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30/11/2023

Caseirice

Tens o bife às seis, arroz das nove para a meia-noite e esparregado às três. [Dois minutos mais tarde] Onde é que disseste que estava o arroz? À esquer...da. Não, espera. À direita. Bom…está… Deixa, já percebi, está na outra direita.


Gracinhas domésticas habituais.

Bitaite

Se bem que compreenda o nefasto das facilidades - de como podem conduzir ao apodrecimento das melhores qualidades humanas -  e da necessidade de iniciativa, continuo na minha: a lei do mais forte não pode vingar sem intervenção moderadora do Estado – ou instituições supra-estaduais. Por mais que seja certa a promoção da iniciativa privada, em zonas do mundo desabituadas do cumprimento das leis e do respeito pelo outro o efeito é altamente prejudicial ao todo. Nestas zonas do mundo a concretização do capitalismo criará sempre grande assimetria na distribuição da riqueza, que não se pode assacar às capacidades de empreender e de trabalho – à iniciativa -, mas à esperteza e manha.


Como nota, deixo só a minha eterna desconfiança face aos empolgamentos e defesas excitadas de posições, ainda mais por estudiosos que se convencem ter chegado a um veredicto final ou à fórmula mágica do progresso. E gosto particularmente de ouvir excitados a chamar infantis aos analfabetos - é todo um quadro mental de iluminado convencido da sua autoridade. 


Mas isto é um bitaite. Leiam e oiçam antes os sábios.


Registo: de facto é bom lê-los e ouvi-los. Das várias teses e incongruências às vezes faz-se não a luz brilhante das fórmulas mágicas, mas caminhos cheios de defeitos - sobretudo se não harmonizados com conclusões válidas de teses antagónicas - e ainda assim possíveis de serem trilhados com algum sucesso.


 


Adenda. Vem isto a propósito do Contra-corrente do Observador publicado no post anterior.

29/11/2023

Ouvindo

Neste momento.


Diário

Hoje é um dos seis dias do mês mais trabalhosos. De manhã adiantei bastante. A hora do almoço vai ser bastante corrida. À noite talvez escreva. Tudo normal.

Caseirice

Toma a pastilha do colesterol. Obrigada (e cantando antes de a engolir) Allons, enfants de la "pastilhe".


Gracinhas domésticas habituais.

28/11/2023

O que acabei de ler

A conselho do Nuno.


Brincando aos carapaus de corrida, recordo que já aqui havia dito ter memória do futuro. Agora não me chamem maluca. A explicação está na Física.


Reproduzo com maior das latas a entrevista de 1 de Dezembro de 2019 feita por Patrícia Fonseca, na revista Visão, ao físico Carlo Rovelli, a quem já me tinha referido aqui em comentário.


*



As leis da Física dizem-nos que não há diferença entre o ontem e o amanhã. Então porque recordamos o passado e não temos memória do futuro?


 


O tempo não flui da mesma forma em diferentes lugares do mundo. O infinito não existe nas pequenas escalas. O espaço não é contínuo. Aliás, espaço e tempo podem até nem existir. Confuso? Em A Realidade Não é o que Parece (Contraponto, 248 págs., €16,60), editado esta semana em Portugal, as leis da Física que vivem nos manuais escolares são desmontadas pelo italiano Carlo Rovelli, o físico teórico que o Sunday Times considerou “o novo Stephen Hawking”, equiparando a sua obra de divulgação à do astrofísico britânico que há 30 anos explicou os buracos negros ou a Teoria das Supercordas, em A Breve História do Tempo.



Rovelli revela a capacidade de Hawking para explicar a complexidade das leis que regulam o mundo, de forma acessível e cativante, por vezes quase poética: “O tempo somos nós. Somos este espaço, clareira aberta pelos vestígios da memória nas ligações dos nossos neurónios. Somos saudade ansiando por um futuro que não chegará.”


Eleito pela Foreign Policy como um dos 100 pensadores mais influentes do mundo, Carlo Rovelli falou à VISÃO anulando o espaço entre Portugal e Canadá via Skype, numa conversa sem o espartilho do tempo, antecipando a conferência que dará na Aula Magna, em Lisboa, no próximo sábado, 16, a convite da Fundação Francisco Manuel dos Santos.


*


Grande parte da sua obra é sobre o tempo (e sei que o seu é valioso), por isso agradeço a disponibilidade e começo por perguntar: quanto tempo temos para conversar?


O que quiser!


É mesmo generosidade sua ou será porque o tempo não existe, como teoriza, e estamos a iludir-nos quando olhamos para um relógio?

Digo que o tempo não existe nas estruturas fundamentais do mundo, mas isso não significa que o tempo para nós seja uma ilusão. Por exemplo, o Sol não se move no céu, mas isso não significa que um pôr do Sol ou um nascer do Sol seja uma ilusão. É a mesma coisa com o tempo. O fluir do tempo – e a sensação que temos do fluir do tempo – é um fenómeno complicado que depende de muitos fatores, o que digo é que é um erro pensarmos que as coisas são exatamente como julgamos que elas são.


Como explica neste seu quarto livro, o tempo não é igual em todos os locais, porque é influenciado pela gravidade. É correto dizer que 15 minutos no Canadá, onde o senhor está, e 15 minutos em Lisboa, onde eu estou, podem não correr ao mesmo ritmo?


Sim, podem haver diferenças, porque Lisboa está mais baixo, ao nível do mar, e mais perto do centro da Terra do que o local onde me encontro. Os relógios em Lisboa andam um pouco mais devagar… Esta entrevista irá durar um pouco mais para mim do que para si. São diferenças mínimas, impercetíveis na nossa vida diária, mas que com bons instrumentos podem hoje ser medidas.


E essas diferenças têm alguma relação com a perceção do tempo? Por exemplo, diz que esta entrevista vai ser um pouco mais longa para si, mas talvez isso também aconteça porque vai estar entediado a ouvir as minhas perguntas idiotas?


[Risos.] Não, não… isso é um fenómeno completamente diferente, relacionado com o tempo psicológico e com os nossos sentimentos. É irónico, porque todos sabemos que sentimos o tempo de forma diferente. Algumas horas parecem não acabar, outras passam muito depressa. Na escola ensinam-nos que atrás desta variabilidade da perceção há um tempo físico que é único. Há um tempo em comum, o tempo do relógio, que é igual para todos. E isso não é verdade. Falo bastante desta questão num dos meus outros livros, A Ordem do Tempo.

