Sempre que oiço a um comentador profissional a acusação de "conversa de café" percebo que alguém disse alguma verdade inconveniente ou passou uma tangente. É certo que é aborrecido estar a tratar qualquer assunto e vir um daqueles testemunhos pessoais descabidos que nada acrescentam senão a menoridade de quem o relata, mas muito mais perigosa é a falta de verdade e noção da realidade dos que constantemente peroram no espaço público esvaziando os dias e as ideias de substância, engrenando numa intelectualidade vã ou tão simplesmente no politicamente correcto. Vem isto a propósito dos casos de pedofilia na Igreja e do que me apraz dizer sobre o assunto. Como ao tempo do processo Casa Pia também neste caso há uma questão que devia estar clara para todos: o Estado e a Igreja têm obrigação de proteger os seus, em especial as crianças, e é bom que se levante o manto do indizível sobre realidades perversas e repugnantes que causaram sofrimento a tantos. Posto isto, não tenho a menor tolerância para conversa palerma de ataque à Igreja por ignorância ou moda. Na semana passada à saída do edifício onde trabalho ouvi duas catatuas cheias de preconceito e burrice a falar do ensino em escolas onde havia freiras - é um dos temas do momento e os processos de intenção básicos espalharam-se por toda a sociedade alienada. Por outro lado, também não compreendo aqueles católicos que conhecendo bem a Igreja dizem ignorar a realidade da pedofilia. No mínimo passaram pela vida muito distraídos. Desde criança pequena a minha mãe me contava que o meu bisavô não quis que os filhos fossem para colégios internos (da Igreja) por essa razão, tal com o meu avô não queria que os seus filhos os frequentassem. Desde criança pequena fui avisada pela minha mãe e tias para esse tipo de abusos quer em instituições quer fora delas. É-me estranho por isso acreditar que haja gente adulta e educada que desconheça a existência de homens e mulheres doentes e perversos, dentro e fora de instituições e que é preciso proteger as crianças.
À parte disso a minha experiência no ensino na Igreja foi o melhor possível. Fiz a primária numa escola rural da Misericórdia, na qual as professoras eram freiras. Para quem acha que são umas embiocadas, conto que os meus colegas eram todos filhos de gente do campo e, ao contrário do que pensam os citadinos (estranhamente esquecidos das origens), diziam tudo a direito, com vernáculo incluído (na zona onde vivi palavrão é vírgula) sem maldade especial, tirando a que naturalmente existe em todos nós. Era tudo o mais são possível, e nunca senti da parte das irmãs qualquer estranheza. Podiam ralhar como lhes competia, sendo tudo. E éramos difíceis. Lembro de discutir em permanência com o colega Z.R., sendo que ele tinha sempre razão (raiva). Dizia-lhe que Ramalho Eanes nem general era e ele trazia-me um papel que o provava. Despistada como sempre fui dizia-lhe que a Ponte Arrábida era a do meio (eu, neta de quem tinha casas sobre rio Douro e as pontes) e ele teimava e bem que a do meio era a D. Luís. Uma das discussões mais intrincadas de resolver foi a da posição para fazer filhos. Um dos dois dizia que era o homem por cima e o outro a mulher. Fico com pena de não me lembrar qual era a tese de cada um, às tantas foi por isso que nunca tive filhos, falta de jeitinho. Ou desconhecimento mesmo, quem sabe. Para dissipar as minhas dúvidas o Z.R. fanou a revista Gina em casa e mostrou-me as fotografias. Fomos apanhados pela boa irmã Maria Júlia que com toda a sua benevolência tirou a revista das mãos ao Z.R, colocou-a debaixo do livro de ponto, prosseguindo a lição como se nada fosse. Conto ainda que por uma tirada infeliz fui chamada à directora e a conversa revela uma vez mais a enormíssima tolerância daquelas santas irmãs. Alguém foi fazer queixa que eu tinha dito que as freiras eram as mulheres dos padres (nada fazia mais sentido na cabeça de criança). Ora uma vez na sala com a directora, intimidada com a ideia de levar raspanada, fiquei surpreendia com o tom amistoso com que ela disse algo vago sobre o facto das irmãs serem noivas de Cristo (coisa que eu devia achar uma pouca vergonha) e repreender-me sim por toda a gente me tratar por um nome de bicho feio quando tinha um nome bonito por sinal, dizia ela. Fiquei a pensar no que nunca tinha pensado antes. Na escola primária não adiantou. Só no ano lectivo seguinte, com a entrada no ciclo, aos 9 anos, comecei a ser tratada por Isabel.