do blogue vou tentar as tais pinceladas (muito fraquinhas, já se sabe) sobre alguns países da Europa. Isto é, vou tentar regressar ao Espanador. Vamos ver se consigo.


Deixo-vos com Esperanza Spalding no Carnegie Hall. Até já.

25/08/2022

Rouff

Recapitulando




Gente sensível


por Isabel Paulos, em 12.06.20


 


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Antigamente chamávamos a isto timidez. Para além de algumas extrapolações, que me parecem pouco mais do que auto-justificativas da incapacidade de encarar as más escolhas e o fracasso, é bom que se estudem estes aspectos da personalidade. Determinam decisivamente a vida de cada um. Conhecê-los, aprender a aceitá-los e a lidar com eles pode ajudar muito a superar difíceis obstáculos. Não é fácil ser sensível e introvertido. Além de poder ser um travão de conquistas pessoais, pode ser fonte de grandes equívocos e injustiças.


24/08/2022

Waldemar Bastos


 




Que Muxima ilumine os angolanos.


Aqui a pensar com os meus botões comovidos e orgulhosos das declarações de rua dos angolanos: jamais diria "que N. S. de Fátima ilumine os portugueses". A vida é estranha.


Angola tem o condão de me fazer chorar, de me fazer sentir.


Os outros

Mais notas sobre o que toda a gente pensa e sente mas não diz. Razão para a tão comum falsa sensação de coerência - a ausência de contradições revela tantas vezes a omissão de algumas verdades por puro cálculo. Omitindo partes da realidade alcança-se a tal falsa coerência.


Os outros. Digo muitas vezes que o meu tesouro são os outros e pode parecer uma treta para disfarçar o narcisismo e dar o ar de pessoa equilibrada e terna, mas lamento: é isso mesmo (a adversativa aqui faz um sentido do carambas). A par das grandes figuras da minha vida, na qual mãe e Nuno figuram em destaque pela dose monumental de conhecimento que me passaram (atenção, chegou cá muito pouco e deturpado por responsabilidade minha, as fontes são bastante mais ricas e lúcidas), outros familiares e amigos contribuíram enormemente para o que sei e sou. Digo isto porquê? Por me fazer imensa aflição a forma pouco franca com que muitos exibem conhecimento sem pagar tributo. Dir-se-ia que nasceram ensinados e que tudo o mais adveio de esforço próprio. Ora, sinto-me precisamente no lado oposto, daqueles que absorvem o que os outros dão. Talvez seja uma das razões para tantas explicações soarem a infantilidade. Um dia alguém me disse que tirava o melhor dos outros. Senti-me um pouco vampira, a sugar o sangue dos incautos. Mas é certo que faço isso mesmo, sugo os outros, como todos, aliás. A diferença é que e o admito e declaro.


Como todos conheci centenas de pessoas. Poucas de modo mais próximo. Alguns fizeram-se amigos, muito poucos amigos para a vida. De todos herdei tiques, expressões, manias, verdades e preconceitos. Cresci numa família grande e os laços mais estreitos ou alargados talvez me tenham dado a dimensão do espaço de liberdade para escolher, para procurar saber. Cada um traz um mundo e foram muitos mundos a conhecer, tive de seleccionar os de maior interesse. Sei lá se numa perspectiva justa ou meramente aleatória.


Ao longo dos anos para lá dos conhecidos há aqueles que nos chegam através das escolas e faculdades, dos livros, dos meios de comunicação social, da internet. Aí a relação é, na maioria dos casos, unidireccional. Oiço, leio, aprendo. Absorvo os outros sem os conhecer. Ao lado das muitas dezenas de pessoas com quem fui trocando palavras, herdando laivos de temperamento (odeio a palavra idiossincrasia), há uma mão de gente (bem, sobram dedos) que segui com mais atenção e por mais tempo. É curioso este termo “seguir” a mim soa sempre a qualquer coisa de ilícito, tipo stalker. E dou por mim a pensar se neste meio não seremos um pouco perseguidores mútuos que se vão conhecendo uns aos outros de ginjeira - muitas vezes sem trocar uma palavra. Sim, por mais que se resguarde a intimidade (não aqui nas Comezinhas, que são um antro de pouca vergonha), ao fim de algum tempo vão-se conhecendo os traços de personalidade. Tudo isto para dizer que me parece importante a consciência do que aprendemos com os outros e a estupidez que é armarmo-nos em carapaus de corrida. Sim, ao lado destes poucos com quem tanto aprendi, há dúzias de intelectuais, de gente de acção e de tantos que a eles se encostam, que falam e escrevem e tudo espremido não vale (quase) um chavo. Como sou aproveitadinha, admito que até desses herdo ideias e palavras. Isto para que haja noção do grau de honestidade que coloco nestas últimas palavras. Por tudo isto me fazem tanta impressão sabichões de geração própria.


O certo é que para imbecil narcisista que passa a vida a falar de si própria vou tendo bastante disponibilidade para ouvir e ler os outros (ainda que tantas vezes discordando para dentro e algumas entrando em fúria). Tantas vezes disposta a dar atenção a gente que não demonstra ter um pingo de respeito pelos outros, apesar de todas as falinhas mansas, grandes defesas da tolerância e indignações tão sentidas contra as injustiças. O certo é que, tal como em criança, os outros me continuam a causar curiosidade e, como gosto pouco de cinismo, perplexidade. Tivesse mais vidas para os conhecer. Vá, se esta for comprida, já não é mau. Pode ser que venham surpresas boas.


Não se constrói um carácter sólido sem consciência das bases que o sustentam e dos limites que o circunscrevem. Dar ar de tonta e ignorante ajuda-me a preservar o espaço vital. Não obstante, estou muito atenta, curiosa e, por mais intransigente seja e para alguns mente estreita, estou genuinamente de espírito aberto a tentar perceber o mundo. Os outros continuam a fascinar-me. Uns mais do que outros, vá (e assim com um "vá" e um advérbio a seguir se estraga estrategicamente um texto).


Como tantas vezes disse ao longo destes anos, sou toda olhos. Hoje, com Nat King Cole, sou toda ouvidos, sou toda orelhas.


 


Adenda. Quando era novita encanitava-me gente, sobretudo, mulheres que faziam muitas referências familiares: filhos, maridos, etc. Achava uma falta de respeito pelos ditos. Como as coisas mudam. 

Nat King Cole


Bem sei que hoje devia colocar o brilhantismo de Stockhausen para impressionar os passantes. Talvez o Quarteto de Cordas com Helicópteros (não percam este extraordinário músico que o Nuno me recomendou ouvir há uma boa dúzia de anos quando falámos em música absurda), mas aqui nas Comezinhas é tudo muito ó simples.


Bom dia.

Diário

Depois de mês e meio, só faltam três dias para acabar a fase mais trabalhosa - têm sido as férias de colegas e a sobrecarga normal nestas alturas. Salvo Fevereiro e Março, no caos total, este foi o período de maior trabalho. Apesar ter levado esta temporada mais levezinha, com dedicação e empenho mais sereno - em Fevereiro senti-me a andar sobre brasas. Aliás o final do ano passado e início desde foi no geral para esquecer. Talvez aproveite a próxima semana para descansar do blogue. Há muito não faço uma pausa e estar aqui mergulhada impede-me de vir à tona apreciar muito do que é importante e também de tratar de assuntos mais prosaicos que ficam suspensos. Além de precisar mesmo de descansar a cabeça disto. Parecendo que não, escrever e trocar tretas, cansa (tenho sempre dúvida nesta vírgula: vai contra a regra, mas faz-me sentido; e agora fiquei com dúvida se devia usar o plural no último verbo, mas não estou nem aí, é tarde). Sempre me cansou - quem diria. Escrever, digo. Fica baralhado? Tanto melhor - é puxar pela cabeça.