Grande parte da sua investigação baseia-se no espaço-tempo definido por Einstein, mas, 100 anos depois, a Teoria da Relatividade ainda é de difícil compreensão para muitas pessoas. Para si é evidente que o tempo não flui da mesma forma em espaços diferentes, mas terá essa mensagem chegado já a um público mais alargado?


Ainda é algo difícil de entender, é verdade. Einstein explicou-nos que o tempo e o espaço são dinâmicos, que podem ser afetados pela matéria, mas os relógios não são afetados apenas pelo facto de estarem em Portugal ou no Canadá, eles também são coisas quânticas. E as coisas quânticas podem flutuar, andar um pouco atrasadas ou adiantadas, ou colocar-se em estranhas sobreposições, o que começa a tornar as explicações mais complicadas, porque começamos a falar no espaço e no tempo quântico, o que exige conhecimentos de Física, mas também o recurso à intuição, para compreendermos dimensões que existem e que não conseguimos ver.


Temos de ver também que a teoria de Einstein, apesar de ter 100 anos, esteve esquecida durante muito tempo, quase marginalizada. Foi sempre respeitada mas era como se vivesse no seu próprio mundo, desligada de tudo o resto. As coisas mudaram nas últimas duas décadas porque passámos a ter sistemas capazes de medir estes fenómenos e porque houve também uma grande evolução na Astrofísica. Só há pouco tempo conseguimos analisar a gravidade num buraco negro, ou seja, agora estamos a conseguir ver a teoria de Einstein. Além disso, a Teoria Geral da Relatividade passou a ter inúmeras aplicações a nível tecnológico, no nosso dia a dia. Sem ela não teríamos GPS, por exemplo. Isso facilita a compreensão das teorias, mas é preciso dar tempo ao tempo. Precisamos de nos habituar à ideia de que a realidade não é o que parece.


Um pouco como no passado, quando Galileu explicou que a Terra era redonda?


Exato. Então no outro lado do mundo vivia-se de cabeça para baixo? Era difícil perceber o conceito. O mesmo sucedeu quando alguém veio dizer que a Terra gira e anda à volta do Sol. Como assim? Olhamos à volta e é óbvio que não estamos a mexer-nos! Mas depois digerimos a informação e passámos a compreender. A Física Quântica também será um dia entendida por todos.

E esse é o propósito dos seus livros.


Sim, é o que me move. Os livros são um pequeno passo nesse sentido, e a investigação que faço também. Ainda há muitas coisas sobre o tempo que não compreendemos totalmente. Muitos aspetos permanecem misteriosos. Ou seja, descobrimos que o tempo funciona de uma forma diferente daquela que imaginávamos – e isso é claro –, mas descobrimos também que há muitas coisas das quais nada sabemos.


Como por exemplo?


Por exemplo, a diferença entre o futuro e o passado. Parece algo óbvio, mas quando estudamos as leis da Física constatamos que não há diferença entre o ontem e o amanhã. Então porque recordamos o passado e não temos memória do futuro? Gostaria muito de resolver esse mistério. Continuamos a colocar hipóteses… quem sabe, um dia, teremos a resposta.


É essa dose de mistério que abre caminho à transcendência e à popularidade da Física Quântica entre correntes alternativas, que dizem usá-la no tratamento de doenças?

Isso é tudo um disparate. Algumas situações são inofensivas, e cada um pode experimentar ideias e acreditar no que quiser, mas outras são perigosas – até criminosas. A medicina quântica não existe mas há pacientes que acreditam no que lhes dizem e deixam de tomar a medicação que deviam ou não procuram o médico que poderia realmente curá-los… a medicina “oficial” não é perfeita, mas os “tratamentos” quânticos não são alternativa.


Não devemos dar crédito a qualquer terapia associada à Física Quântica?


De forma alguma. É tudo uma farsa. Recebo muitos emails com perguntas sobre isto e costumo dizer que é como ir a um feiticeiro. Fujam!


Olhando para trás, para o que revelaram Demócrito, Galileu, Newton e Einstein, não fica maravilhado com o que eles conseguiram descobrir usando fórmulas matemáticas rudimentares?


Sem dúvida! O mundo deu saltos gigantes graças às descobertas destes cientistas, que foram verdadeiros génios, mas o trabalho de cada um deles deve-se também a um esforço coletivo, à integração do conhecimento de outros, criando novas hipóteses a partir daí. É assim que a ciência evolui e é isso que continuamos a fazer. Não podemos dizer que agora já compreendemos como é o mundo. Não compreendemos, de todo! E se no passado alguns físicos pensavam ter encontrado as respostas que faltavam, hoje podemos dizer que não sabiam nada – tal como nós nada sabemos.

“Só sei que nada sei”, como dizia Sócrates, e lendo os seus livros ficamos com a sensação de que o seu passatempo preferido é fazer desabar as (poucas) certezas que tínhamos… Mas como pode prosseguir o trabalho de Einstein dizendo que tempo e espaço não existem?


A teoria de Einstein é fundamental no avanço da Física, mas dez anos depois surge a Mecânica Quântica, e estes são os dois grandes saltos no conhecimento, durante o séc. XX. O problema é que estas teorias “não falam” uma com a outra, sendo até contraditórias. E parecem funcionar apenas quando assumimos que a outra não existe. A gravitação quântica procura criar uma forma de vermos as duas lado a lado, de forma coerente. Quando estudamos realidades muito pequenas, também as teorias de Newton deixam de ter aplicação (tal como o Teorema de Pitágoras não é válido em curvaturas, como a superfície da Terra). Era um bom esquema, e muito eficaz para compreendermos a Natureza, mas apenas para fenómenos grandes, usando equações que nos diziam como algo evoluía no tempo, em relação a outra. Sabemos agora que não há o espaço que contém o mundo e não há o tempo ao longo do qual se sucedem os acontecimentos. Há processos elementares em que quanta de espaço e matéria interagem entre si continuamente. A ilusão do espaço e do tempo contínuos à nossa volta é a visão desfocada e densa que temos de um pulular de processos elementares.


Como num filme, que vemos de forma contínua, mas que é feito de múltiplos frames.


Exatamente. A realidade de um objeto também não é contínua, é granular. Tal como a água de um plácido lago alpino é a dança veloz de miríades de minúsculas moléculas de água.


Lá está, “a realidade não é o que parece”. Mas a Física Quântica levanta outro véu dos mistérios da vida, provando que há matéria que só ocupa espaço quando interage. Há uma evolução do pensamento cartesiano para algo como “relaciono-me, logo existo?”

