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19/08/2022

Matrioska

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As divagações são como as matrioskas – trouxe uma de Praga, há uns anos, se me der para aí à noite fotografo-a e coloco aqui a imagem. Há dois dias talvez perdida nos pensamentos dialogava com quem muito provavelmente nunca trocarei sons palpáveis e dei por mim (as vezes que escrevo esta expressão é mato – a nota rústica afasta chatos e pseudo-eruditos que, por tanto desejarem a sofisticação do experimentalismo sem perceber o que é, acham incipiente tudo quanto é simples; mantê-los longe é bom), dei por mim naquela jigajoga: eu dizia, e ele dizia, depois eu rematava, mas ele voltava a insistir, depois eu disse assim (à semelhança dos relatos dos populares menos ilustrados e mais puros nas entrevistas aos repórteres da televisão) e mais uma vez acabei na ideia que me ocorre desde miúda quando parto em viagem no pensamento: estou a queimar fósforos, este já não pega por ele próprio nunca mais. Sim, porque ao imaginarmos o quer que seja estamos a desperdiçar a oportunidade disso ocorrer nos exactos termos idealizados no futuro na realidade. Claro, quando amadureci (não tanto assim) percebi que o Universo nos faz viver sonhos tidos no passado ainda que de modo arrevesado e de forma a não lhes reconhecermos os contornos. Em todo o caso, volto à sensação, ao pensamento. Congemino: eu já imaginei estarmos nesta situação e ouvir-te dizer isso e dizer-te isto, por isso isto não pode estar acontecer, além de mais até pensei que te dizia que já imaginei dizer-te isto e que tu reagias exactamente com essas palavras, tal qual as matrioskas. Resumindo, o tempo e a tolice são muito engenhosos.


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Bom dia. Boa Sexta-Feira. :)