Depois em Setembro tenho 15 dias de férias oficiais para descansar. O programa, ainda por delinear, é o mais caseiro possível. Sem sair do Porto (vá, e Matosinhos, Gaia e talvez um esticãozito desprogramado): praia, esplanadas, parques, ronha e obras. Mentira. Lembrei agora. Tenho de ir a Lisboa e Almada, talvez logo no início das férias. Pode ser que ainda apanhe a exposição "Prisma" do Vhils. Não marquei a viagem à terra das tulipas e dos grandes pintores para Setembro e sim para um fim-de-semana alargado de Outubro. Por um lado fica menos caro, depois se vou para Norte é para levar com frio e chuva na tromba. Já que ultimamente quase não as faço, há que levar à séria as raríssimas saídas.


Durante muitos anos Agosto foi-me insuportável. As férias de criança e da adolescência naturalmente foram excepção. Não sou particular fã do Verão, por não gostar muito de calor - apesar de gostar de praia e mar, desde que não seja para ficar pasmada a esturricar na toalha. Canso-me com facilidade do calor. Este ano até estava a correr bem (emagrecer ajudou), mas começo a sentir os sinais de quem se extenua no Verão. O melhor desta época é preceder a Estação mais bonita do ano. Gosto do Outono (e do Inverno) - soou-me bastante a redacção da primária, mas fica assim mesmo: mais uma vez, livro escancarado em tom infantil.

23/08/2022

Drawing the line

Dúvida matinal

Será que podemos medir o grau de insanidade pelo número de provocações que sentimos ao longo do dia? Explico-me. Não é normal cruzar-me com uma carrinha de entregas de produtos alimentares e ficar vidrada na palavra “Recheio” ou num camião de equipamentos técnicos e siderar no nome da empresa porque sim, por associar a qualquer coisa, tal como desde sempre nas matrículas. Mas isso por ter aprendido com as colegas da primária um joguinho que nunca parei de fazer – às vezes penso se aos 82 anos, quando voltar a fumar, continuarei infantil e ainda “lerei” as letras e números das matrículas, reduzindo-os à unidade para lhes encontrar significados. Nem vale a pena perguntar a técnicos se estas coisas são normais, porque habituados que estão às anormalidades graves, tudo lhes parece quase são – até gaivotas a grasnar ou carros a buzinar com lógica. Tudo faz imenso sentido na cabeça dos tolinhos. Claro que se tivesse verdadeiro talento para a escrita, tudo isto me daria imenso jeito, por só assim ser possível tomar consciência dos pormenores belos do Universo. Ontem enquanto lia descrições magistrais da Natureza dei por mim a pensar que o facto de ser muito míope não me permitiu aperceber de muita da beleza do mundo – resta-me escrever sobre a realidade um pouco desfocada. O que será a sensibilidade? A apetência para encontrar sentido, beleza e surpresa no Universo por mais esdrúxula pareça aos pragmáticos?


Por isso não me falem por meias-palavras sem se revelarem. O que me quiserem dizer, digam-me de forma clara e identificada. E se não for importante, não digam. Não me cansem. Todo Universo me fala por meias-imagens, meios-sons e meias-palavras e faz isso por temporadas há muitos anos. Será desde sempre?  É muito cansativo. Desgasta-me o cérebro. Fico exausta. Há momentos em que tenho saudades do tempo em que flores eram tão só flores que desabrochavam e morriam e os pássaros eram livres até caírem "no céu" e não "do céu", como diria o Poeta. Era tudo tão mais simples.

Esperanza Spalding


Uma esplêndida Terça-Feira para os pouquinhos leitores das Comezinhas. Obrigada pela companhia.

22/08/2022

Diário

Correria imensa toda a manhã e início de tarde e franca má disposição, só atenuada quando agora com o café do fim do almoço o Nuno me sugeriu que comprasse uma lata de tinta e fosse pichar na Torre dos Clérigos umas verdades. Distendeu (na acepção castelhana) o clima pesado.


Tenho 15 minutos para sossegar e preparar-me para uma tarde de muito trabalho. Devia ter aprendido a meditar em 10 ou 15 minutos. Mas nem sei como se faz, nem o tempo que demora. Lá vou ter de procurar informação - depois de na semana passada ter lido diálogos hindus.

A ler

Ah, como são belas as balelas sobre os livros e a importância da leitura cheias de coraçõezitos, arco-íris e florzitas. A leitura faz-nos mais tolerantes, sentenciam os oráculos da sabedoria das frases feitas e floreados. E quem questionar e disser que nem sempre e, muitas vezes muito antes pelo contrário, é estúpido. Pois, com certeza.


Esta luminária russa é só mais uma das muitas que povoam o mundo, algumas portuguesas, à nossa dimensãozita de discretos e dissimulados democratas pela frente e autênticos pulhas manipuladores pelas costas - quando não mesmo discretos alucinados. Desculpem-me o azedume (e as palavras fortes que só melindram sensibilidadezitas hipócritas), mas foram muitos anos a ver insultada a minha pouca inteligência com tiradas palermas que resumem a tirania à ignorância e falta de erudição dos ditadores e de todos os que a professam e praticam. Nunca reparando na comum tirania intelectual e doentia, pública ou privada, frontal ou encapotada.


A ler, dizia, no Observador.



Quem é Alexander Dugin, o homem que previu o rastilho da guerra na Ucrânia e que gosta de ser considerado o "Rasputine de Putin"?


 


Alexander Dugin é um homem complexo, Charles Clover que o diga. O antigo correspondente do Financial Times em Moscovo conheceu Dugin enquanto preparava o livro Black Wind, White Snow: The Rise of Russia’s New Nationalism (sem edição em português), sobre o nacionalismo russo. A primeira impressão deixou-o baralhado, como descreve na obra: “Dugin podia parecer um filósofo louco, um eremita Dostoievskiano. Mas, na verdade, era um tipo divertido, na moda e fácil de se gostar, bem como um dos intelectuais mais interessantes e com mais leituras que já conheci.”


[...]


Seis anos depois, já com maior distância (e fora de Moscovo), Clover mantém a mesma avaliação: “Ele é a pessoa mais interessante para se ter como convidado num jantar”, partilha o jornalista com o Observador. 


[...]


Na realidade, Dugin falará menos línguas (nove, dizem), mas não há dúvidas das suas capacidades intelectuais. 


[...]


Além da política ativa, Dugin procurou outra forma de influência, cultivando relações com figuras de destaque.


[...]


As ideias de Dugin, porém, estiveram sempre bem definidas. Inspirado em Julius Evola, que foi condenado em Itália em 1951 por ter tentado “restabelecer o fascismo”, Dugin afirmou que é necessário aplicar um “fascismo genuíno, verdadeiro e radicalmente revolucionário”Mais recentemente, tem defendido a aplicação da “Quarta Teoria Política”, que diz que após o fascismo, comunismo e liberalismo, é agora necessário uma quarta ideologia que combine “as teorias sociais e económicas da esquerda com os valores tradicionais”. Economicamente, porém, Dugin também já defendeu em público que é possível aplicar um modelo economicamente liberal, que “coexiste perfeitamente bem com os regimes autoritários mais estritos”.


[...]


É também uma ideologia que define o conceito de identidade nacional de forma diferente daquela que as fronteiras atuais desenham. Para Dugin, todos os antigos territórios da União Soviética, com exceção dos Bálticos, devem fazer parte do bloco euroasiático liderado pela Rússia. Foi por isso que, aquando da guerra na Geórgia, em 2008, Dugin foi fotografado com armas no terreno e popularizou o lema “Tanques para Tbilisi!”, capital da Geórgia.


[...]


