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22/11/2023

Moda

O telemóvel e as sugestões do Google continuam a querer educar-me na civilização lifestyle – é toda uma cultura, a emergente de décadas de evolução tecnológica e suposto pendor liberal nos costumes. Nos últimos dias diziam-me estar fora de moda usar jeans justos – provavelmente não simplificam dizendo justo, mas designam o tipo de corte com algum chavão anglo-saxónico. Aliás, é possível que haja mesmo uma aversão aos jeans em termos genéricos. Só li o título e aqui não me arrependo de estar a falar do que não li na íntegra – devemos respeito pelo tempo e por aquilo que nos ocupa a disponibilidade escassa, e dar abertura e importância à futilidade quando há tanto de mais importante com que ocupar o pensamento é perda de tempo. A referência ao que está ou não está fora de moda no vestuário, maquilhagem ou outros itens de relevante importância para a sobrevivência do mundo é o tipo de dica que comigo cai em saco roto. Creio que uso regularmente o mesmo tipo de jeans desde criança pequena e o que mais me interessa é sentir-me confortável. Saber se corresponde ao que um conjunto de criaturas com preocupações fúteis considera dentro ou fora dos padrões da moda não me acrescenta nada.


E o que vale para a indumentária, estende-se às gastronomia, à leitura, à decoração etc. É evidente que todos temos de evoluir e que ao longo da vida o gosto muda por influência do nosso percurso, mas é ridículo estar preso ao que um conjunto de iluminados dos trapos determina e a população segue escravizada babando de contentamento por sentir-se integrada e aceite, faça ou não faça sentido e corresponda ou não às necessidades e vontades próprias. E claro: compreendo que todos nós cedemos em parte às tendências. Somos seres sociais e permeáveis ao que observamos e todos caímos na tentação do mimetismo, mas convenhamos: há graus de adesão às modas e a escravatura da dita não abona muito em favor do juízo dos seguidores.


Há anos numa conversa de relação profissional assisti a alguém muito indignado pelo mau gosto de uma colega ao vestir-se. Conheço a excêntrica e acho piada à forma completamente estapafúrdia e única como se veste. É de um mau gosto atroz, mas sempre me divertiu e compreendo-a inteiramente. Está a ser ela. A que criticava é alguém que tem um vasto guarda-vestidos próprio de estrela de cinema e tenta desesperadamente passar a imagem de pessoa civilizada, vestindo discretamente – normalmente muito bem, admito. Está a tentar ser alguém que não é – a tentar dar o ar. Nunca deixará de ser a pessoa preconceituosa que considera que a colega deveria ter um consultor de imagem para aprender a vestir-se com personalidade - palavras dela nessa conversa que foi há talvez dez anos; ainda hoje estou para entender a ideia de ter um consultor para saber vestir segundo a nossa própria personalidade.


Cada um é como cada qual e na verdade, na qualidade de relaxada ou desligada dos trapos, deveria ser tão tolerante com a esforçada clássica como com a natural excêntrica. Mas lá está, cada qual tem um percurso de vida único e embirrações pessoais e sempre me encanitou gente em bicos de pés, especialmente porque os vejo muito ditadores e maldizentes de tudo quanto é diferente, querendo impor-se por mimetismo à elegância e educação – ora quanto maior é o esforço para se colarem a essa imagem mais relevam não possuir tais qualidades. Quanto mais comentários desagradáveis fazem acerca dos parolos e da sua falta de noção do bom gosto mais relevam não o possuir. Quanto mais se tentam elevar, mais chafurdam na sua menoridade e falta de elegância.