Em parte. Por exemplo, os eletrões nem sempre existem. Materializam–se quando colidem com outra coisa. Os “saltos quânticos” de uma órbita para outra constituem a sua forma de existência. Sem interação, o eletrão não está em lado algum. No mundo quântico não faz sentido falar de como as coisas são, mas como acontecem e como têm influência umas sobre as outras.


Quando começou a escrever sobre Física num jornal italiano, há dez anos, imaginava tornar-se um autor célebre em todo o mundo?


Não, nunca! Foi uma grande surpresa, as pessoas gostavam do que eu escrevia e foi assim que surgiu o meu primeiro livro, Sete Breves Lições de Física.


Um livro que destronou 50 Sombras de Grey dos tops de vendas, o que também contraria todas as leis conhecidas! Como é possível fazer investigação tendo sido sugado para este mundo mediático?


É difícil. Agora quero retirar-me um pouco. Mas gosto muito de explicar e divulgar a Ciência, por isso um dia começarei a escrever outro livro.

O que está a estudar agora?


Estou interessado nos “buracos brancos”. Sabemos muito sobre buracos negros e estamos perto de perceber o que acontece quando chegam ao fim. Depois de ter encolhido até ao seu mínimo, engolindo tudo à sua volta, poderá como que inverter-se e iniciar uma expansão. É a isso que chamamos “buracos brancos”, uma espécie de buracos negros do avesso. Se assim for, o que entrou num buraco negro talvez não se tenha perdido para sempre, talvez possa voltar a sair. Consegue imaginar?


Nunca Mates o Mandarim



Obrigada, Kika.

Provocação

Começo logo com mau título explicativo para continuar com ideia ainda pior.


Irrita-me a verdade impossível de contornar de não poder ter sempre razão - de não poder estar sempre certa. 


É uma injustiça. Uma das maiores dos tempos modernos. O Estado devia tomar medidas. Os outros deviam ceder, dando-me razão - todos. Talvez devesse manifestar-me em frente a Parlamento. 

Boomerang

Se quisesse fazer estardalhaço com a mais pura das verdades, faria um post apenas com a fotografia de Ricardo Araújo Pereira no cenário do programa de Domingo à noite, acompanhado de legenda simples: maior promotor de André Ventura e do Chega. 


Ah, pois é - diz daqui uma burra qualquer, mais uma imbecil desinformada. 


E nada disto obsta a que RAP tenha um piadão e me ria sempre imenso com as gracinhas. Mas a realidade é como é e não como a doutrinação pretende que seja. Ou melhor, a educação ideológica e as lavagens cerebrais das massas funcionam até certo ponto, depois dá-se o efeito boomerang.


Observo com perplexidade começar a não haver diferença na SIC entre reportagens dos "telejornais" e rábulas humorísticas. Tudo no mesmo registo, tudo no mesmo saco. E lá vamos cantando e rindo em direcção ao absurdo. 

Caseirice

Tens de arranjar outra - esta já deu o que tinha a dar. E tu? Arranjas outro? Achas? Ninguém me atura. Só tu. Mas tens de arranjar outra. Eu arranjo, três. Ui, elas não se entendem umas com outras. Nada que não esteja habituado, tu também não te entendes contigo própria. Para manter o registo têm de ser pelo menos três. Bom, "assim-comà-sim" já nos afeiçoámos.


Gracinhas usuais nos últimos anos.

27/11/2023

Vida

Esta foi uma noite importante. Tanto que não há nada a registar.

José Eduardo Agualusa

26/11/2023

Diário

Ora vamos lá terminar a série de diários deste fim-de-semana. Incontinente verbal, é o que é. Só para dar conta que não escrevi nem vou escrever hoje acerca do que tinha intenção: bitaites politiqueiros – por falar nisso, esta semana houve uma nova onda de críticas às “conversas de café”; se os autores destes comentários tivessem noção da pouca coisa que são e do ridículo em que caem sendo possidónios, teriam vergonha. Mas continuam impantes. Desenvolver a ideia que anda a ebulir nos poucos neurónios com que fui bafejada obrigar-me-ia a pensar e não estou para isso. Talvez adiante apenas que a efervescência política internacional com ondas de radicalização e os conflitos armados no mundo estão a trazer à superfície o real carácter e pensamento de muitos democratas fingidos, tanto de anónimos como dos que peroraram ao longo de anos no espaço público. Perdoem-me o insulto, mas não há como fugir dele: matarruanos não o deixam de ser por se enfarpelarem e alçarem-se às discussões filosóficas sobre literatura, geo-política, ciência ou de qualquer outra natureza. A educação não se compra nem com vidas materiais desafogadas nem nas alcovas da intelectualidade afectada nas ideias, no gosto e na acção. Endinheirados e intelectuais presunçosos sempre fizeram bons casamentos e má geração – não trazem nada de bom para a nação, por muito que se pavoneiem nela como grandes figuras. Vem isto a propósito do pezinho a fugir para o despotismo e para o anti-semitismo. É fatal como o destino: não há labrego que lhes resista, por mais farpelas bonitas vista, por melhor que maneje a retórica, os corredores do poder, as poltronas e mesas da intelectualidade. Imagino que possam causar algum desgosto a quem não se habituou a distanciar de tais influências, a quem os teve sempre em boa conta e como bons amigos a pretexto das balelas sonsas da tolerância e distorção do valor da liberdade de opinião, convertendo-o nos direitos à dissimulação e à ofensa – o direito à ofensa virá em força nos próximos anos; se gostam assim tanto, fiquem descansados: é o que mais terão.


No que concerne à vida comezinha já comecei a festejar. Têm sido presentes atrás de presentes. Não materiais, mas intangíveis. Retomar a natação foi um deles. Sensação boa de deslizar na água tépida a ritmo lento. Apesar de ter ficado com os braços e resto do corpo moídos, saí da piscina municipal numa boa-disposição só. Mais. Depois de outras confirmações de presença e das boas conversas de ontem com pai, mãe, o N. e a F. intervaladas com mais um lanche apenas a dois, hoje depois de preparado o Natal de sempre e de ouvir um conto de Natal de José Eduardo Agualusa (o Nuno está numa de audição de contos) ligou-me o meu afilhadinho para dar boas novas. Aproveitei para o convidar a vir cá com a irmã no próximo fim-de-semana - alteração de planos. Quando contei que tencionava encomendar o repasto, ofereceu-se, caso possam vir, para cozinhar cá em casa os habituais orientalismos a que aderiram. Faz parte do mundo deles: anime, jogos, comida e livros orientais.