Agora, com a invasão russa a estender-se para lá de Donbass, as previsões de Dugin parecem assustadoramente reais. “Ele tinha este plano explícito de que não deve existir um Estado ucraniano e que toda a costa do Mar Negro deve ser russa”, ilustra Andreas Umland. Com as tropas russas a tentarem tomar Mariupol e a atacarem Odessa, parece que o objetivo de tomar a costa do Mar Negro já não é exclusivo de Dugin. Charles Clover, por seu turno, volta a sublinhar que há uma interseção grande entre as ideias do próprio Dugin e de alguns setores do exército russo: “A ideia de que a costa norte do Mar Negro deve ser controlada pela Rússia é um imperativo estratégico da Rússia que já se tinha tornado evidente na guerra da Geórgia.”


21/08/2022

Roberta Flack

Ouvido

No Jornal da Noite da SIC.


«No início deste mês a Central Nuclear de Zaporijia voltou a ser alvo de bombardeamentos sucessivos.
[...]
Kiev exige a retirada das tropas russas e acusa Moscovo de usar a Central como escudo para bombardear as tropas ucranianas.
Moscovo acusa Kiev de querer recuperar o controlo da Central à força e rejeita os apelos internacionais para desmilitarizar as instalações.
Perante o risco crescente de um desastre nuclear a Agência Internacional de Energia Atómica quer entrar em Zaporijia para inspeccionar a Central o mais rapidamente possível.»


*


A ideia inicial era fazer uma piadola com o facto dos russos se queixarem dos ucranianos, esses brutos, quererem recuperar à força a sua central - se numa guerra é de todo ridículo, numa invasão é a anedota total -, mas ouvida a reportagem fiquei sem tanta vontade de gracejar, pelo perigo que dali vem.

Disparates

Ora, vamos lá tratar de assuntos sérios, importantes e graves que todos pensam e sentem mas não dizem. Antes de mais a explicação para não destacar com a tag opinião a grande maioria das entradas. Só pontualmente se podem considerar opinião e ninguém tem de levar, sem vontade, com as minhas memórias e os constantes estados de alma expressos nos múltiplos posts diários. Há um ou outro que por achar ter laivo de opinião fundamentada ou estar melhor conseguido levam a tag - e outros tão só porque sim, me apetece. É por isso. Mais assuntos prementes que assaltam os meus neurónios cansados de tanta preguiça neste fim-de-semana e que jorram agora sem aviso prévio?


Pode ser já a questão dos neurónios. Não, afinal antes ainda quero dizer outra coisa. Ontem e hoje andei a ler as Comezinhas - é como digo, narcisismo galopante, de que aliás todo este postal é uma manifestação. Reparei que tenho escrito para chuchu, como me disse um amigo. Há um par de meses dei uma entrada dura sem me ter apercebido da data em que estávamos. Não foi intencional, como outra foi no passado. Não é que não pense tudo quanto escrevi, mas seria escusado dizê-lo naquele dia.


Agora sim, os neurónios. Há coisa de oito anos fiz um teste de Q.I. rápido e simplificado naqueles sites lifestyle brasileiros (creio que era versão traduzida). O resultado rondou os 108 e dizia que andava na média - até agora não tive disponibilidade e coragem de fazer um à séria, não vá ter surpresas mais desagradáveis. Convencida e fora da realidade como sou fiquei cabisbaixo, qualquer coisa menos do que Einstein ou Kasparov soava-me a pouco - o Q.I. destes senhores estava acima dos 160 nas épocas boas - em suma, tenho sempre a desculpa de ter feito o primeiro teste de Q.I. aos 40 e por isso o resultado não ser brilhante. Fiz duas vezes testes psicotécnicos; uma em miúda associada a testes de apetência por áreas que aldrabei o mais possível para dar o resultado que queria e outra num processo de recrutamento para emprego, cujo resultado não soube, mas sabendo como me correu deve ter sido pior que péssimo. Mas vamos ao que interessa, face ao teste feito há oito anos estava justificado o facto de ter sido uma aluna mediana, quando não medíocre. Salvo até ao 7º ano do liceu em que as notas eram boazitas e apesar de ter entrado para a faculdade aos 17 anos. Voltei à velha sensação da porcaria de parte lógica que tenho e da eterna intenção de voltar a estudar matemática para trabalhar a parte lógica deste cérebro que começou a preguiçar na adolescência - burrifico com cálculo e lógica, o que noto até na leitura de textos, e se quiser ser totalmente franca, até ao ler comentários. Não é que ontem na página de abertura do Edge publicam um estudo sob o título "Portugal entre os países mais inteligentes", ou qualquer coisa do género. Passei os olhos no pdf das conclusões do estudo e vi que a nossa média anda nos 94.4. Foi surpresa total para mim que tal fosse um bom resultado. Chamem-me parvalhona, mas podíamos ser mais ambiciosos.


Por estudar lembrei-me dos apontamentos da faculdade. Cerca de 20 dossiers organizados de que em 2018 me desfiz no papelão. Fiquei apenas com os livros, por ser incapaz de me desfazer de um livro. Curiosamente custou-me bastante mais deitar fora as lembranças das viagens. Tinha uma caixa com bilhetes de avião, comboio, barco, entradas de cinema, mapas, brochuras de museus, todas das viagens que fui fazendo (não muitas). Foi tudo. Dessas sinto um pouco, mas há-de passar e prevalecer a memória que sobrou. Nuns casos até guardava os talões de compras - a ideia era quando fosse mais velha ter noção do custo de vida nos diversos locais. Às vezes com os apagões de memória sofridos há viagens que ficam obscurecidas, perco a noção até do ano em que as fiz quanto mais de pormenores que vivi. O método para as localizar são os extractos bancários - sim sou daquelas que guarda extractos com 25 anos. Os cadernos da primária há muito desapareceram e os do liceu praticamente nunca existiram - por alguma coisa haveria um dia de me dar o tilte. Os meus escritos soltos e trocas da cartas e postais (não eram muitos), aos 33 anos, como aqui já contei várias vezes, cortei-os a tesoura em fitas fininhas antes de deitar no papelão.


Por apontamentos lembro-me de letra. A minha é péssima de ler e é assim desde o final da adolescência. Não que alguma vez tenha sido boa. Mas não saí à minha avó e, sobretudo, à minha mãe, com caligrafias exemplares. O que mais me envergonha não é a dita, que sendo como é, é a minha, mas o facto de não conseguir escrever sem rasurar. Tudo, desde sempre. Lembro-me como ficava fula comigo quando rompia os cadernos na primária de tanto usar a borracha. Enganava-me sempre. Continuo a enganar. Sempre que é preciso preencher um formulário entro em stress. E fiz eu o curso de Direito - onde estaria com a cabeça? Imagine-se o que sofri. Em miúda mais velha quando deixava um post-it ou cartãozito com recados aos meus pais e irmãos - na época não tínhamos telemóveis - acabavam por me dizer que não me esforçasse, não valia a pena porque ficavam na mesma sem perceber o recado. Além da má caligrafia os erros sempre me perseguiram. Ainda aos 12 anos escrevi um bilhete a um dos meus irmãos que estava a viver em Gaia, quando eu ia vivia em Valinhas: terminei com o seguinte P.S.: Desta "fez" não dei erros. Claro que foi paródia em família. No primeiro ano da faculdade emprestei apontamentos de Ciência Política e vi que causei grande algazarra grande entre colegas: vieram dizer-me que os meus apontamentos eram divertidos por desenhar o "pê" e o "éfe" da mesma forma, sendo que uma das palavras mais usadas na cadeira era "poder". Nunca Ciência Política tinha sido tão interessante, não sei porquê nunca mais me pediram apontamentos, salvo quando os comecei a gravar em cassete ou passar a word. Ainda há umas semanas, fui atender a carteira que entrega o correio na empresa, pediu-me para assinar e disse-me, gozando com a minha cara, que ia vender aquela rubrica de médico por um milhão.


Esse é outro "trauma": a rubrica. Aquela ideia que é falta de personalidade não a desenhar da mesma forma sempre e para todo o sempre, para mim é como o casamento: uma impossibilidade. Não sei, às vezes sai-me diferente. Até gostava de ser uma pessoa normal, mas lá está: se fosse capaz.


