Ontem a manhã foi como de costume e a tarde passada em Braga. Regressada ao Porto, a piscina municipal está encerrada durante o mês de Agosto aos fins-de-semana e à semana só abre às nove pelo que vai ser um mês sem lá ir. Hoje para compensar andei a pé hora e meia, aproveitando para visitar zonas onde idealizei comprar casa nova. Uma rua aqui perto, onde acompanhei a construção de moradias, está em obras. Pode ser que melhore o aspecto. De qualquer modo, já não vou a tempo atenta a exorbitância dos preços pedidos. Mais tarde vou dar uma espreitadela ao idealista. No regresso, parei na pastelaria Nobreza, com nova gerência, e comprei dois pães de mistura e, com grandes ambições, dois éclairs. Depois do almoço comi metade de um deles e devia ter mantido a regra dos últimos tempos de, quando pontualmente compro doces, trazer um único bolo para dividirmos. Chega perfeitamente. O Nuno não é grande apreciador de bolos, eu não posso. O saco de amêndoas de chocolate da Páscoa ainda anda por terminar no armário despenseiro - há um ano bem o comia todo em três ou quatro dias.
Daqui a pouco vou tratar das compras online do Continente. Talvez ainda vá a tempo de reunir selos para a espátula. Sem as completar, até por não ter interesse em várias peças, fui aderindo a várias colecções de selos do Continente: copos, pirex, facas e agora quatro colheres de chá. Para substituir as em falta no faqueiro de cozinha, que ficou fanado nos últimos anos. Faz falta a Eca, que no final das refeições e enquanto se lavava a loiça nunca deixava de contar os talheres ao colocá-los nas gavetas. Faço isso, mas apenas pontualmente, o que equivale a dizer que já perdi três colheres de chá do faqueiro da cozinha e duas de café do principal. Há sempre a questão: quem foi? Posso ter sido eu ou o Nuno, mas conhecendo a dona L. que, apesar de muito cuidadosa em geral, já conseguiu deitar-me ao lixo um ralo do lava-loiça e o balde interior do ecoponto, tudo é possível.
São grandes as preocupações da minha vida, como se pode constatar. E pelo visto grande também é a necessidade de exibir tamanha profundidade. São fases, já houve a do silêncio, agora é esta mais de exposição. Não sei até quando vai durar. A experiência passada indica que terá fim um dia, só não o prevejo breve, por sentir que dá gosto escrever o que me vai na real gana, incluindo todas as miudezas que compõem os dias - as comezinhas. Admito que é um tanto viciante e que, apesar do aspecto positivo de criar a rotina diária de escrita, corro o risco da vacuidade - no espírito "facebookiómano" de relatar cada instante do dia já caí há muito (que se dane).
Ainda que por vezes possa tentar encontrar uma razão última para as Comezinhas - para lá da aprendizagem da escrita e da necessidade de expressar o que me passa na alma - não há aqui, como em tantos outros espaços online, um propósito definido, um plano estratégico, um deslumbramento - estranhamente evidente aos olhos dos que desconfiando da seriedade alheia, sempre caem em intrincadas análises psicológicas congeminando grandes intenções e esquemas, fazendo recair uma qualquer etiqueta estereotipada sobre os seus autores. Não se trata de correr atrás de um objectivo, de um sonho futuro ou delírio de sucesso, apesar de naturalmente ficar contente quando toco alguém através do que escrevo. Apesar de devanear com o passado e o futuro e de baralhar o tempo, brincando com a imaginação, o sonho é sobretudo presente e vai-se consumindo dia-a-dia, por cada descoberta, cada sensação, cada dor ou alegria experimentadas no que escrevo.