Para terminar em beleza, depois de jantar e de ver as balelas costumeiras de Domingo à noite na televisão, acabarei um livro – não interessa dizer qual, ainda estou de greve em matéria de nomeações dessas leituras e estou a gostar; quanto menos anúncios e estardalhaço sem sentido, melhor. Vai ser uma sensação boa, mais uma vitória, até porque não é comum - leio efectivamente (sim, um advérbio) poucos livros.


Para registo acrescento apenas que escrevi este postal sentada da cadeira do +1, partilhando-a com o Ritz. No Inverno (Outono, em rigor) é isto. O raio do bicho não me larga, o interesseiro procura o calor como um desaustinado - parece o intelectual da treta em busca do calor do endinheirado enfarpelado que desdenha só por vaidade e vice-versa, apesar de eterna e mutuamente ofuscados.


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Presépio, hoje, 26 de Novembro 2023.


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Árvore de Natal e Presépio, hoje, 26 Novembro 2023.


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Fato de banho, touca e toalha no pequeno estendal da varanda, hoje, 26 de Novembro 2023.


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Lanche, ontem, 25 de Novembro 2023.

Lendo esta manhã

Perfil superficial dos candidatos a Primeiro-Ministro. No caso dos segundos, candidatos em primeira linha à liderança socialista.


 


Luís Montenegro.



 


José Luís Carneiro.



 


Pedro Nuno Santos.





 


Lendo esta manhã

Acerca das eleições na Holanda e da vitória de Geert Wilders e do Partido pela Liberdade - PVV.


 




[...]


The hard-Right has never won a general election in the Netherlands. In fact, for the last 13 years the country has had the same prime minister.


Mark Rutte, the longest serving Dutch prime minister in history, resigned after his government collapsed in July over his push for tougher rules on migration.


Voters, faced with the highest migration numbers in 20 years, a cost of living and housing crisis, were ready for a change.


In March the BBB, a farmers’ party, won a shock landslide victory in regional elections which became a referendum on the leader of the conservative VVD’s time in office.


Mr Rutte’s successor as VVD leader is Dilan Yesilgöz, a 46-year-old Turkish-born former refugee who promised to crack down on migration and limit asylum seekers’ family reunification rights.


For his part, Mr Wilders was calling for “zero asylum seekers” and closed borders in a country where a tough stance on migration is often a vote-winner.


Ms Yesilgöz did not follow Mr Rutte’s strategy of excluding Mr Wilders from any future coalition negotiations.


Her plan appeared to be to split the burgeoning anti-establishment vote among several Right-wing populist parties to ensure the VVD’s continued dominance.


At first, it seemed to be working, especially after the hugely popular campaigning MP Pieter Omtzigt set up his “radical centrist” New Social Contract party three months ago.





The Dutch farmers’ party began shedding support to Mr Omtzigt, a centre-Right politician, and to Mr Wilders’ Freedom Party (PVV).


Ms Yesilgöz was in a strong position and led the polls after Mr Omtzigt bafflingly declared he might not want to be prime minister after all.


Mr Wilders also benefited from the gaffe, winning support from BBB and NSC voters.


He moderated his usually harsh rhetoric as he scented a chance of government; even promising to be Prime Minister for “all the Dutch” including the almost a million Muslims in the Netherlands.


Mr Wilders dropped his manifesto calls for a ban on mosques, insisting other priorities such as immigration and healthcare were more important.


Tactical voting is part and parcel of the Dutch elections, where voters are faced with a ballot paper containing 29 different parties.


As Mr Wilders’ momentum grew, he attracted voters from other Right-wing parties, including the NSC and BBB, who stood no chance of government.


The election was shaping up to be a three horse race between the VVD, the PVV and the Groenlinks-PvdA, an alliance of Left-wing and green parties led by ex-EU climate boss Frans Timmermans.


Mr Timmermans was waging a “Project Fear” style campaign, warning Left-wing voters that only he could stop a Right-wing coalition.


But the European Commission heavyweight’s strategy also backfired, encouraging conservative Dutch voters to back Mr Wilders to ensure the next coalition government would be Right-wing.





[...]


So what happens next


Mr Wilders, whose manifesto calls for a Nexit referendum and the banning of mosques, faces a tough struggle to convince traditional parties to join him in government.


Ms Yesilgöz has said she would not serve under Mr Wilders if he was prime minister but could be tempted to join forces with him, if she was made head of government.


 

That could leave Mr Wilders with a high-profile ministerial role and a legacy for his decades in Dutch politics as provocateur and outsider.


Mr Wilders has the first attempt to form a government, as the biggest party, but faces a struggle owing to his lack of government experience and fierce euroscepticism.


Ms Yesilgöz is now probably obliged to go through the motions of coalition talks with the shock-haired populist.


If that fails, Mr Timmermans, who came second, beating the VVD by a single seat with 25, can try but his route to power is as complicated with a clear majority of the Dutch preferring conservative parties.


In contrast, Ms Yesilgöz, when her time comes, can rely on the support of other Right-wing parties including the NSC, which is now set for a kingmaker role with 20 seats.


The woman dubbed a “pitbull in high heels” could still become the first female Prime Minister in Dutch history but only after months and months of long coalition negotiations.


Until then “Teflon Mark” Rutte, tipped to be Nato’s next Secretary General, will continue his lengthy stint in office as caretaker prime minister.


Lendo esta manhã

Acerca do novo presidente da Argentina, Javier Milei.


 





The win for Milei, a former television commentator who became famous for rants against economic mismanagement and corruption among Argentina’s governing elite, is a rebuke for Massa’s Peronist movement, which has dominated politics since the country returned to democracy in 1983.


Over the past two decades, left-leaning Peronist governments have doubled the size of the public sector and introduced expensive subsidies and tight regulation across the economy.


The Peronist model has faced unprecedented pressure this year amid spiralling inflation. Massa has resorted to money-printing to finance spending and tightened strict trade and exchange restrictions to protect scarce foreign currency reserves.


Milei’s critics had argued that he and his running mate — Victoria Villarruel, a longtime defender of Argentina’s 1976-83 dictatorship — poses a threat to democracy. Milei, who has no executive experience, also faces questions about his ability to realise his agenda, analysts said.


