Neste país mais vale cair em graça do que ser engraçado. Mais vale dar o ar de pensar bem do que pensar bem. Mais vale plagiar do que criar. Mais vale furtar do que produzir. Mais vale reivindicar riqueza produzida por outros do que gerá-la. Mais vale mentir do que dizer a verdade. Mais vale ser desonesto do que honesto. Mais vale dissimular do que ser verdadeiro. Mais vale viver das relações interesseiras e dos esquemas de auto-promoção do que do estudo e do trabalho sérios.
É na aparência de valor que se singra em Portugal.
E isto não se refere apenas à política, mas à sociedade em geral - aos portugueses em geral - e à forma como as relações em sociedade se desenrolam. Vivemos num país desabituado de premiar o valor.
Será exagero? É pelo menos a tendência. E a constatação de hoje com um abanar de ombros. E agora retomo o trabalho, como se o que acabei se escrever não fosse importante. Como se fossem bocas inconsequentes como acusam os arautos da sapiência todos a tratar das suas vidinhas. Como de costume. Como se a treta ou slogan "cada um tem de mostrar o que vale" importado de lugares do mundo onde faz sentido, valesse entre nós. Por cá mostrar real valor serve sobretudo para ser esbulhado dele.
Habituem-se. É o país que estimam e consideram. É o país que promovem cada vez que denegridem por capricho, vaidade e falta de seriedade um político de valor. É o país que promovem ao manter as matilhas de interesses dos amigos ajudando-os a alçar aos tachos e lugares de destaque na comunicação social, nas redes sociais e blogues, nos partidos, nas empresas públicas, nas empresas privadas e entidades do mundo da cultura. É o país que promovem cada vez que ofendem, usam e desprezam gente que se limita a dizer a verdade. Têm o que merecem.
Muitos daqueles a quem se dirige este postal - da Direita à Esquerda - já estão a babar e a esfregar as mãos com as eleições e a possibilidade de se verem ou verem amigos passear-se nos corredores do poder - e falam como se tivessem isenção, com a maior das latas, como não tratassem a vida política portuguesa como o negócio das suas vidas - o que lhes dá audiência, protagonismo e sustento.