Ia escrever sobre mais assuntos interessantíssimos e de grave e séria importância para o mundo e seu destino, mas creio que o texto está a ficar longo. E isto é de uma fulana que tem consciência que o cérebro está ferozmente viciado no individualismo e no umbigo. Imagine-se se não soubesse. Não me valeriam todas as gotas do mercado tomadas em simultâneo.

20/08/2022

Don McLean


A letra é um autêntico tratado sobre o mundo da música entre os anos 50 e o início dos anos 70. Com referências (às vezes subtis outras explícitas) aos grandes compositores e grupos de rock e blues de então. Entre outras referências de época fora do mundo da música. De quiserem consultem por aí, o Google devolverá imensa informação.

Diário

Hoje não fiz nada de útil. Dia de preguiça completa depois de um sonho bonito. À noite entre outras coisas que esqueci e não deviam ser muito interessantes, sonhei que soprava ruidosamente num umbigo lindo de uma criança pequena que não conheço - aquela brincadeira que faz rir os bebés. Bem sei que os meus sonhos parecem de encomenda, mas não invento, foi exactamente esta imagem que sobrou da noite passada. Mais adiante virá mais e também é outro sonho verdadeiro, nada de contar tretas falsas para encher o olho ou enternecer quem passa. A manhã foi feita de sorna, leituras leves e deambulações no pensamento. Pura ronha. Depois do almoço, que não comi, tratei de agendar a tal viagenzita para Outubro e andei uns minutos no Google maps a acautelar que posso fazer as visitas aos museus calcorreando a cidade. Exausta de tarefa tão cansativa fui dormir novamente. Desta vez, entre outras coisas que me lembro, mas não interessam muito (enfim, casas, a panca do costume, mas desta vez junto a canais por influência da futura viagem) sonhei que estava junto do ancoradouro quando se aproximou de mim um cão grande e de pêlo curto dourado. Tive cautela na primeira festinha para perceber se era dócil, mas além de ser meiguinho era bem alegre e mexido. Seguimos para junto dos vários barcos ancorados no cais à procura do dono, de quem se tinha perdido.
Há épocas em que a minha vida é um drama, de tão difícil. Mas ironia por ironia, sempre digo que quando tudo são doçuras fico apreensiva, temo sempre o que está por vir, apesar de todos os sinais indicarem que não é nada de mau. Gato escaldado de água fria tem medo. Já houve alturas medonhas.
Acabei de ler este diário ao Nuno, antes de dar enter na publicação. Diz ele: é o que toda a gente pensa e sente mas não diz (como sou preciosa no sentido de explicativa, conto que ele não disse "não diz", fez correr os dedos nos beiços como quem cerra um fecho de correr).

Recapitulando







Mais um postal daqueles


- actualizado -


por Isabel Paulos, em 26.05.21


 


Antes de virar a página - se é que a página se vai deixar virar -, deixo mais um postal ressabiado, com os melhores cumprimentos.


Há talvez dois meses alguém próximo e a quem quero muito bem recomendava-me em tom mais de confidência do que de conselho: cuidado, assim entregamos o ouro ao bandido. Não, o interlocutor não era uma mulher, nem o tema eram as afectividades. O assunto era a opinião e a forma como a expomos e defendemos.


A ideia talvez se traduza na cautela de não colocar inteligência nem verdade nas palavras, para evitar ofender. E não verdade no sentido absoluto – de convencimento da nossa inteira razão -, mas tão somente na franqueza posta no que dizemos. Ele contava como ouvira uma conversa entre duas ou três pessoas de opinião muito divergente e elogiava a forma correcta e sem sobressaltos como foi travada. Em causa o respeito pela opinião do outro. Acompanhei-o na tese: também admiro quem consegue. Desacompanhei-o na conclusão: respeitados os mínimos de educação, não me parece que tenhamos de apagar a paixão para fazer de conta que não somos quem somos.


Não disse na altura, mas a imagem que me veio à cabeça naquele momento foi a de um vídeo que recebi no dia de Natal com a reacção de crianças à chegada de cachorros como presente de Natal. Os miúdos muito comovidos foram quase todos bastante efusivos. Qualquer um de nós que tenha a memória da chegada de cachorros na infância percebe como o coração dispara e a alegria transborda. Mas reparei que entre eles havia dois irmãos – um rapaz e uma rapariga de ar frágil e delicado, muito contidos nos gestos e movimentos. Tão presos na expressão que ao se aproximarem cautelosos do cachorro segurado pelo adulto e ao fazerem festinhas – estou a escrever de memória – usaram as pontas dos dedos. Também se comoveram - era visível -, mas não transbordaram, apesar de estar convencida que se perguntados, diriam amar muito o bicho, com verdadeiro sentimento. Cada um é como cada qual.


Esta imagem espelha muita da opinião que abunda no espaço público. Por vezes lugar-comum outras, por mais correcta e sensata seja a exposição às vezes até mesmo fiel aos factos, parece-me artificial e sem alma. Dita por ir na corrente, por ser decente. Conveniente. Há momentos que até a inconveniente não é expressa com qualquer sentimento de verdade – de franqueza -, mas apenas para inchar o ego, chocar e com isso arranjar mais clientela. Interessa a imagem que se dá, e até a falsa imagem de frontal é estudada. 


Lamento, mas habituei-me a mexer nos bichos embrenhando bem as mãos e dedos no pêlo, na pele. Revirando-os, espevitando-os, rastejando com eles pelo chão. Ao cão, companheiro de passeatas e confidente de infância, além de o mimar, tirava-lhe por brincadeira os ossos dos dentes e quando moribundo tratei-o como possível, extraindo - numa última tentativa de o salvar - dezenas de larvas do peito provocadas por uma ferida grave e feia com que nos apareceu em casa depois de desaparecido por uma quinzena. Aos gatos catava as pulgas. Às gatas assistia-lhes aos partos. Gosto de mimar, não sou de passar as pontas dos dedos nos bichos, nas pessoas nem nas opiniões. Cada um é como cada qual.


Damos o ouro ao bandido? É evidente: reparo e registo. Que sejam muito felizes com ele – com o ouro e o seu brilho. E nós sejamos fiéis ao que somos. Está tudo bem, cada um com aquilo que valoriza.


Não acredito que a realidade melhore por ser efabulada em boas intenções. Não acredito num país soberano com uma dívida como a nossa e envergonha-me a mão portuguesa permanentemente estendida. Envergonha-me a corrupção. Irritam-me a mentira e os trapaceiros. Reparo em vozes e oratórias muito honradas, cheias de certezas, desencontradas nos corpos e vidas muito videirinhos que as transportam. Não acredito na maior parte das boas intenções apregoadas. Sobretudo nas políticas e nas opiniões políticas. Irrita-me que ninguém tenha coragem para dizer o desagradável e o difícil por ir contra o que a população quer ouvir. Irrita-me ainda mais que cada vez que alguém sugere qualquer coisa de semelhante seja de imediato caluniado, como se não estivesse apenas a constatar a realidade. Irrita-me mesmo a hipocrisia com que se deixam cair na solidão pessoas e gestos nobres, a pretexto de não se perder o estatuto, o lugar, as amizades de conveniência. Irrita-me a traição por motivos fúteis e materiais. Na verdade, convenço-me cada vez mais que não é a população que quer ouvir as balelas demagógicas do costume, mas quem decide e está bem instalado. Fazer melhor implica trabalho e muitas vezes sofrimento. E não, nunca advoguei teses do sacrifício nem acho que nos devamos andar a martirizar. Mas não se consegue fazer melhor à custa de festinhas com as pontas dos dedos, amiguismos e pancadinhas suaves nas costas.