Ana Iparraguirre, an Argentine political analyst and partner at Washington-based strategy firm GBAO, noted that Milei won more votes than any candidate since 1983, albeit in a run-off election. “That result gives Milei a strong degree of legitimacy, but he has an enormous institutional weakness,” she said. “He will have to anchor his reforms in popular support.”


Milei’s La Libertad Avanza (LLA) coalition, founded in 2021, will hold just seven of 72 seats in Argentina’s senate and fewer than 40 of the 257 in the lower house. It has no governors in any of Argentina’s 23 provinces.


Recommended The Big Read The radical outsider promising to cure Argentina’s economic ills While Macri has said JxC will support LLA on “reasonable” reforms, other coalition leaders remain harsh critics of Milei, who in one of his first interviews on Monday said he intended to privatise as many state companies as possible, including oil group YPF.


Most economists in Argentina say Milei’s flagship plan to replace the peso with the US dollar is unworkable in the short term given that Argentina has almost no dollars in its central bank and no access to international credit.


The official exchange rate is fixed at just over 350 pesos to the dollar, but the black-market rate is at 900 pesos, creating widespread price distortions.


Fernando Marull, director of Buenos Aires-based economics consultancy FMyA, said Massa was likely to try to avoid an official devaluation before leaving office, while Milei’s win would put further pressure on the black-market exchange rate.


“But for sovereign bonds and stocks, Milei’s win will be positive, despite the questions about governability and his plans,” he said. “This puts an end to this idea that Argentina never changes — Argentina has just voted for a big change.”





Durante a campanha, o Presidente eleito havia recebido apoio de sete ex-chefes de Estado de países latino-americanos, assim como do prémio Nobel da Literatura Mario Vargas Llosa e do ex-chefe de Governo espanhol Mariano Rajoy, que se uniram contra a continuidade de “um modelo económico corporativo fracassado”.



Diário

Dramalhão da manhã: estar a espreguiçar no quentinho e não haver um Jarbas ou uma Maria que nos traga o café à cama. Isto sim, são vidas difíceis. Pondero manifestar-me em frente ao Parlamento. 


Parece impossível. E foi feito o 25 de Abril para isto. A luta continua.

25/11/2023

Diário

São dez e meia da noite. Consegui ver com atenção o jornal da RTP 2 que se reduziu a três notícias - trégua temporária e troca de reféns israelitas (e estrangeiros) por prisioneiros palestinos, congresso do PSD, declarações dos dois candidatos a secretário geral do PS, e dos líderes do Bloco de Esquerda, da Iniciativa Liberal e do Chega -, a análise resumo de dois temas por comentadora (resultado das eleições na Holanda e eventual coligação para formar Governo e Conferência de Partes da ONU - COP28 - sobre alterações climáticas), e por fim referência a filme com a participação de Rui de Carvalho.


Vitória - foram vinte minutos ou meia hora de atenção aos jornais. Uma canseira. Mais cedo passei os olhos enfastiados pelas gordas do Observador.


E, por agora é tudo. Só sobra o dramalhão habitual de fim-de-semana. A enorme hesitação sobre o que se segue: deitar-me e dormir apenas até à meia-noite aproveitando a madrugada para me pôr a par do mundo ou dormir seguido até às cinco ou seis. Se optar pela primeira conseguirei tempo útil para pensar, mas acabarei por me deitar ao amanhecer, trocarei os sonos e ficarei com mau-feitio. Se escolher a segunda, acordarei fresca para aproveitar a manhã, mas ao fim da tarde estarei cheia de sono, dormirei, trocarei os sonos e ficarei com mau-feitio. É sina - não há o que fazer.


O que vale é que o dia correu muito bem. As compritas melhor do que encomenda feita no local - desde que cheguem a tempo. As confirmações para o próximo fim-de-semana correram o melhor possível: almoço sossegado a quatro, só com os meus pais, e saída à noite com irmãos, cunhadas, e os amigos: a T., o C., a E., a B. e a F - mesa reservada em bar para uma dúzia. De resto, antes de ver o noticiário da RTP 2 informei-me acerca do que é importante para segunda-feira e estou expectante e com bom espírito. Hoje os telefonemas e conversas ao vivo e a cores foram amáveis, francos e profícuos. Amanhã se sobrar tempo da cera, das leituras, do sono e do mau-feitio talvez nos dê para montar a árvore de Natal e traga os Presépios para os poisos habituais nesta época do ano - se não der, fica para a semana, que ainda vai muito a tempo. Deveria ir nadar e desta vez não há desculpa salvo a preguiça. E vá, mais importante: relaxar, esquecer tudo e aproveitar o melhor da vida. Isso sim. 


Agora já são onze da noite, pelo que a escolha está feita. Dormirei seguido. Drama desfeito.

O post aberto ontem

Ontem, foi aberto este post "antigo".


Diário

A registar: recebida chamada telefónica boa à hora de almoço - apesar do chazito que mereci. Mas é como tudo: quem não rabuja não mama e se estivesse à espera que me respondessem sem cutucar o brio profissional talvez nem me respondessem. Os fios tecidos com ternura e esperança andavam torcidos nas últimas duas semanas e suavizaram hoje num novo impulso. Tudo quanto é importante tem tendência a empenar e só com persistência começa a caminhar. É natural que andamentos de relevo tenham travões e enguiços, quanto mais não seja para conferirem e testarem seriedade e juízo no propósito. No início da próxima semana daremos mais um passito.


Os dias de trabalho correm pacíficos, hoje produtivo apesar de sozinha nas tarefas que costumam ser feitas a meias. No fim do dia tive aquela sensação boa de pôr termo às últimas tarefas de modo sequencial dentro de horários convenientes e o gostinho especial de olhar para o relógio e ver coincidir capicuas e horas certas com finalizações de pequenas empreitadas. Pormenores que dão bem-estar. As idas e vindas a pé, em contraste com as semanas anteriores, têm sido agradáveis à conta do bonito sol que se tem posto. As refeições nem por isso. O corpo esperto manda dizer ao cérebro que me transmita já não tolerar alimentos que antes apreciava – especialmente tudo quanto contenha doce e gordura -, e a mioleira sábia converte a nega do corpo em repulsa. Pena que o automatismo ainda me permita ingerir além da conta e só me aperceba uns minutos mais tarde deste diálogo entre mioleira e aparelho digestivo.


Na noite passada tive sonhos impactantes e cheios de simbolismo, mas não me atrevi a pesquisar interpretações. À cautela é melhor seguir a intuição e o bom senso e limitar-me a lê-los seguindo o juízo, não me deixando sugestionar por significados mais estapafúrdios.


