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21/08/2022

Disparates

Ora, vamos lá tratar de assuntos sérios, importantes e graves que todos pensam e sentem mas não dizem. Antes de mais a explicação para não destacar com a tag opinião a grande maioria das entradas. Só pontualmente se podem considerar opinião e ninguém tem de levar, sem vontade, com as minhas memórias e os constantes estados de alma expressos nos múltiplos posts diários. Há um ou outro que por achar ter laivo de opinião fundamentada ou estar melhor conseguido levam a tag - e outros tão só porque sim, me apetece. É por isso. Mais assuntos prementes que assaltam os meus neurónios cansados de tanta preguiça neste fim-de-semana e que jorram agora sem aviso prévio?


Pode ser já a questão dos neurónios. Não, afinal antes ainda quero dizer outra coisa. Ontem e hoje andei a ler as Comezinhas - é como digo, narcisismo galopante, de que aliás todo este postal é uma manifestação. Reparei que tenho escrito para chuchu, como me disse um amigo. Há um par de meses dei uma entrada dura sem me ter apercebido da data em que estávamos. Não foi intencional, como outra foi no passado. Não é que não pense tudo quanto escrevi, mas seria escusado dizê-lo naquele dia.


Agora sim, os neurónios. Há coisa de oito anos fiz um teste de Q.I. rápido e simplificado naqueles sites lifestyle brasileiros (creio que era versão traduzida). O resultado rondou os 108 e dizia que andava na média - até agora não tive disponibilidade e coragem de fazer um à séria, não vá ter surpresas mais desagradáveis. Convencida e fora da realidade como sou fiquei cabisbaixo, qualquer coisa menos do que Einstein ou Kasparov soava-me a pouco - o Q.I. destes senhores estava acima dos 160 nas épocas boas - em suma, tenho sempre a desculpa de ter feito o primeiro teste de Q.I. aos 40 e por isso o resultado não ser brilhante. Fiz duas vezes testes psicotécnicos; uma em miúda associada a testes de apetência por áreas que aldrabei o mais possível para dar o resultado que queria e outra num processo de recrutamento para emprego, cujo resultado não soube, mas sabendo como me correu deve ter sido pior que péssimo. Mas vamos ao que interessa, face ao teste feito há oito anos estava justificado o facto de ter sido uma aluna mediana, quando não medíocre. Salvo até ao 7º ano do liceu em que as notas eram boazitas e apesar de ter entrado para a faculdade aos 17 anos. Voltei à velha sensação da porcaria de parte lógica que tenho e da eterna intenção de voltar a estudar matemática para trabalhar a parte lógica deste cérebro que começou a preguiçar na adolescência - burrifico com cálculo e lógica, o que noto até na leitura de textos, e se quiser ser totalmente franca, até ao ler comentários. Não é que ontem na página de abertura do Edge publicam um estudo sob o título "Portugal entre os países mais inteligentes", ou qualquer coisa do género. Passei os olhos no pdf das conclusões do estudo e vi que a nossa média anda nos 94.4. Foi surpresa total para mim que tal fosse um bom resultado. Chamem-me parvalhona, mas podíamos ser mais ambiciosos.


Por estudar lembrei-me dos apontamentos da faculdade. Cerca de 20 dossiers organizados de que em 2018 me desfiz no papelão. Fiquei apenas com os livros, por ser incapaz de me desfazer de um livro. Curiosamente custou-me bastante mais deitar fora as lembranças das viagens. Tinha uma caixa com bilhetes de avião, comboio, barco, entradas de cinema, mapas, brochuras de museus, todas das viagens que fui fazendo (não muitas). Foi tudo. Dessas sinto um pouco, mas há-de passar e prevalecer a memória que sobrou. Nuns casos até guardava os talões de compras - a ideia era quando fosse mais velha ter noção do custo de vida nos diversos locais. Às vezes com os apagões de memória sofridos há viagens que ficam obscurecidas, perco a noção até do ano em que as fiz quanto mais de pormenores que vivi. O método para as localizar são os extractos bancários - sim sou daquelas que guarda extractos com 25 anos. Os cadernos da primária há muito desapareceram e os do liceu praticamente nunca existiram - por alguma coisa haveria um dia de me dar o tilte. Os meus escritos soltos e trocas da cartas e postais (não eram muitos), aos 33 anos, como aqui já contei várias vezes, cortei-os a tesoura em fitas fininhas antes de deitar no papelão.


Por apontamentos lembro-me de letra. A minha é péssima de ler e é assim desde o final da adolescência. Não que alguma vez tenha sido boa. Mas não saí à minha avó e, sobretudo, à minha mãe, com caligrafias exemplares. O que mais me envergonha não é a dita, que sendo como é, é a minha, mas o facto de não conseguir escrever sem rasurar. Tudo, desde sempre. Lembro-me como ficava fula comigo quando rompia os cadernos na primária de tanto usar a borracha. Enganava-me sempre. Continuo a enganar. Sempre que é preciso preencher um formulário entro em stress. E fiz eu o curso de Direito - onde estaria com a cabeça? Imagine-se o que sofri. Em miúda mais velha quando deixava um post-it ou cartãozito com recados aos meus pais e irmãos - na época não tínhamos telemóveis - acabavam por me dizer que não me esforçasse, não valia a pena porque ficavam na mesma sem perceber o recado. Além da má caligrafia os erros sempre me perseguiram. Ainda aos 12 anos escrevi um bilhete a um dos meus irmãos que estava a viver em Gaia, quando eu ia vivia em Valinhas: terminei com o seguinte P.S.: Desta "fez" não dei erros. Claro que foi paródia em família. No primeiro ano da faculdade emprestei apontamentos de Ciência Política e vi que causei grande algazarra grande entre colegas: vieram dizer-me que os meus apontamentos eram divertidos por desenhar o "pê" e o "éfe" da mesma forma, sendo que uma das palavras mais usadas na cadeira era "poder". Nunca Ciência Política tinha sido tão interessante, não sei porquê nunca mais me pediram apontamentos, salvo quando os comecei a gravar em cassete ou passar a word. Ainda há umas semanas, fui atender a carteira que entrega o correio na empresa, pediu-me para assinar e disse-me, gozando com a minha cara, que ia vender aquela rubrica de médico por um milhão.


Esse é outro "trauma": a rubrica. Aquela ideia que é falta de personalidade não a desenhar da mesma forma sempre e para todo o sempre, para mim é como o casamento: uma impossibilidade. Não sei, às vezes sai-me diferente. Até gostava de ser uma pessoa normal, mas lá está: se fosse capaz.


Ia escrever sobre mais assuntos interessantíssimos e de grave e séria importância para o mundo e seu destino, mas creio que o texto está a ficar longo. E isto é de uma fulana que tem consciência que o cérebro está ferozmente viciado no individualismo e no umbigo. Imagine-se se não soubesse. Não me valeriam todas as gotas do mercado tomadas em simultâneo.