O facto é que aquele que disser coisa razoável pode ver as suas palavras deturpadas e os argumentos invertidos e desvirtuados. Vale tudo pela retórica e pela mentira. O objectivo? Deve ser o de manter o país na mediocridade e na eterna dependência, à semelhança dos portugueses, cada vez menos autónomos, menos capazes, menos livres. Mais presos de movimentos, a fazer festinhas ao cachorro – que amam muito - com as pontas dos dedos.


Não é fácil estar ciente da menoridade do que aqui acabei de escrever: conhecer múltiplas objecções que inspira - sim, cada um é como cada qual, ninguém é melhor do que ninguém nem se deve colocar em posição de doutrinar os outros -, mas ainda assim publicar sem pudor o texto acreditando que por pouco que seja, alguma coisa valerá.







Across the Universe

19/08/2022

Jantar

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Jô Soares


Obrigada, Pedro Oliveira.

Matrioska

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*


As divagações são como as matrioskas – trouxe uma de Praga, há uns anos, se me der para aí à noite fotografo-a e coloco aqui a imagem. Há dois dias talvez perdida nos pensamentos dialogava com quem muito provavelmente nunca trocarei sons palpáveis e dei por mim (as vezes que escrevo esta expressão é mato – a nota rústica afasta chatos e pseudo-eruditos que, por tanto desejarem a sofisticação do experimentalismo sem perceber o que é, acham incipiente tudo quanto é simples; mantê-los longe é bom), dei por mim naquela jigajoga: eu dizia, e ele dizia, depois eu rematava, mas ele voltava a insistir, depois eu disse assim (à semelhança dos relatos dos populares menos ilustrados e mais puros nas entrevistas aos repórteres da televisão) e mais uma vez acabei na ideia que me ocorre desde miúda quando parto em viagem no pensamento: estou a queimar fósforos, este já não pega por ele próprio nunca mais. Sim, porque ao imaginarmos o quer que seja estamos a desperdiçar a oportunidade disso ocorrer nos exactos termos idealizados no futuro na realidade. Claro, quando amadureci (não tanto assim) percebi que o Universo nos faz viver sonhos tidos no passado ainda que de modo arrevesado e de forma a não lhes reconhecermos os contornos. Em todo o caso, volto à sensação, ao pensamento. Congemino: eu já imaginei estarmos nesta situação e ouvir-te dizer isso e dizer-te isto, por isso isto não pode estar acontecer, além de mais até pensei que te dizia que já imaginei dizer-te isto e que tu reagias exactamente com essas palavras, tal qual as matrioskas. Resumindo, o tempo e a tolice são muito engenhosos.


*


Bom dia. Boa Sexta-Feira. :)

18/08/2022

Obra de Arte

Só vos digo o seguinte: li vergonhosamente poucos livros (sim, por comparação com quem lê e não com quem diz que lê), pouco sei de correntes e géneros literários apesar de ter lido bastante sobre o assunto (que querem, há tópicos que nós calhaus não consolidámos) e admito ter vaga noção do que é o mundo literário e patati patatá, já conhecem a ladainha do costume, mas estou certa de reconhecer uma obra de arte. Ora, As Ondas de Virginia Woof, onde mergulhei no fim-de-semana passado e bebo a pequenos sorvos nos últimos dias, é um monumento de perfeição. Magicar perfis com tamanha densidade e beleza na substância e na forma é de mão de mestre. Uma descoberta com quase 100 anos. Ainda fui a tempo. Amanhã leio mais um pouco, e depois de amanhã mais um pouco. E depois mais (talvez já aqui tenha contado, quando li a biografia de Churchill - a única que li até hoje, outras virão - gostei tanto de o conhecer que, ao aproximar-me do fim, lia apenas uma página por dia para render mais; sou muito poupadinha, é também por isso que leio poucos livros, demoro muito a digerir).

Blitz


Se não forem preconceituosos com música brasileira datada e procurarem leveza e boa disposição, têm muito por onde escolher no YouTube desta banda dos anos 80. Divirtam-se.

Um segredo

A minha avó disse-me várias vezes que não escreveria as suas memórias porque todos se zangariam com ela. Avó, um segredo nosso: vou tentar fazer isto com jeitinho, de modo a que não se zanguem muito comigo. Connosco.

Obrigada


Hoje não é Dia da Mãe e, como gosto de liberdade, não gosto de dias de gente e coisas. Sufoco no pré-estabelecido, nas convenções e nas piroseiras. Hoje não aconteceu nada de especial que faça ligação à minha mãe. Passámos a vida a discordar. Aliás, discordo de toda a gente, é o meu normal. A minha mãe faz-me notar isso muitas vezes. Sempre implicámos com o gosto uma da outra, sempre vimos aspectos importantes da vida de perspectivas diametralmente opostas. Simplesmente, por apontamentos dos últimos dias, tive a consciência (vai e vem) do quão especial é do quanto me ensinou toda a vida. Milhares de pequenos gestos e palavras ao longo de todos estes anos vão vindo à tona e ganhando sentido no meu pensamento e fico maravilhada com a sua sabedoria.


Dei por mim a pensar: caramba, tenho uma mãe do outro mundo. Obrigada, Mãe. 

Recapitulando


Verdes - Água


por Isabel Paulos, em 06.06.22


 


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Não há verdes sem água. No meu paraíso verdejante da infância não faltava água e muito do dia-a-dia decorria em seu torno com tempos ora apressados ora vagarosos. Cada vez que me sinto digitar num ápice os vinte e um algarismos do NIB para fazer transferência bancária ou manejar outra qualquer máquina digital, e reparo na forma como outros estranham a velocidade do dedilhar, dou por mim a notar a distância abissal que me separa da meninice - a noção de tempo. O lava-louça da cozinha de Valinhas tinha três torneiras, duas com água corrente, a fria e a quente aquecida por pequeno esquentador a gás próprio, e uma terceira da água da mina. A única que bebíamos. No Inverno jorrava forte, no Verão era uma despaciência e foi essa torneira que me educou nos jogos de perseverança. Vazando um fio lento e fino, em criança pequena colocava o copo de vidro em baixo e começava a dar voltas à mesa da cozinha, contando-as para saber quantos giros demorava encher o copo. De igual modo, quando me avisavam que estava quase na hora do almoço ou jantar, perguntava aos adultos quantas voltas à casa demorava até ter de vir para dentro – havia que aproveitar o arejo do lado de fora das paredes de pedra. Aliás, o circuito no terreiro em torno da casa era a minha medida de eleição - o meu jogo de paciência.


Nos meses quentes os meus irmãos e eu estávamos encarregues de ir ao tanque do patamar de baixo, onde a água da mina corria mais lesta, encher os jarros da água para as refeições. E até muito tarde, já vivendo em Gaia há vários anos, continuei a beber água da mina de Valinhas, por a minha mãe se dar ao trabalho e cansaço de todas as quartas-feiras quando ia visitar a minha avó, encher seis garrafões e trazê-los para casa.


Em nova era muito sensível ao sabor. Odiava o paladar da água da torneira de Gaia e, sobretudo, do Porto. Há quarenta anos as águas do Porto eram pestíferas. No controlo da qualidade evoluímos bastante. Também não apreciava a maioria das engarrafadas, salvaguardando talvez pelo hábito a Fastio e a Luso. Hoje em dia bebo quase todas sem me aperceber das cambiantes de paladar e em casa uso a da torneira - tornei-me insensível a estes pequenos preciosismos da vida.


