É certo que há muitos equívocos no mundo da defesa do ambiente e, sobretudo, conversa inconsequente assente na aparente preocupação com a sobrevivência do planeta, expelida por gente cujo consumismo é incompatível com o amor à Natureza, que tanto apregoa. Recordo a parcimónia dos meus avós e parentes entretanto desaparecidos e percebo quão distantes estamos da conservação da Terra. A forma como o vestuário e calçado eram feitos para durar, e duravam, o modo como a alimentação era racionalmente concebida de forma não haver desperdício, duas manifestações de frugalidade. Na geração seguinte já muito havia mudado atento o apelo do consumo desenfreado.
Há pormenores que exemplificam este consumo de novos ricos e me deixam estupefacta com a falta de bom senso em matéria de esbanjamento.
- O número de detergentes consumidos pelos portugueses repele-me. Vejo a quantidade e variedade deles – há sempre uma novidade ainda mais eficaz e atraente –, olho para os carrinhos de compras e dou por mim a pensar nas maníacas e maníacos de limpeza, que usam litros de químicos no dia-a-dia. Reparo na quantidade absurda de detergentes deitadas nos baldes de água usados pelas empregadas de limpeza das empresas – deve ser um frasco de químico por litro de água. Nalguns casos o absurdo é tal que o chão e superfícies ficam pegajosas por excesso de detergente.
- A velocidade das novas gerações e também elementos mais velhos na troca de smartphones e outros gadgets. A forma descuidada com que usam aparelhos muito dispendiosos, não valorizando de modo nenhum a sua conservação, nem percebendo o custo para o ambiente desses desleixos.
- A fraca qualidade dos electrodomésticos, em geral, que deixaram de ser feitos para durar, numa época em que todas as empresas na sua página online de apresentação debitam grandes preocupações ambientais. O número de electrodomésticos deitados ao lixo é catastrófico.
- A inexistência de um forte mercado de produtos em segunda-mão e o desaparecimento da maioria dos serviços de reparação.
- O uso exponencial de cosméticos.
Estes são exemplos, mas a ideia é a de não haver genuíno hábito de poupar, salvo no alinhar em modismos na área da energia, que representam em si um negócio para as empresas promotoras das tais poupanças. Agora, usos individuais de frugalidade são cada vez menos. É só deitar os olhos às desarrumadas zonas de ecopontos. E, estranhamente ou não, quanto menos ricas são as zonas habitacionais em causa, mais esbanjamento se verifica.
Sim, sou das chatas. Das que fala destes assuntos tidos por menores e aborrecidos. Há quem apelide isto de mesquinhez. Sou das que se zanga com quem não espreme a pasta dos dentes até ao fim – aliás, o que faço há anos é ficar para mim com os restos dos tubos que alegadamente acabaram. Das que detesta o uso excessivo de detergente na loiça. Das que emagrecendo 30 e muitos quilos ainda só comprou um par de jeans e umas sandálias para vestir e calçar, por ter guardado durante anos peças de roupa suficientes para a ocasião em que as pudesse voltar a vestir. Mas também das que todos os fins-de-semana, quando vai ao ecoponto, dá pelo abismal número de embalagens de plástico que gasta por consumir demais e pouco racionalmente no que diz respeito à alimentação.
Claro que tudo isto são peanuts perante a possibilidade de uma nada amiga do ambiente guerra nuclear. Mas hoje é o que temos.