Esta noite, depois de jantar e da saída para libertar a casa de lixo e materiais para reciclar no ecoponto, seguimos para passeio pelas redondezas com paragem no conjunto das novas moradias acabando na conversa de sempre: pois, mas tem muitas escadas e estamos a ir para velhos e nem sequer tem jardim, apenas um pequeno pátio. Eh, é melhor ficarmos onde estamos e quem sabe quando os preços baixarem arranjar o tal mini casinhoto com pequeno jardim.


Já em casa fizemos a lista pormenorizada para o resto das compras de Natal a tratar na saída de amanhã e planos para o fim-de-semana. O Ritz aproveitou mimo duplo como é costume e agora dorme ali no braço do sofá viradinho para mim, para não perder pitada do que se passa.


Em seguida, depois de publicar este diário e antes de me deitar a dormir, vou ouvir a minha bruxa de eleição – faz um ano agora em Novembro que comecei a ver este tipo de vídeos esotéricos no YouTube. Há quem ache uma valente imbecilidade - os tais dos conselhos "se quer ser considerada... patati patatá". A conclusão a que chego é bem mais benévola – apesar de muitos clichés, comuns também na psicologia, aprendi e retirei vantagens deste ano mais “espiritual-alternativo”, ao questionar e ponderar alguns modos de raciocinar, agir e reagir. É certo que é uma busca de pacificação nem sempre conseguida - haja em vista a impulsividade, as atitudes volúveis e o mau-feitio. É natural, o processo dá-se com avanços e recuos como a própria vida, mas há evolução. É o que se quer.

24/11/2023

Alegrar as Comezinhas

O que alegra as Comezinhas, além destas cem razões para viver? Descobrir e observar ou ouvir gente nova com talento. Ainda que conhecidas há muito de outros, ainda que não passem nos circuitos habituais por onde me movo e se move quem me cerca. O que aconteceu nos últimos anos com vários músicos. A francesa Zaz, nascida em 1980, a norte-americana de 1984, Esperanza Spalding e a catalã de 1995, Andrea Motis - desde já aviso que me estou marimbando para considerações palermas acerca de ter escolhido especificar a nacionalidade da última.


Também me deixa aconchegada a voz envolvente de Gregory Porter, norte-americano nascido em 1971, que me faz estacar sempre que o oiço na rádio.

Bom dia

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O dia começa leve, depois de me ter deitado cedo e de uma bela noite de sono, com café na banal e manchada varanda das traseiras. Nada de imagens sofisticadas, fictícias ou plásticas a estragarem o dia.

23/11/2023

"Malhar" no Ministério Público

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Andrea Motis


Uma das "descobertas" de há dois anos; na altura trouxe-a para as Comezinhas. Hoje o YouTube sugeriu estas quase três horas de evolução de Andrea Motis. Quem é?


Foi a banda sonora desta manhã. E creio voltará a ser neste fim de tarde.

Diário

(A reforma, céus. Quero a reforma.


Dormi bem esta noite, mas estou a cair de sono.


Preciso de dormir e tenho de trabalhar com as pálpebras a quererem fechar-se.


Estou em falência física.


O que vale é que conheço este estado - 


das três às quatro é penoso -


em meia hora volto ao normal.


O drama. A tragédia ;-)

Pequenos passos

Regozijas com pequenos momentos que parecem niquices e são os que mais contam para vidas com significado. Conseguires expressar o desagrado com atitudes incorrectas, dizendo frontalmente, mas sem a comoção que prejudica a clareza do discurso e o entendimento das tuas razões por quem te ouve e não está habituado a ponderar nelas. Sais da conversa com a sensação boa de que foi dito de parte a parte o que era importante e um elo de toda a vida ficará assim mais sólido apesar das razões de queixa que haja de ambos os lados. Interessa-te preservar o que mais importa. Nestes casos vale o esforço. É isso que distingue as relações válidas das superficiais - das que passam sem deixar memória boa ou má de relevo por mais elogios e aparente e fácil intimidade seja demonstrada.


Sentes satisfação por dar resposta espontânea numa entidade para a qual há muito trabalhas, abdicando do recurso a minutas, tal como te habituaste a fazer sem hesitação noutra entidade para a qual prestas serviços há menos tempo. Porque ainda não tinhas começado a fazer na primeira? Por um misto de preguiça e medo de sair do pré-estabelecido. O que vem fazendo de ti diferente do que és, menos do que és. Por vezes cumprir ou seguir à risca as regras implica pior desempenho, menor competência. Haja consciência das fraquezas.


Terão sido só dois momentos bons, sujeitos a retrocessos? Como tantas vezes acontece. Ou, pelo contrário, vais aprender a de modo consistente pores mais de ti no que dizes e fazes?

O post aberto ontem

Estes foram os postais "antigos" abertos ontem.


22/11/2023

Gregory Porter

Anoitecer

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Depois de levantar os olhos e dar com céu e mar avermelhados não há alternativa senão ir à janela  para captar a imagem. Belíssima. A fotografia não faz jus à beleza da paisagem real e tem reflexos, mas é uma aproximação. Chega.

Moda

O telemóvel e as sugestões do Google continuam a querer educar-me na civilização lifestyle – é toda uma cultura, a emergente de décadas de evolução tecnológica e suposto pendor liberal nos costumes. Nos últimos dias diziam-me estar fora de moda usar jeans justos – provavelmente não simplificam dizendo justo, mas designam o tipo de corte com algum chavão anglo-saxónico. Aliás, é possível que haja mesmo uma aversão aos jeans em termos genéricos. Só li o título e aqui não me arrependo de estar a falar do que não li na íntegra – devemos respeito pelo tempo e por aquilo que nos ocupa a disponibilidade escassa, e dar abertura e importância à futilidade quando há tanto de mais importante com que ocupar o pensamento é perda de tempo. A referência ao que está ou não está fora de moda no vestuário, maquilhagem ou outros itens de relevante importância para a sobrevivência do mundo é o tipo de dica que comigo cai em saco roto. Creio que uso regularmente o mesmo tipo de jeans desde criança pequena e o que mais me interessa é sentir-me confortável. Saber se corresponde ao que um conjunto de criaturas com preocupações fúteis considera dentro ou fora dos padrões da moda não me acrescenta nada.


