Será que podemos medir o grau de insanidade pelo número de provocações que sentimos ao longo do dia? Explico-me. Não é normal cruzar-me com uma carrinha de entregas de produtos alimentares e ficar vidrada na palavra “Recheio” ou num camião de equipamentos técnicos e siderar no nome da empresa porque sim, por associar a qualquer coisa, tal como desde sempre nas matrículas. Mas isso por ter aprendido com as colegas da primária um joguinho que nunca parei de fazer – às vezes penso se aos 82 anos, quando voltar a fumar, continuarei infantil e ainda “lerei” as letras e números das matrículas, reduzindo-os à unidade para lhes encontrar significados. Nem vale a pena perguntar a técnicos se estas coisas são normais, porque habituados que estão às anormalidades graves, tudo lhes parece quase são – até gaivotas a grasnar ou carros a buzinar com lógica. Tudo faz imenso sentido na cabeça dos tolinhos. Claro que se tivesse verdadeiro talento para a escrita, tudo isto me daria imenso jeito, por só assim ser possível tomar consciência dos pormenores belos do Universo. Ontem enquanto lia descrições magistrais da Natureza dei por mim a pensar que o facto de ser muito míope não me permitiu aperceber de muita da beleza do mundo – resta-me escrever sobre a realidade um pouco desfocada. O que será a sensibilidade? A apetência para encontrar sentido, beleza e surpresa no Universo por mais esdrúxula pareça aos pragmáticos?
Por isso não me falem por meias-palavras sem se revelarem. O que me quiserem dizer, digam-me de forma clara e identificada. E se não for importante, não digam. Não me cansem. Todo Universo me fala por meias-imagens, meios-sons e meias-palavras e faz isso por temporadas há muitos anos. Será desde sempre? É muito cansativo. Desgasta-me o cérebro. Fico exausta. Há momentos em que tenho saudades do tempo em que flores eram tão só flores que desabrochavam e morriam e os pássaros eram livres até caírem "no céu" e não "do céu", como diria o Poeta. Era tudo tão mais simples.