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20/11/2023

Moralidades à segunda-feira para variar

Agora que desafoguei das tarefas das quais estava incumbida sempre haverá vinte minutos à hora de almoço para um intervalo de escrita. Em que pensei esta manhã? Na forma como se deve aceitar a diferença, mas numa perspectiva menos política e mais espiritual, digamos assim. Compreender que cada um está num estágio de percurso diferente e que independentemente da idade, condição social, saúde, ou outros factores de natureza determinante para a vida, o nosso momento dificilmente coincide com o dos outros. Através da compreensão ou do amor (em sentido lato) podemos atenuar essas diferenças geradoras de desentendimentos graves e desencontros que parecem irremediáveis. Mas será mais inteligente que essa dádiva seja criteriosa. Acerto em explicar sem presunção aos que me são queridos as razões porque não devem ofender. Mas para quê perder tempo com os restantes? A vida fá-los-á perceber que não vale tudo e pagarão caro as injurias. Ou não - a administração dessa Justiça não me compete. Logo se verá.


Estas afirmações soam a moralidade. É assumida. Todos os dias nas televisões, nos jornais, redes sociais e blogues, conversas pessoais e profissionais são feitos julgamentos morais sem que os autores tenham consciência deles. Uns dizem estar a informar, outros a constatar factos ou a ironizar. Ou tão simplesmente a trabalhar ou a distrair-se. Parte substancial da expressão e comunicação humana é moral. A falta de assunção deste pendor moralista mais acentuado no homem moderno deve-se à má reputação da moral, mas não é por isso que ela deixa de ser exactamente o que é: um aglomerado de convicções, costumes e regras que enformam o indivíduo ou a sociedade e nos quais assentam os juízos de valor que profere.


De resto passaram-me pela cabeça os anos luz que me separam de quem aprecia a opulência e a ostentação e como será difícil conseguir estabelecer um diálogo saudável com quem venera o fausto e o confunde com cultura ou civilização. Assim como me será penoso lidar com gente devota do glamour e das palavras agradáveis ocas. Será tudo uma questão de gosto, mas na base deste está também o carácter e, claro, o estágio do percurso de vida e ambição de cada um. Tal como me custa notar a exibição de espírito de sacrifício no trato com os outros: aquela sobranceria subtil de fazer o favor de ouvir o outro, de lhe prestar atenção, até auxílio, exaltando o papel do autor de tão boas acções, o seu bom carácter e abnegação. Fazer notar sub-repticiamente que se faz o bem por obrigação penosa, sacrificada, quando tantas vezes o mais beneficiado da relação de “atenção” ou “ajuda” é quem se gaba de ser tolerante, de saber ouvir, de elogiar, dar alento, prestar auxílio. Enfim, subtilezas da natureza humana e da forma como se incham egos, engrandecem e enriquecem vidas à custa de outrem. Tudo tão longe do imenso prazer e felicidade que é dar sem esperar receber em troca e do mundo de alegria que nos chega quando sem saber o fazemos. Tão longe da sobriedade que jamais pode ser aparente ou fabricada para o efeito de causar boa imagem.