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05/11/2023

Médio Oriente

Gostava de ser capaz de dizer qualquer coisa sensata sobre Israel, a Palestina, Gaza e a Cisjordânia, mas continuo incapaz. Por isso socorro-me do que ouvi há dias ao major-general Filipe Arnaut Moreira, na RTP, e hoje ao Ministro dos Negócios Estrangeiros da Índia, Subrahmanyan Jaishankar, em entrevista a Nuno Rogeiro - sim, vi o Leste/Oeste, como é costume. Apesar do registo diplomático e com aquela arte própria dos diplomatas de não se comprometerem com solução alguma, acabou por fazer aquilo que é preciso: destrinçar as peças em jogo para tentar compreender o que sentimos e pensamos acerca do assunto. Resumindo as partes do puzzle:  1) condenação clara do acto hediondo de terrorismo de 7 de Outubro; 2) legitimidade para a existência de um Estado palestino; 3) dever de intervenção humanitária nas áreas de conflito; (até aqui não parece haver motivo algum para não concordar com a exposição do ministro indiano); 4) solubilidade ou insolubilidade do conflito - não esperem que os diplomatas resolvam os problemas. Não é essa a sua função.


Faltou ao governante indiano referir uma questão que não pode ser escamoteada. O conflito mais amplo na região que opõe o Irão a Israel e a intenção deliberada daquele aniquilar Israel. E o uso de grupos terroristas como o Hamas para fazerem o serviço sujo.


Agora, passando do mundo da diplomacia para o militar. Há uns dias ouvi o major-general Filipe Arnaut Moreira num discurso muito claro e sensato acerca do conflito. Entre muitos aspectos esmiuçou os conceitos de “interesses” e “causas”. E muito prosaicamente tentou fazer perceber que os interesses dos Estados e instituições existem e não podem ser negligenciados. Não me recordo se tirou esta conclusão, mas tiro eu: os interesses de Estados respeitadores dos princípios democráticos são legítimos. E quando falo em princípios democráticos refiro-me a decisões emanadas de Governos, Parlamentos e Tribunais de Estados onde há eleições livres, onde há separação dos poderes e respeito pelos direitos humanos. E convém distinguir estes interesses de Estados que respeitam o Estado de Direito das “causas” propagadas pelas redes sociais e comunicação social. Sem qualquer obediência às leis, às instituições, mas movidas tantas vezes pela ignorância e por apetites emocionais das massas e dos fazedores de opinião que as dominam. E mais, ensina-nos o major-general Filipe Arnaut Moreira que as "causas" obedecem muitas vezes a “interesses” e não são em muitas ocasiões os dos Estados e Instituições Democráticas, antes pelo contrário servem para fazer o papel de inocente útil a Estados teocráticos, não democráticos, como o Irão. Espero não ter deturpado as palavras do militar, não era essa a minha intenção, apenas dar um acrescento meu com o topete de quem na adolescência julgava possível vir a ser diplomata e acabou a fazer contas pelos dedos. Vidas. O que vale é que nas redes sociais e blogues podemos ser e dizer o que queremos, saibamos ou não do que estamos a falar.


Em nota de rodapé, num registo narciso que nunca falta nas Comezinhas, digo apenas em memória de um Embaixador português que morreu há mais de 20 anos e acreditou em mim como possível futura diplomata, gostava que os portugueses voltassem a dizer palestinos em vez de palestinianos - nada contra o Brasil, mas estamos em Portugal e parecemos ter perdido esta batalha da correcta grafia que era uma das pequenas implicâncias do dito diplomata. 


Boa semana.