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08/08/2022

Recapitulando


De novo, os equívocos


por Isabel Paulos, em 28.03.21


 


Para lá da opinião e de visões antagónicas do mundo. Para lá do contraste, do divergente, da crença em valores distintos, estão os equívocos. Já aqui fiz dois ou três postais sobre ambiguidades. Todos nós carregamos sensibilidades, traumas, mágoas, fúrias que a outros podem não dizer rigorosamente nada por pertencerem ao leque de assuntos em que estão absolutamente resolvidos - seja por nunca terem vivido os problemas, seja por os terem superado ou tão simplesmente nunca terem congeminado que a questão existisse. E mesmo quem parece absolutamente seguro da maioria das pequenas ou grandes mágoas de muitos, tem as suas próprias, que aos últimos passam ao lado.


A diferença está, sobretudo, na maior ou menor inteligência e sensatez com que se espelham ou resguardam as menoridades, as fragilidades. E no grau de liberdade com que cada um escolhe abordar estas questões.


Acresce que falar por indirectas, não falar claro, não ser honesto nos propósitos, na medida do possível, declarando aberta e claramente aquilo que vai pensando e sentindo ao longo dos dias ou anos, traz consigo perigos vários para as pessoas que consigo convivem.


Não falo em desonestidades activas, no intuito de prejudicar – em canalhices de quem tem prazer em fazer mal aos outros. Falo tão só na eterna desconfiança nos outros e na defesa permanente do seu espaço à custa de meias palavras, de sugestões e ambiguidades. É verdade que todos temos valores e pessoas a defender. Por vezes não declaramos abertamente o que pensamos ou sentimos pelo facto de tal impor sofrimento noutros. Tal é legítimo. Tal como é legítimo omitir informações que põem em causa realidades de que não estamos absolutamente certos, ou de cuja justiça tenhamos dúvida. Mas para lá disto estão os equívocos por falta da verdade e clareza que pomos nos nossos gestos e palavras.


Medo da franqueza? Medo da exposição? Tanto quanto sei é muito mais perigoso resguardarmo-nos de todos, para confiar apenas nos eleitos. A traição não vem normalmente de todos, mas sim dos que figuraram entre os eleitos.