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30/09/2022

Vladimir Putin

O defeito é meu, sem sombra de dúvida. Confesso a desde sempre desconfiança face ao entusiasmo com os romances e o traçar de perfis psicológicos dos facínoras que marcam a história. Hoje nos escaparates brilha Putin, o último assassino em massa que o mundo conhece. Sobre ele muita lírica se vai escrever.


No início dos anos 2000 conheci uma russa de Moscovo, casada com um ucraniano, e uma ucraniana de Lugansk, que cuidaram da minha avó durante poucos anos. Atrevida e inconsequente, com a primeira tentei encetar uma conversa sobre o perigoso KGB Putin. Com o dobro da minha idade, a Maria reduziu-me à insignificância mostrando que não ia fazer qualquer comentário que revelasse aquilo que pensava sobre o espécime. Aprendi a lição, no caso da Nina já não fiz perguntas incómodas.


É o que dá viver na ficção por ter lido na adolescência um punhado de livros sobre espionagem internacional e conhecer superficialmente as teorias da criminologia sobre traços fisionómicos dos criminosos, passando a ser sensível a caras patibulares.


Na minha ignorância e juízo leviano olho para a fronha de Putin tal como a via há 20 anos. Como então sinto-o assassino.

Sensação

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No Observador.


Não vou procurar provas nos jornais para justificar o comentário. Fico-me pela sensação de ainda há menos de um mês a versão dominante era a de termos atingido o pico da inflação em Julho último. 

Recado

Preciso dizer que não te adivinho os pensamentos, nem sei o que queres compreenda dos teus pequenos gestos. Ou melhor, até posso pressentir vários sentidos nos detalhes, mas podem estar todos errados, enganados. E tão só isso chega cá.


Bom dia.

29/09/2022

Distância

Empacota o que sente para alegre e sorridente se mostrar presente nos dias dos entes queridos. Não que não os ame. Não que não os sinta muito íntimos. Não que não lhes queira bem. Mais do que bem, quer sempre o melhor para quem estima. Podia ser feliz só com o conforto da presença dos dilectos. Porém, há uma cova funda de desejo do além vivido. Anseia tanto voltar à sensação de plenitude, de tudo encaixar e fazer sentido. Como tudo pode fazer sentido, se ideia e emoção há muito partiram para parte incerta? Longe dos dias com temperatura e cheiro. Longe do toque e do olhar. Nem os ouve. E Deus teima em provocar, testar. Teima em não a deixar esquecer essa vala distante de sentimento que a afasta da realidade.

Esperanza Spalding

28/09/2022

Recapitulando

Folgo em saber que o Governo pondera uma medida sugerida aqui nas Comezinhas a 08-01-2022.


A ler: Empresas que subam salários terão uma “redução selectiva” do IRC, hoje no Público.


*




Salário e descida de IRC com discriminação positiva


- proposta -


por Isabel Paulos, em 08.01.22


 


Em matéria de salários direita e esquerda barricam-se em posições antagónicas sem necessidade.


Está certa a direita ao afirmar que as empresas portuguesas são penalizadas por excessiva carga fiscal – além do manancial terceiro-mundista de burocracias - e que assim sufocadas dificilmente podem constituir o motor do crescimento que o país precisa para vingarem melhores salários. É verdade que aumentar salários sem apostar na base de sustentação da economia – as empresas – fomenta as importações e aumenta o endividamento público.


Da perspectiva de esquerda é inegável que os salários em Portugal são miseráveis e não havendo intervenção do Estado assim permanecerão por não haver uma cultura de respeito e retribuição justa pelo esforço e empenho dos trabalhadores. Aliás, o mal não reside apenas nos baixos salários, mas no abuso da precariedade, na carga horária excessiva, na desconsideração pelas qualificações etc.


Ao ouvir Rui Rio – em quem vou votar nas próximas eleições legislativas de 30 de Janeiro - apresentar a proposta de redução do IRC, de 21% para 19% em 2023 e 17% em 2024, ocorreu-me o tenho vindo a pensar (e escrever) nos últimos anos: em Portugal não podemos confiar no normal funcionamento do mercado como advogam os liberais, esperando que os salários aumentem à medida que as empresas se fortaleçam. Salvo honrosas excepções, essa não é a tradição das relações de trabalho entre nós. Os trabalhadores bem podem esperar sentados, aliás, bem desmotivados como se habituaram a viver.


A solução que julgo simples e exequível sob o ponto de vista fiscal é fazer uma discriminação positiva da tal baixa de IRC. Ou seja, premiar com a redução apenas as empresas que façam prova de que uma parte do benefício fiscal obtido desta forma serviu ou servirá para aumentar salários – bem sei que a maioria das empresas portuguesas têm baixa facturação, sendo o impacto muito reduzido, mas a medida teria ao menos nesses casos um efeito de moralização e de justiça básica. É certo que as empresas têm que investir no seu próprio desenvolvimento, seja através de despesas com a inovação, formação, promoção junto de novos clientes ou mercados, etc., mas não podemos esquecer que a base de sustentação da maioria das empresas é o trabalhador – quem faz, quem cria riqueza. Sendo por isso imperioso aumentar a despesa da empresa com os próprios trabalhadores.


O salário é todavia apenas uma das componentes a ter em conta. Outra seria por exemplo a das qualificações. Porque não fazer depender o benefício da descida do imposto a empresas que valorizem efectivamente – também por via do salário – trabalhadores qualificados?