E o que vale para a indumentária, estende-se às gastronomia, à leitura, à decoração etc. É evidente que todos temos de evoluir e que ao longo da vida o gosto muda por influência do nosso percurso, mas é ridículo estar preso ao que um conjunto de iluminados dos trapos determina e a população segue escravizada babando de contentamento por sentir-se integrada e aceite, faça ou não faça sentido e corresponda ou não às necessidades e vontades próprias. E claro: compreendo que todos nós cedemos em parte às tendências. Somos seres sociais e permeáveis ao que observamos e todos caímos na tentação do mimetismo, mas convenhamos: há graus de adesão às modas e a escravatura da dita não abona muito em favor do juízo dos seguidores.


Há anos numa conversa de relação profissional assisti a alguém muito indignado pelo mau gosto de uma colega ao vestir-se. Conheço a excêntrica e acho piada à forma completamente estapafúrdia e única como se veste. É de um mau gosto atroz, mas sempre me divertiu e compreendo-a inteiramente. Está a ser ela. A que criticava é alguém que tem um vasto guarda-vestidos próprio de estrela de cinema e tenta desesperadamente passar a imagem de pessoa civilizada, vestindo discretamente – normalmente muito bem, admito. Está a tentar ser alguém que não é – a tentar dar o ar. Nunca deixará de ser a pessoa preconceituosa que considera que a colega deveria ter um consultor de imagem para aprender a vestir-se com personalidade - palavras dela nessa conversa que foi há talvez dez anos; ainda hoje estou para entender a ideia de ter um consultor para saber vestir segundo a nossa própria personalidade.


Cada um é como cada qual e na verdade, na qualidade de relaxada ou desligada dos trapos, deveria ser tão tolerante com a esforçada clássica como com a natural excêntrica. Mas lá está, cada qual tem um percurso de vida único e embirrações pessoais e sempre me encanitou gente em bicos de pés, especialmente porque os vejo muito ditadores e maldizentes de tudo quanto é diferente, querendo impor-se por mimetismo à elegância e educação – ora quanto maior é o esforço para se colarem a essa imagem mais relevam não possuir tais qualidades. Quanto mais comentários desagradáveis fazem acerca dos parolos e da sua falta de noção do bom gosto mais relevam não o possuir. Quanto mais se tentam elevar, mais chafurdam na sua menoridade e falta de elegância.

21/11/2023

Espelho teu

Num mundo e tempo onde vinga quem passa a imagem aparente de educação, seriedade e rigor, um desafio divertido é passar a imagem de tosco, ignorante e irresponsável. Sabendo que ainda assim os iluminados da treta não compreendem tão convencidos de si e agarrados de modo patético à superioridade e à civilidade fictícias como se fossem bóias salva-vidas.


Nada mais deprimente do que bajular ou colar-se a quem está por cima para obter consideração dos demais.

20/11/2023

E agora, uma coisa completamente diferente

Não vou pôr o cérebro azul fluorescente, mas este é um postal de agenda. Não esqueci a ideia das entradas de Sábado sobre ciências. Acresce que, como é típico desta altura do ano, dediquei parte da noite de ontem à astrologia – calma, sei que escrevi a palavra ciência muito próxima do termo astrologia, mas já vão compreender a associação e desta vez é um pouco menos estapafúrdia do que é costume.


Vamos por partes.


Ando há meses a congeminar estudar o meu mapa astral. Conheço-o há mais de vinte anos, mas gostava de começar a entender como é feito e saber interpretá-lo por mim – depois terei oportunidade de dizer se faz ou não sentido; esse é um passo posterior, apesar de ser o ponto de partida de tantos que esconjuram a astrologia.


Antes de chegar à conclusão se a posição e movimento dos astros tem ou não influência na personalidade e destino de cada um e nos fenómenos da natureza, há dois elementos prévios que me interessam: noções de uma área da matemática – a geometria – e regras de interpretação das posições e movimentos dos astros.


Não posso afirmar se a astrologia faz ou não sentido sem entender previamente como calcular a posição relativa dos astros dispostos em ângulos, trígonos e quadraturas.


E se não interessar esta inclinação pela explicação do mundo e da natureza das coisas e dos homens através da leitura dos astros ou for totalmente irracional, há-de servir para rachar a cabeça a tentar compreender as mais básicas noções de astronomia – as que é suposto as crianças conhecerem e sobre as quais a maior parte da população adulta não tem a mais pequena ideia do funcionamento.


É mais um TPC que me marco sine die. Ler acerca de e pedir que me expliquem como se tivesse seis anos matérias básicas como a rotação dos planetas em torno de si e do sol, inclinações etc. Se chegar a aprender isto ainda que de forma incipiente darei um passo importante. Voltarei aos gregos e aos primeiros passos na compreensão do Universo. É curiosidade pela curiosidade, sem pretensões a escrever nada sobre o qual não haja um punhado de gente muito capaz de explanar de forma muito completa e minuciosa. É tão simples vontade de compreender e incomum falta de vergonha em revelar e expor ignorância na mais básica matemática, ou melhor, na geometria. No ano passado quando estive internada por causa da vesícula li o livro Matemática para Pessoas com Pressa e mais uma vez fiquei irritada com a incapacidade de compreender parte substancial do que li. Irrita a minha burrice e como sou teimosa como uma mula continuo a lutar contra ela.


Perguntam-me: então porquê não procurar investigar as bases da astronomia, ler qualquer coisa “séria” e de fácil compreensão acerca da matéria em vez de ir para duvidosas explicações astrológicas? Pela simples razão de não me apetecer ceder “à seriedade e ao rigor” só porque sim, só por as convenções e a necessidade de passar boa imagem assim o estabelecerem. Além de mais é forte a curiosidade sobre a natureza e explicação da personalidade humana e probabilidades futuras da vida.   

Moralidades à segunda-feira para variar

Agora que desafoguei das tarefas das quais estava incumbida sempre haverá vinte minutos à hora de almoço para um intervalo de escrita. Em que pensei esta manhã? Na forma como se deve aceitar a diferença, mas numa perspectiva menos política e mais espiritual, digamos assim. Compreender que cada um está num estágio de percurso diferente e que independentemente da idade, condição social, saúde, ou outros factores de natureza determinante para a vida, o nosso momento dificilmente coincide com o dos outros. Através da compreensão ou do amor (em sentido lato) podemos atenuar essas diferenças geradoras de desentendimentos graves e desencontros que parecem irremediáveis. Mas será mais inteligente que essa dádiva seja criteriosa. Acerto em explicar sem presunção aos que me são queridos as razões porque não devem ofender. Mas para quê perder tempo com os restantes? A vida fá-los-á perceber que não vale tudo e pagarão caro as injurias. Ou não - a administração dessa Justiça não me compete. Logo se verá.