Voltando a Valinhas, todo o sistema de rega e de circulação da água da mina havia sido criado e desenhado pelo meu avô. Junto ao terreiro da casa no lado poente estava aquilo a que nunca se referiu senão como "a taça", rodeada de uma sebe de metro e meio de altura em forma de meia lua intervalada a meio pelo diospireiro. Fazia parte do sistema de rega da quinta. Era um tanque oval com cerca de quinze metros de comprimento, metro e meio de altura na parte mais baixa e três metros na mais funda. Nós crianças chamávamos com atrevimento e pompa àquele refrigerador de pequenos afoitos: piscina. O início do Verão abria com a minha mãe e nós lá enfiados a tirar baldes de lodo do Inverno, a esfregar com vassouras e detergente as paredes e chão, ao que se seguia o enchimento com um garrafão de lixívia e não sei se cloro. Nos meses seguintes, os das férias grandes, corajosos como só as crianças conseguem ser nesta matéria nadávamos nas águas gélidas depois das quatro da tarde. A regra imposta pelo meu avô era: só entra quem sabe nadar, pelo que a quem não sabia convinha aprender rápido e às escondidas e tratar de se mostrar desenvolto logo de seguida. O certo é que entre irmãos e primos todos adorávamos tais banhos.


 


Da mesma saga existem os seguintes postais:



Recapitulando


Tílias - Regueifa


por Isabel Paulos, em 05.06.22


 


Por vezes compro regueifa em espécie de peregrinação à infância. Hoje foi um Domingo desses, com mesa de pequeno-almoço posta. Lembrei-me por isso de fazer uma entrada para as Tílias, agora que me assalta de novo a dúvida se o grosso do teor das Comezinhas não deveria ficar reservado apenas a caderno de memórias para consumo familiar. Começa a ser tarde para voltar atrás, ainda que me falte o talento para escritora ou cronista já não há volta a dar. Mergulhei nisto a fundo. O tempo julgará o destino destas memórias.

 

Ao Domingo em Valinhas não havia pão fresco pelo que era preciso sair de carro no seu encalço. Um dos postos de venda era na Longra, e aí ainda há pouco me lembrava a minha mãe como a fornecedora colocava as roscas de regueifa no triângulo de terra na berma da estrada. Mas o que mais me lembro era do entroncamento de Mouriz, em Paredes, que dava saída para Cete e Paço de Sousa, onde estacionavam vários autocarros e camionetas que percorriam a estrada nacional Porto-Vila Real, tão regularmente por nós batida entre Porto e Felgueiras. Recorda o meu pai como desses autocarros depois de auscultados todos os passageiros, saía o revisor pronto a comprar por encomenda oito ou dez roscas deste pão de romaria, no buraco das quais enfiava os braços para poder transportar todas até as entregar aos consumidores finais. Eram um primor a asseio os tempos antigos.

 

No trajecto de carro nessa zona outra coqueluche para mim e os meus irmãos era a Casa do Zé do Telhado. Costumávamos fazer as viagens a zombar no mau gosto das fachadas das casas ao longo da estrada. Aquela era diferente. Com pena não faço ideia da razão do nome por que era conhecida. Será que o famoso salteador, originário dali bem perto, pernoitara na casa? Fiquei por saber. Do meu conhecimento era propriedade de quem sempre ouvi chamar tio X.P.B. e gostava dela como de poucas, por ter traves de madeira na fachada ao gosto da arquitectura nórdica. Completamente desfasada de tudo mais nas redondezas.

 

E como as memórias são com as cerejas, ao lembrar daquele lanço de estrada e da propriedade do tio X.P.B associo sempre a história do Marquês de L., que me divertiu desde cedo. Trata-se de um senhor muito apreciado por todos e o episódio que agora conto em nada retira a estima que lhe é devida. Contaram-me em pequena - e sabe-se lá se seria verdade, estas histórias correm entre famílias e têm sempre um misto de verdade com acrescentos vários - que este senhor muito desejoso de um título nobiliárquico, escreveu a um membro da Casa de Orléans, subscrevendo-se como Marquês de L. Um apelido aliás de origem alemã, o que rebusca mais a história. Na volta do correio o ilustre aristocrata francês dirigiu a missiva naturalmente ao Marquês de L., e assim o dito passou a intitular-se doravante, munido de prova irrefutável da legitimidade do título com que se auto-investiu.

 


Da mesma saga existem os seguintes postais:


 


Fragmento 1. Tílias - Rua N. S. de Fátima


Fragmento 2. Tílias - Compor os Sonhos


Fragmento 3. Tílias - Brilho e Falsidade


Fragmento 4. Tílias - Rua General Torres e Brasil


Fragmento 5. Tílias - Filha e Maternidade


Fragmento 6. Tílias - 11 de Setembro 2001


Fragmento 7. Tílias - Chave em Christchurch


Fragmento 8. Tílias - Maçãs e Batatas


Fragmento 9. Tílias - Jerusalém há 2000 anos


Fragmento 10. Tílias - Avó


Fragmento 11. Tílias - Virinha


Fragmento 12. Tílias - Sonhos


Fragmento 13 - Tílias - Livros da Infância


Fragmento 14 - Tílias - Café


Fragmento 15 - Tílias - Cozinhotes


Fragmento 16 - Tílias - Anciãos


Fragmento 17 - Tílias - Avó Rosa



17/08/2022

Escolhas

 


The Road Not Taken


Robert Frost


*


Two roads diverged in a yellow wood,


And sorry I could not travel both


And be one traveler, long I stood


And looked down one as far as I could


To where it bent in the undergrowth;


 


Then took the other, as just as fair,


And having perhaps the better claim,


Because it was grassy and wanted wear;


Though as for that the passing there


Had worn them really about the same,


 


And both that morning equally lay


In leaves no step had trodden black.


Oh, I kept the first for another day!


Yet knowing how way leads on to way,


I doubted if I should ever come back.


 


I shall be telling this with a sigh


Somewhere ages and ages hence:


Two roads diverged in a wood, and I –


I took the one less traveled by,


And that has made all the difference.


 


(desculpem não colocar a tradução, mas não sei traduzir bem, e as que encontrei por aí na internet são péssimas.)


 

Brevíssima

Bem me parecia que para lá do mundo plástico, fabricado de lugares-comuns, bazófias e tretas absurdas próprias de quem está em modo bicos de pés, havia o outro, composto de gente normal, que somos todos nós quando não estupidificámos perdendo o bom senso ou não nos armámos em carapaus de corrida. 

Ouvindo


16/08/2022

Três notas, afinal são quatro


  • Oiço uma qualquer reportagem sobre os incêndios da Serra da Estrela e ao fim de alguns minutos abstraio do que é dito, as palavras são soltas numa melodia que conheço dos relatos de futebol. O que é bizarro. Creio que não me pronunciei sobre os fogos nos últimos anos aqui no blogue ou em comentários por aí - se fiz algum não me lembro. Deixo só três pequenos apontamentos. Já sabem: é conversa de café. Desde criança oiço falar na proliferação dos eucaliptos e também dos pinheiros em detrimento de outras espécies, como os carvalhos, freixos, castanheiros e outras árvores. Nos últimos anos vi debater o assunto. Nada me apetece dizer senão que os oiço falar e falar e falar há anos. A questão da limpeza das matas é também aquele assunto já mais do que notado por todos: é fácil multar particulares por não as limparem, muitos dos quais não obtém qualquer lucro dos terrenos, mas sim permanentes encargos - é claro que é preciso responsabilizar além de se dever incentivar a rentabilização das terras -, mas ainda não percebi quem é responsabilizado no caso das florestas do Estado. Por fim, uma nota positiva nesta matéria dos incêndios. Há anos reparo nas reportagens sobre calamidades em países desenvolvidos e modernos como os Estados Unidos e Austrália, vejo sempre o cuidado das autoridades locais em proteger as populações, retirando-as das zonas afectadas. Este ano, em Portugal, foi a primeira vez que notei esse cuidado e a correspondente pedagogia feita nos jornais (telejornais).

  • Acho que o Ritz gosta de futebol. Ainda não percebi qual o apelativo, mas sempre que dão imagens do relvado com jogadores - quando aproximam - o gato vidra na televisão. Hoje estava fixado nas reportagens sobre contratações, nos momentos que focam os jogadores no relvado. Ai dele que dê em benfiquista ou sportinguista. Vou ter de o educar. A trair o meu Portinho, só está autorizado a ser com o Beira-Mar, o Belenenses ou o Vitória de Setúbal (além Porto, os clubes que eu gostava em criança, por herança, salvo o Setúbal que acho ser coisa minha mesmo, não sei a razão).

