Faço agora o apanhado do que me veio à cabeça dos últimos quatro dias. Um diário retroactivo.
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De ontem apetece-me sublinhar a eficiência, rapidez no atendimento e delicadeza no trato dos clientes e ternura com uma criança que vi ao caixa do Boémia Café. Quase sem tempo para respirar tem sempre uma boa palavra para todos. De lá trouxe os bolinhos de bacalhau com migas de feijão-frade do almoço. Uma dose é refeição abundante para dois. Outro poiso onde vou em busca dos pratos que não faço casa é a Churrasqueira da Rotunda. Onde sou também sempre bem tratada no serviço take-away. Dois estabelecimentos com refeições a preços acessíveis.
Anteontem tive de aturar mais uma vez a má-criação de uma operadora de caixa do Continente – uma javarda insignificante a achar-se o máximo e a destoar do atendimento delicado que quase sempre ali presencio. O único senão além desta paspalha é uma colega ruiva e desbocada – bem sei que a formação no Continente não é má, mas há gente que nunca se corrige. No caso da ruiva pintada nem é grave, é apenas uma questão de feitio, excesso de à vontade e veleidades de intimidade, um mal do nosso tempo, no caso da primeira é mesmo estupidez galopante. E não me venham os activistas das causas fáceis justificar a má-criação com as vidas difíceis da classe trabalhadora. O que mais há é gente trabalhadora com vidas muito agrestes e ainda assim bem-educada, farta de aturar bestas de vidas fáceis ou difíceis.
Saindo do supermercado e generalizando o assunto má-criação deixo um comentário que procurei sempre não fazer por preservar o meu trabalho. Lidando diariamente com gente de todos os géneros e feitios concluo quase sempre (não nos dias das zangas) que o mundo tende mais para o bem do que para o mal. Refiro-me às atitudes. É impressionante como podemos perceber a boa educação e a boa índole independente dos pecadilhos de cada de um. Todos os possuímos. E isto para lá dos dias e luas e feitios a que cada um tem direito. A grande diferença está na consciência ou falta dela. Felizmente por cada fulano ou fulana cheios de prosápia, agressividade ou falsa simpatia e oportunismo – associados na maior parte das vezes ao erro grosseiro quando não mesmo à desonestidade – e isto independentemente da condição económica e social de cada um, por cada arrogante, desonesto, falso ou oportunista, dizia, temos dezenas de pessoas normais, mais discretas, mais bem-educadas, mais delicadas ainda que tropeçando como todos nós, uns mais do que outros, na falha ou no erro.
Abrindo ainda mais o leque, isto é, generalizando ainda mais: acreditar no que acabei de escrever não invalida que saiba que as pessoas estão sujeitas a influências e que os comportamentos, sobretudo de massa, são imprevisíveis quando manipulados com ardil por interesses ou por pretensas causas inconsequentes. O mundo é um lugar perigoso onde os piores instintos podem vir à tona num ápice.
À noite estive a arrumar papéis no +1 em busca de me orientar na temporada de marcações relativas a saúde que se avizinha para os dois habitantes desta casa. Foi uma arrumação superficial. Preciso passar mais umas horas a arquivar e deitar ao lixo o que é desnecessário.
Domingo apanhei um estranho susto com a saúde do Nuno. Mais um. O tempo nos dirá se o Universo nos vai castigar uma vez mais com a uma enorme injustiça. Cá estamos para enfrentar as adversidades e as alegrias. Vá-se lá saber porquê preferíamos e achamos que merecíamos mais das últimas do que das primeiras. Manias.
Como não sei desistir do importante, deixo sempre espaço para sonhar com realismo. O sonho mais importante de todos foi reorientado. Sem o mesmo grau de vínculo, será uma outra história que desejamos bonita e feliz. Tudo quando antes era questionar e protelar está fora de causa. Dei um primeiro passo simples. E agora é continuar até concretizar. A alegria virá. Estou certa disso e o Nuno também.
Sábado foi um dia diferente. Desde que os meus avós paternos morreram (há 12 e há 30 anos) não ia ao cemitério onde estão sepultados. Por ter sonhado com eles na semana passada (coisa rara) pedi ao meu pai que lá fossemos, até para saber qual é a campa, uma vez que nesses dias de turbilhão nunca fixo o importante. Levei duas luzinhas (a conselho da dona L.) e dois vasos de bonitas Calandivas – pequenas flores, uma vermelha, outra rosa claro, de folhas carnudas verdes -, da florista onde entrei sobre uma enorme carga de água própria destes dias de chuva forte. Junto ao cemitério vi uma vez mais várias pegas. O meu pai disse-me que tem notado agora mais pegas do que melros nos ajardinados da cidade. Foi bom saber que não sou só eu a reparar. Aproveitámos para tomar o café lá perto e comer um bolinho de massa filó, ovos-moles, amêndoa e canela – quando imaginaria que comeria doces de canela? Pedi à minha mãe para em meados de Novembro irmos as duas às campas dos meus avós maternos (mortos há 15 e há 37 anos), as quais me habituei a visitar de longe a longe.
Nestes dias lembro a Eca - lá está há 16 anos a guardar a sua Serra da Estrela. E todos os que já morreram.
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Para fechar este diário e como conto tudo tintim por tintim (sabe-se lá porquê; talvez seja umbigo e falta de vergonha na cara), acrescento que esta noite ao começar a escrever este postal bebi licor de anis e o Nuno whisky. Houve alturas em que tomávamos uma bebida branca uma vez por semana. Em regra, ao fim-de-semana. Noutras fases era raro. Agora é pontual, porém nunca mais do que uma vez por semana. O Nuno sempre bebeu vinho ao jantar, de preferência maduro tinto. Eu só costumava beber ao fim-de-semana, mas desde a pandemia comecei a alargar o hábito. O que não deve ser grave por nem meio copo chegar a beber. Talvez volte à regra antiga do restringir aos fins-de-semana e repastos especiais. Cresci entre gente que falava de vinhos com algum conhecimento, mas nunca entendi nada do assunto, nem aprecio aquelas conversas redondas sobre rótulos, castas, regiões, palatos, securas e doçuras, encorpados e frutados, jovens e macios de grau, aromas e tonalidades vários - bom, quando explicam isto até percebo, por apelar aos sentidos e ser razoável, o que não faz sentido e dar o ar de saber o que não se sabe para impressionar, nem os pirosos e modernos quiqueriquis a fazer pandã com a cozinha gourmet lifestyle. Enfim, refiro-me aos clichés dos que julgam civilizado dizer qualquer coisa redonda sobre vinhos, mas no fundo compreendem tanto uvas e vinhas como eu. O Nuno também não percebe nada de vinhos, mas sabe do que gosta.