Estas afirmações soam a moralidade. É assumida. Todos os dias nas televisões, nos jornais, redes sociais e blogues, conversas pessoais e profissionais são feitos julgamentos morais sem que os autores tenham consciência deles. Uns dizem estar a informar, outros a constatar factos ou a ironizar. Ou tão simplesmente a trabalhar ou a distrair-se. Parte substancial da expressão e comunicação humana é moral. A falta de assunção deste pendor moralista mais acentuado no homem moderno deve-se à má reputação da moral, mas não é por isso que ela deixa de ser exactamente o que é: um aglomerado de convicções, costumes e regras que enformam o indivíduo ou a sociedade e nos quais assentam os juízos de valor que profere.


De resto passaram-me pela cabeça os anos luz que me separam de quem aprecia a opulência e a ostentação e como será difícil conseguir estabelecer um diálogo saudável com quem venera o fausto e o confunde com cultura ou civilização. Assim como me será penoso lidar com gente devota do glamour e das palavras agradáveis ocas. Será tudo uma questão de gosto, mas na base deste está também o carácter e, claro, o estágio do percurso de vida e ambição de cada um. Tal como me custa notar a exibição de espírito de sacrifício no trato com os outros: aquela sobranceria subtil de fazer o favor de ouvir o outro, de lhe prestar atenção, até auxílio, exaltando o papel do autor de tão boas acções, o seu bom carácter e abnegação. Fazer notar sub-repticiamente que se faz o bem por obrigação penosa, sacrificada, quando tantas vezes o mais beneficiado da relação de “atenção” ou “ajuda” é quem se gaba de ser tolerante, de saber ouvir, de elogiar, dar alento, prestar auxílio. Enfim, subtilezas da natureza humana e da forma como se incham egos, engrandecem e enriquecem vidas à custa de outrem. Tudo tão longe do imenso prazer e felicidade que é dar sem esperar receber em troca e do mundo de alegria que nos chega quando sem saber o fazemos. Tão longe da sobriedade que jamais pode ser aparente ou fabricada para o efeito de causar boa imagem.

Observando trabalho pelo caminho

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                            De manhã.                                                                     À hora de almoço.

19/11/2023

Sete momentos com Clarice Lispector








Bom Domingo.

Viver pelo próprio pé

Um bom quinhão da arte de viver está no saber ignorar ou peneirar doutos conselhos e palpites. Em muitos casos quem se convence tudo poder ensinar dando-se como exemplo está apenas a argumentar, a persuadir para a compra de produto, a replicar modelos ou o que ouviu dizer não sabendo do conhecimento acumulado ou estranhando talentos alheios por mero preconceito - achando que já viu tudo por leviana avaliação da superfície e por adesão e comparação ao que é dado no círculo íntimo ou no meio pseudo-ilustrado. 


Aprender fazendo o caminho pelo próprio pé sem recurso a atalhos, apesar das dificuldades, deficiências e erros, tem a vantagem da independência e da segurança trazidas pelo próprio valor - sem ceder à sedução das audiências e vendas. Mérito distinto do sucesso que advém da colagem ao que é dado, quer aos lugares-comuns quer às contra-correntes de elite - disseminados como verdades do tempo - e do que resulta do elogio fácil e das palmadinhas nas costas de circunstância quando se cumprem os critérios das redes de relações interesseiras.


Porquê isto? Para o caso de vir a ser lida por outros distraídos em perigo de se perderem no caminho atordoados pelos conselhos e críticas levianos de umbigos cheios de prosápia javarda e mesquinhez que sabem bastante menos do que os ditos distraídos a quem tentam ensaboar - termo exacto neste contexto já que tem duplo sentido figurado: repreender ou bajular.

Sete momentos com Antero de Quental







Diário

A manhã de ontem começou com a ronha habitual até seguirmos de Uber para o centro comercial onde estivemos uma hora e dez minutos. O tempo máximo que aguentámos a péssima música em exagerados decibéis a ecoar do sistema de som do recinto, associado à zerechia nas lojas e corredores, à vozearia e ao tilintar de loiça da praça da alimentação – chegada essa hora decidimos sair rápido e vir almoçar em zonas mais calmas da cidade. Deixo só nota de pasmo pelos cérebros que conseguem aguentar centros comerciais com frequência sem enlouquecer – é preciso dar provas de grande resistência neurológica.


Pouco mais de uma hora foi suficiente para fazer as típicas compras de Natal de portugueses parolos e remediados: três pijamas (dois de homem, um de senhora), nécessaire de homem, porta-moedas de senhora, camisola. Já longe do centro-comercial, no comércio de rua: par de botas para mim. Só não ponho as fotografias não vão os presenteados passar por cá. Estão tratadas metade das lembranças para Dezembro. No próximo fim-de-semana aviaremos o restante: gravador de voz digital para o Nuno (outro), necéssaire de homem, (outro - podia ter-me lembrado hoje, mas esqueci), livro (este ano reduzido à unidade), três conjuntos de duas garrafas de vinho, dois fios/colares de aço (um com borboletas outro com trevos).


A boa notícia de hoje veio da máquina fotográfica. Antes de enfiá-la na caixa no intuito de a deixarmos na Worten Resolve, testei o botão on/off e por milagre voltou a funcionar na perfeição. Havia guardado a máquina há mais de um ano julgando-a avariada. Em Outubro o Nuno – nos tempos em que via gostava e usava boas máquinas fotográficas - andou em pesquisas na internet, mas gostei pouco de ver os preços. O botão ter voltado a trabalhar veio mesmo a calhar.


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Ao final da tarde tomámos um lanche ajantarado: chá preto, pão de abóbora e noz com queijo e fiambre, bolo-rei e maracujá. Mais tarde comecei a enviar mensagens para apurar disponibilidade de família e amigos (pouquinhos, claro) para me darem alento na entrada na fase decrescente da vida. Creio que será uma noite mais em família do que com amigos – tudo depende dos meus vaipes momentâneos e das circunstâncias. Também já pensei no menu do almoço do dia. E no fim-de-semana seguinte iremos a Almada. Tudo planeado – apesar de tantas vezes sair ao contrário, o que não tem qualquer importância. Essencial é orientar-me e apontar as setas ao futuro – ao que chamo devanear e tantas vezes é tão só organizar a vida.