  • Há pouco em conversa ao telefone com o meu pai, ao contar-lhe que andava numa de comer o velhinho Romeu e Julieta, disse-me que em 1963 nas viagens para Mafra, parava em Coimbra e comia no Texas um prego no prato, com vinho, o Romeu e Julieta e café, por 12,50 escudos (doze e quinhentos, como se dizia e que corresponde hoje, em euros, a 6 cêntimos).

  • Pergunto-me o que pensarão do lombo do porco e do queijo flamengo com marmelada os muito familiarizados com a catadupa de sucessivas modas da gastronomia. Hoje em dia já nem sei o que está em voga, mas é de todo inadequado falar de comida tradicional portuguesa, sem todos os toques e tiques de modernidade para dar o de entendido e muito contemporâneo, com referências aos brunches com crumble de frutos vermelhos e gogi, à batata-doce e ao risotto (por mais antigos que todos estes sejam, o que interessa são as vagas, as idas e voltas das modas).

M.C. Escher


O Nuno chama-me há anos a atenção para uma das obras de arte que mais aprecia (ele que desenhava tão bem - inclusive a aerógrafo - e a quem o Universo fez a sacanice de roubar a visão): a Drawing Hands. Tentei obter um vídeo explicativo do YouTube em português, mas não tenho tempo para procurar, por isso fica mesmo este. De qualquer modo, se quiserem ler a explicação da obra: aqui a tem.


Nota: sempre tive pena de não saber desenhar.

Encurradada, ou talvez não

Isto de escrever num blogue às vezes é como se jogássemos xadrez – do qual aprendi algumas regras em criança, mas nunca soube jogar. Penso: vou dizer que estou farta de escrever sobre comida e lá temo que salte e cavalo em “éle” e me coma o peão por excesso de explicação. Penso em dizer alguma coisa mais terna ou simpática e penso: quieta, não vá gerar um mal-entendido e a pretensiosa torre achar que lhe quero fazer alguma investida. Já nem me lembro do movimento da torre, sei apenas que é maquiavélica há mais de duas décadas e continua a atazanar-me o juízo. Doutra banda, penso em contar mais estranhezas e defeitos perfeitamente aceitáveis, como a de desenhar as figuras humanas nas duas faces das folhas de papel para que tivessem costas ou trocar a letra “vê” pela “éfe”, e vou assim mexendo os meus peões receosa, sempre de olhos postos nos bispos, que mesmo a ler na diagonal não perdoam excessos de exposição. O rei e a rainha ficam quietos a ver passar os porta-aviões. Ah, não. Isto já é da batalha naval, dessa sei bem as regras; jogava bastante com os colegas no ciclo preparatório e com os irmãos e primos em casa. Uff, estou livre, ar puro.

15/08/2022

Determinação

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Se é para comer carne, come-se carne. Lombo de porco assado.


Crime de lesa majestade: misturar batatas com arroz; sempre adorei.


Quem beneficia deste atacado da carne dos últimos dias é o Ritz que não arreda pata de junto da mesa. 

14/08/2022

Fim-de-semana

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Vou começar hoje. Parece ter tudo para que eu goste. A ver vamos se acerto.


A capa está toda marcada, já a comprei assim. Adquiri a Colecção Mil Folhas (parte) em segunda-mão.


 


 


Adenda 15-08-2022. Acertei, definitivamente. Ainda pelo início, maravilhada. Mais uma vez ao calhas, ou quase.

Memórias de infância

Sempre que oiço a um comentador profissional a acusação de "conversa de café" percebo que alguém disse alguma verdade inconveniente ou passou uma tangente. É certo que é aborrecido estar a tratar qualquer assunto e vir um daqueles testemunhos pessoais descabidos que nada acrescentam senão a menoridade de quem o relata, mas muito mais perigosa é a falta de verdade e noção da realidade dos que constantemente peroram no espaço público esvaziando os dias e as ideias de substância, engrenando numa intelectualidade vã ou tão simplesmente no politicamente correcto. Vem isto a propósito dos casos de pedofilia na Igreja e do que me apraz dizer sobre o assunto. Como ao tempo do processo Casa Pia também neste caso há uma questão que devia estar clara para todos: o Estado e a Igreja têm obrigação de proteger os seus, em especial as crianças, e é bom que se levante o manto do indizível sobre realidades perversas e repugnantes que causaram sofrimento a tantos. Posto isto, não tenho a menor tolerância para conversa palerma de ataque à Igreja por ignorância ou moda. Na semana passada à saída do edifício onde trabalho ouvi duas catatuas cheias de preconceito e burrice a falar do ensino em escolas onde havia freiras - é um dos temas do momento e os processos de intenção básicos espalharam-se por toda a sociedade alienada. Por outro lado, também não compreendo aqueles católicos que conhecendo bem a Igreja dizem ignorar a realidade da pedofilia. No mínimo passaram pela vida muito distraídos. Desde criança pequena a minha mãe me contava que o meu bisavô não quis que os filhos fossem para colégios internos (da Igreja) por essa razão, tal com o meu avô não queria que os seus filhos os frequentassem. Desde criança pequena fui avisada pela minha mãe e tias para esse tipo de abusos quer em instituições quer fora delas. É-me estranho por isso acreditar que haja gente adulta e educada que desconheça a existência de homens e mulheres doentes e perversos, dentro e fora de instituições e que é preciso proteger as crianças.


À parte disso a minha experiência no ensino na Igreja foi o melhor possível. Fiz a primária numa escola rural da Misericórdia, na qual as professoras eram freiras. Para quem acha que são umas embiocadas, conto que os meus colegas eram todos filhos de gente do campo e, ao contrário do que pensam os citadinos (estranhamente esquecidos das origens), diziam tudo a direito, com vernáculo incluído (na zona onde vivi palavrão é vírgula) sem maldade especial, tirando a que naturalmente existe em todos nós. Era tudo o mais são possível, e nunca senti da parte das irmãs qualquer estranheza. Podiam ralhar como lhes competia, sendo tudo. E éramos difíceis. Lembro de discutir em permanência com o colega Z.R., sendo que ele tinha sempre razão (raiva). Dizia-lhe que Ramalho Eanes nem general era e ele trazia-me um papel que o provava. Despistada como sempre fui dizia-lhe que a Ponte Arrábida era a do meio (eu, neta de quem tinha casas sobre rio Douro e as pontes) e ele teimava e bem que a do meio era a D. Luís. Uma das discussões mais intrincadas de resolver foi a da posição para fazer filhos. Um dos dois dizia que era o homem por cima e o outro a mulher. Fico com pena de não me lembrar qual era a tese de cada um, às tantas foi por isso que nunca tive filhos, falta de jeitinho. Ou desconhecimento mesmo, quem sabe. Para dissipar as minhas dúvidas o Z.R. fanou a revista Gina em casa e mostrou-me as fotografias. Fomos apanhados pela boa irmã Maria Júlia que com toda a sua benevolência tirou a revista das mãos ao Z.R, colocou-a debaixo do livro de ponto, prosseguindo a lição como se nada fosse. Conto ainda que por uma tirada infeliz fui chamada à directora e a conversa revela uma vez mais a enormíssima tolerância daquelas santas irmãs. Alguém foi fazer queixa que eu tinha dito que as freiras eram as mulheres dos padres (nada fazia mais sentido na cabeça de criança). Ora uma vez na sala com a directora, intimidada com a ideia de levar raspanada, fiquei surpreendia com o tom amistoso com que ela disse algo vago sobre o facto das irmãs serem noivas de Cristo (coisa que eu devia achar uma pouca vergonha) e repreender-me sim por toda a gente me tratar por um nome de bicho feio quando tinha um nome bonito por sinal, dizia ela. Fiquei a pensar no que nunca tinha pensado antes. Na escola primária não adiantou. Só no ano lectivo seguinte, com a entrada no ciclo, aos 9 anos, comecei a ser tratada por Isabel.

