Há dezasseis anos marcaram comigo um encontro para conhecer duas pessoas com quem conversava online. Foi numa esplanada do Parque das Nações e em vez das duas pessoas, surgiram talvez mais de uma dúzia de curiosos - para meu desagrado, que gosto pouco de ajuntamentos, apesar de ter ido a dois ou três do género.
Pouco depois de chegada, a figura central feminina, com as pestanas pintadas de azul e uma lábia monumental, contava divertida e cheia de si como tinha tido a ideia de nomear um espaço virtual. Ia contando e fazendo pausas olhando-me provocatória para que eu anuísse, presumo. E eu consenti, por omissão. Não recordando nem dizendo aos presentes, que usava aquela designação há muito e que comigo se tornou popular naquela espelunca virtual onde pastava, tendo sido mais tarde aproveitada pela senhora das pestanas azuis. Não é bonito desprezar um espaço que nos acolheu, mas factos são factos; passeei-me noutros pastos que horrorizam muitos, mas são bastante mais arejados do que se pensa e povoados de verdadeiros tesouros, que ali apesar do esforço não consegui encontrar. Ainda assim reconheço que, como em todos os lados, havia gente decente.
Como é evidente, não faço questão em dar nomes a espeluncas e tenho consciência que toda esta conversa tresanda a menoridade. Mais, consciência de que posso facilmente ser tomada por tonta e mesquinha. Mas uso o exemplo para dizer o que quero e faço questão. A idade, ao contrário do que seria de esperar, tem-me feito perceber que desfazer menoridades, equívocos e questiúnculas, desde que com bom senso, não faz cair os parentes na lama a ninguém e resolve problemas, ajudando a pôr pontos nos ‘is’ para mal dos pecados de quem sobrevive à custa de ambiguidades.
Todos nós aproveitamos as dádivas dos outros. Todos nós nos inspiramos nos outros. Todos nós fazemos versões. A nossa vida é construída em volta não só do que criamos – mal fora, morreríamos todos novos e exaustos -, como do que os outros nos dão. É desta espiral de criação e dádiva que o mundo vive e num mundo em rede como o nosso esta realidade tem ainda mais significado. Passando eu anos a fio – desde a adolescência – a ouvir e ler outros, é natural que haja tiques, sensibilidades e ideias alheias que se me tenham entranhado no discurso. Vejo que acontece a todos. Mas não me tenho em tão má conta que não saiba que, além de vida interior, toda a vida puxei pela cabeça para ter opinião própria e que muitas vezes me custou o pêlo manter-me fiel ao que acredito. Falho na preguiça e algumas vezes na inconsequência, mas procuro dizer aquilo que penso.
O mundo online está apinhado de pessoas com vontade de se manifestarem, de mostrarem a sua opinião, de declararem quem são. E isso é tão só a democracia a funcionar, para desgosto de muitos ditos lutadores pela liberdade e democracia, que todos os dias desprezam e espezinham a opinião alheia. Como eu há inúmeros anónimos, que dia após dia ao longo dos anos vão dizendo o que lhes vai na alma, não retirando daí nenhum outro benefício que não seja o maior de todos: gozar da liberdade para dizer o que se pensa e, nalguns casos, influir ainda que modestamente no curso da opinião dominante. Muitos anónimos que parecem não ter papel na democracia, que os deveria representar. Entre eles muitos que não buscam protagonismo, que gostam da discrição, mas prefeririam não ser usados.
Em regra, é pateta reclamar créditos e fazer cobranças neste contexto. Até porque a partilha é desejável. Mas convém recordar aos sábios deste mundo que sugar e abusar dos outros para colher aplauso, sem agradecer – não digo publicamente, mas ao menos em particular -, desconsiderando quem reputam não estar à altura ou ser dispensável a não ser para trabalhar e doar o melhor que tem – não é coisa muito limpa e honesta de se fazer. Sobretudo, porque quem está atento repara que jamais se esquecem de agradecer a quem retiram ganho reputacional ou material. Outras realidades paralelas no mundo online, que às vezes se confundem com a anterior, são a insinuação cobarde e as aproximações não assumidas. Um mundo que não presta, nem pode trazer nada de bom a quem está de boa-fé, mas altamente atraente para quem gosta de jogos sujos. E, no meio disto tudo, é uma lata descomunal ouvir conversa paternalista e lições de sapiência sobre como fazer vingar projectos e ideias. Isto para não falar daquelas pessoas que usam os estratagemas mais sórdidos para andar online à cata de histórias para vender. Normalmente todos estes tipos de figuras se dão bem: une-os todo um certo carácter e estilo de vida.
Estas considerações levaram-me ontem a ponderar fazer mais uma pausa nas Comezinhas, por cansaço. Mas reconsiderei, já não tenho idade para, como forasteira, agarrar na trouxa pela milésima vez e abalar desencantada e confiante em melhores dias noutras paragens ou simplesmente desaparecer no deserto por uma década. Talvez abrande, talvez não. As Comezinhas e a dúzia de generosos leitores regulares – a quem agradeço cada vez mais espantada por aqui estarem -, começam a ser um ninho com algum conforto – mas muito inconformismo, descansem -, na qual me dou ao luxo de fazer desabafos desta natureza e ir ficando enquanto tiver ânimo.