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22/08/2022

A ler

Ah, como são belas as balelas sobre os livros e a importância da leitura cheias de coraçõezitos, arco-íris e florzitas. A leitura faz-nos mais tolerantes, sentenciam os oráculos da sabedoria das frases feitas e floreados. E quem questionar e disser que nem sempre e, muitas vezes muito antes pelo contrário, é estúpido. Pois, com certeza.


Esta luminária russa é só mais uma das muitas que povoam o mundo, algumas portuguesas, à nossa dimensãozita de discretos e dissimulados democratas pela frente e autênticos pulhas manipuladores pelas costas - quando não mesmo discretos alucinados. Desculpem-me o azedume (e as palavras fortes que só melindram sensibilidadezitas hipócritas), mas foram muitos anos a ver insultada a minha pouca inteligência com tiradas palermas que resumem a tirania à ignorância e falta de erudição dos ditadores e de todos os que a professam e praticam. Nunca reparando na comum tirania intelectual e doentia, pública ou privada, frontal ou encapotada.


A ler, dizia, no Observador.



Quem é Alexander Dugin, o homem que previu o rastilho da guerra na Ucrânia e que gosta de ser considerado o "Rasputine de Putin"?


 


Alexander Dugin é um homem complexo, Charles Clover que o diga. O antigo correspondente do Financial Times em Moscovo conheceu Dugin enquanto preparava o livro Black Wind, White Snow: The Rise of Russia’s New Nationalism (sem edição em português), sobre o nacionalismo russo. A primeira impressão deixou-o baralhado, como descreve na obra: “Dugin podia parecer um filósofo louco, um eremita Dostoievskiano. Mas, na verdade, era um tipo divertido, na moda e fácil de se gostar, bem como um dos intelectuais mais interessantes e com mais leituras que já conheci.”


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Seis anos depois, já com maior distância (e fora de Moscovo), Clover mantém a mesma avaliação: “Ele é a pessoa mais interessante para se ter como convidado num jantar”, partilha o jornalista com o Observador. 


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Na realidade, Dugin falará menos línguas (nove, dizem), mas não há dúvidas das suas capacidades intelectuais. 


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Além da política ativa, Dugin procurou outra forma de influência, cultivando relações com figuras de destaque.


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As ideias de Dugin, porém, estiveram sempre bem definidas. Inspirado em Julius Evola, que foi condenado em Itália em 1951 por ter tentado “restabelecer o fascismo”, Dugin afirmou que é necessário aplicar um “fascismo genuíno, verdadeiro e radicalmente revolucionário”Mais recentemente, tem defendido a aplicação da “Quarta Teoria Política”, que diz que após o fascismo, comunismo e liberalismo, é agora necessário uma quarta ideologia que combine “as teorias sociais e económicas da esquerda com os valores tradicionais”. Economicamente, porém, Dugin também já defendeu em público que é possível aplicar um modelo economicamente liberal, que “coexiste perfeitamente bem com os regimes autoritários mais estritos”.


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É também uma ideologia que define o conceito de identidade nacional de forma diferente daquela que as fronteiras atuais desenham. Para Dugin, todos os antigos territórios da União Soviética, com exceção dos Bálticos, devem fazer parte do bloco euroasiático liderado pela Rússia. Foi por isso que, aquando da guerra na Geórgia, em 2008, Dugin foi fotografado com armas no terreno e popularizou o lema “Tanques para Tbilisi!”, capital da Geórgia.


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Agora, com a invasão russa a estender-se para lá de Donbass, as previsões de Dugin parecem assustadoramente reais. “Ele tinha este plano explícito de que não deve existir um Estado ucraniano e que toda a costa do Mar Negro deve ser russa”, ilustra Andreas Umland. Com as tropas russas a tentarem tomar Mariupol e a atacarem Odessa, parece que o objetivo de tomar a costa do Mar Negro já não é exclusivo de Dugin. Charles Clover, por seu turno, volta a sublinhar que há uma interseção grande entre as ideias do próprio Dugin e de alguns setores do exército russo: “A ideia de que a costa norte do Mar Negro deve ser controlada pela Rússia é um imperativo estratégico da Rússia que já se tinha tornado evidente na guerra da Geórgia.”