Determinação

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Se é para comer carne, come-se carne: double cheeseburger.


O horror, a tragédia: comida plástica; há 25 anos, armada em carapau de corrida, participei a um grupo com quem viajava que não comia mcdonald's, a partir de então comi tantas vezes, que já perdi a conta, especialmente em viagem.


Aquilo será uma mosquita? Hum?

13/08/2022

Irritações

Maçã, maçãs. Maçã, maçãs. Não vou escrever dez vezes para não gerar comentários solidários. Mas lá está, estas coisas irritam-me. Só agora me apercebi que tinha escrito maçã, o fruto, sem til. Mais, lembrei-me que tinha um post de 2020 com esse erro e às tantas andam mais por aí - vou fazer a pesquisa e corrigir assim que publicar este. É o que dá escrever ao sabor dos apetites, não deixar a marinar os postais durante dias para corrigi-los com tempo antes de dar o enter. A questão é: demoraria a vida inteira na correcção prévia e não chegaria a publicar nada do que escrevo. E, convenhamos, já não vou para nova. Aos vinte anos faria sentido, ao aproximar-me dos 50 já me posso dar ao luxo de dar erros sem disfarçar que são gralhas nem me sentir menorizada. 


A despropósito, acho muita piada àquelas pessoas que gostam de dizer a outras que têm de ser pacientes - em muitos casos os grandes conselheiros, a quem quase tudo resulta, tudo sabem e em tudo são peremptórios não têm a menor consciência de que se pode morrer aos poucos de tanta paciência - virtude que muito prezo. Ou melhor, até terão essa consciência, mas preferem mesmo viver da aparência da mestria.


Já fiz a pesquisa e para lá da repetição constante do erro ao longo dos três anos de blogue, tinha-o logo no primeiro capítulo da Ana Paula. Brilhante.

Recapitulando


Costura


por Isabel Paulos, em 23.01.21


 


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O tempo lá fora fere e há razões bem mais sérias para achar que o mundo vai acabar do que aquelas que as linhas seguintes expressam. Pousaste o livro a pensar que o vais terminar amanhã e rendeu mais de vinte dias intercalado com contos de outras latitudes - lês devagarinho como o caracol. Estás no sofá a dar colo ao computador ao som da cada dia mais perigosa smooth e a escrever sobre o sucedido há três horas. Deste por ti de agulha e linha na mão, pelo que tiveste a confirmação que é bem provável que o planeta esteja a ruir como um baralho de cartas. Já não te chegava acordar por volta das oito, antes do despertador, de todas as rotinas que paulatinamente se têm vindo a impôr à natureza desalinhada que julgavas inalterável, e deste contigo a estender camisolas de lã, lavadas em programa pensado para não as estragar, em cruzetas (ou cabides para os mais evoluídos) e logo depois a coser uma peça de roupa. Claro que ficas a pensar: afinal, quem és tu? Seria para isto que ao longo dos primeiros vinte anos a tua mãe e a Eca te ofereceram quatro ou cinco conjuntos de costura? Alguns nem sabes onde andam. O dado pela tua mãe era de madeira, tinha asa e as tampas dos dois compartimentos deslizavam. O encanto, achaste sempre, estava no próprio mecanismo, nem sequer te lembras do conteúdo. Os da Eca eram mais miúdos. Kit de viagem; a graça estava em serem pequeninos e coloridos, pareciam de brincar e assim os tomaste. Fazia sentido: coser só mesmo por brincadeira. Os vários tubos de linha desses conjuntos estão na maioria virgens; salvo um pontarelo mal feito ali outro acolá, a coisa deve andar na média de trinta centímetros de linha gastos ao ano. Nem sabes bem se foste tu que reuniste os tubos, agulhas, fita métrica, alfinetes, dedal e dispersos na lata de xadrez vermelho e verde que a Eca te deu e persistes em preservar quando há muito fizeste desaparecer a maioria dos bibelots


Lembras-te da caixa de costura da tua avó. De couro preto estava sempre cheia, de tal forma que a tampa estava rasgada. O mais difícil de acomodar era o ovo de madeira. Da lata também preta estampada com flores e um furo na tampa. Recordas-te da dobadoura para ceder o fio aos novelos de lã. Quando não havia dobadoura, os teus braços ou de algum outro neto podiam bem ajudar na tarefa. Das agulhas de tricot, da agulha de crochet e da linha de algodão branco (esqueceste-te do número: seria a 8 ½?) e dos anos a fio a fazer buracos, como dizia o avô a contabilizar o número de orifícios que possuiriam cada uma das vinte e duas (estiveste a contá-las agora) cortinas das onze janelas do piso do meio da casa. No todo era um número astronómico de buracos. E das duas caixas de costura vermelhas de plástico com divisórias da tua mãe. Do som da preciosa tesoura que roubavas para cortar papel. O som de tesoura afinada é mais eloquente do que a maioria das palavras. Do marcador de tecido e do papel vegetal para tirar os moldes da Burda. Do pedal da singer e do móvel que a albergava, ido e vindo de Angola. Da tua mãe sentada a fazer peças de roupa. E da F., costureira de profissão, sentada a trabalhar: assim dá gosto, fazer a peça inteira, não é como na fábrica onde só se faz bolsos ou golas.


Avó, mãe e a sua grande falta de paciência para quem não tem jeito para nada. A lição é simples: o que é preciso ser feito faz-se e isso não faz de nós menos gente. A avó entremeava Agatha Christie e crochet, dava explicações de francês e preparava canelones ou fazia doce de maçãs podres, como soube enquanto enfermeira tratar de feridos na guerra civil de Espanha. A mãe tendia a massa para os pastéis de massa tenra com o mesmo método com que mexia e encorpava os ovos moles no ponto para o molotof e cruzava dados demográficos de poveiros mortos há trezentos anos, como soube enquanto professora ensinar angolanos das sanzalas a ler, escrever e contar. Agora passa da história de Israel para um romance de cavalaria ou o sudoku, como desentope canos da banca.


É a lição no feminino. E quantas lições há por essas casas em Portugal inteiro. Aprendeste pouco. Vale teres visto e ouvido mãe e avó. E Eca, um talento não para as costuras, mas para a bricolage e para a verdade. A pura da crua da verdade. O céu existe? Sim, sim: o céu dos ratos é a barriga dos gatos. Ainda hoje estás para perceber por que carga de água a tua mãe teve a ideia peregrina de pôr a Eca a dar-te catequese para a primeira comunhão. Só podia ser uma piada, a melhor das ironias vinda de quem diz não ter sentido de humor.


12/08/2022

Doces

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Ao vir para casa parei no Froiz e demorei-me por lá, coisa raríssima de acontecer num supermercado. Razão: procurar doces para o fim-de-semana para suprir as carências "efectivas". Depois de muito investigar as prateleiras e quase nada me apetecer fiquei-me pelos conservadores gelados Perna de Pau e a marmelada e queijo para o antiquado Romeu e Julieta.


 


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Chegada a casa fiz arroz para acompanhar feijoãozito com carne (parece lar brasileiro) e incorri num erro que o organismo já não permite: petiscar enquanto cozinho. Resultado, já não jantei, acabando por comer apenas o Romeu e Julieta. Ainda no início da semana fui alertada pela médica para a deficiência de proteína e para a necessidade de comer carne. Como não sou particular fã, ando a ver se ingiro ovos cozidos. E é assim a vida. Não é má de todo.


Nota. Nas últimas semanas aderi à maçã desidratada. Era reticente, mas sendo fruta sabe sempre bem. Hoje também trouxe dois pacotinhos.