Se não se impuserem regras estou certa que a diminuição do IRC, que parece à partida uma medida adequada, cairá em saco roto perpectuando-se as injustiças.


A ideia apresentada nas linhas precedentes – não sei se alguma vez objecto de proposta por alguém - é viável. Estou certa que haveria inúmeros fiscalistas capazes de desenhar um mecanismo exequível para a colocarem em prática. Parece-me bastante mais interessante do que que continuar com conversa sobranceira sobre os perfis e discursos mais ou menos atraentes de cada candidato ou sobre coligações, as quais poderão nem sequer ser necessárias.


*


Leituras complementares


O País, Caldeirada Com Todos..., 4 de Março de 2021.


Momento extraterrestre, 29 de Setembro 2021.


 



Jamie Cullum


Banda sonora para o resto da tarde de trabalho.


(na orelha direita.)

Pergunta

Depois de um século em que vingaram as distopias na literatura e numa época em que se privilegia o sórdido e a dissimulação, normalizando-os, será que uma utopia seria engolida pelo logro do fascismo ou de qualquer outra forma de autoritarismo?

A ler

Pelo menos um terço das peças de Shakespeare foram escritas em colaboração


Gabriel Egan, em colaboração com especialistas da Universidade da Pennsylvania, analisou as “pegadas linguísticas” das obras de Shakespeare e concluiu que pelo menos 14 foram escritas em colaboração., no Observador.


*


Posso imaginar o conforto sentido por alguns ao lerem isto. A justificação perfeita para o vale tudo sob a capa de colaboração benigna. São um mimo mesmo a calhar estes estudos que defendem que parte da obra de Shakespeare é fruto de colaboração com outros autores.

Diário

Dias tensos e apinhados do que fazer. No passado fim-de-semana a necessidade de desligar o botão para conseguir o desejado sossego. Conversa cúmplice com quem já viveu suficientes dificuldades para se deixar abater às milésimas contrariedades. Um colo íntimo e amado que compreende o estrebuchar e a reactividade às adversidades. Decisões importantes para futuro. A mais importante. Quando tudo treme descobrem-se as réstias de forças que impulsionam novos caminhos e novo élan de vida.


E a semana entrou a ferros com má notícia profissional. Cá estamos para enfrentar o que der e vier. Mais um abano. Mais um estremeção. O dia seguinte correu com mais consultas médicas da praxe (sem qualquer preocupação) e burocracias. Avizinham-se os 80 anos do pai e a vontade da filha em escorripichar os pais o mais possível com as memórias que se perderão se não forem transmitidas agora com tempo e disponibilidade para audição atenta, só existente em criança ou depois dos 40 - parece-me normal na adolescência, nos 20 e 30 centrarmo-nos mais em nós.


Aproxima-se o pulo aos canais do Norte e hoje parei para ver o mapa por mais uns minutos - em Agosto passei os olhos de relance para calcular percursos, hoje voltei ao mesmo, ainda assim será à descoberta já que o cérebro está cada vez mais preguiçoso. O certo é que a logística me deixa ansiosa e a decisão de comprar os bilhetes e ir em frente teve muito a ver com a necessidade de quebrar o círculo vicioso dos receios que me atam a casa ou territórios de mais fácil gestão. Não há como enfrentar os medos para superá-los, ainda que tudo isto soe a coisa muito pequena para quem se aviou sem o mais pequeno pingo de preocupação numa primeira viagem fora de fronteiras sozinha aos 16 anos. Às vezes tenho saudade do desembaraço da adolescência e da juventude.


Durante o dia pensei em escrever sobre (a nossa) tolerância e intolerância. E descobri o primeiro véu para o terceiro dos quatro ou cinco livros que tenciono escrever se chegar a velhinha. Pensei em escrevê-lo à mão. Se não valer por mais nada, valerá só pelo que vou rir ao não conseguir decifrar o manuscrito. Não há nada como rir comigo própria. Antes disso, convém dar a corda aos sapatos das Tílias até porque fazendo as contas já não tenho uma década para cada livro. Ah e tal e coisa conversa com os meus botões: falas demais, rapariga, contas demais e assim não és levada a sério. Além de dares o ouro aos bandidos. Ah, pois é.

27/09/2022

The Cliff House

Mexeram com um encostado

Mexeram com um encostado de uma das tribos mais estridentes da praça. Logo a matilha salta em uníssono, em dissimulada retórica viperina, quais virgens ofendidas. Mais tarde acabarão por sair vitoriosos, à custa do visco que expelem. Sempre na mó de cima. Em permanente bicos de pés, a produzir lodo e muita conversa sobre princípios, nunca saberão o que é ser digno. Disfarçadamente todos os dias estimulam o ódio e a violência a coberto de grandes enunciados de valores fundamentais. É isto que vende.

26/09/2022

Duas Notas


  • Independência zero


Com um pouco de atenção e distanciamento bastante dos sujeitos e objectos de análise de muito do que se diz e escreve em português de Portugal é impossível para quem for isento não entender que não só não há o hábito entre nós de ter opinião independente como ela é malquista. Os exemplos de personalidades independentes dados pontualmente por quem tem voz na nossa praça são de um ridículo só. No passado como no presente os ditos grandes pensadores independentes estiveram sempre encostados ou eram devotos do clã preponderante na sociedade portuguesa. O facto de serem estudiosos, intelectualmente preparados e usarem um estilo belicoso de escrita ou oralidade não faz deles gente independente. Não só estavam e estão bem calçados como têm rol de discípulos prontos não a beber dos seus ensinamentos, mas a bajulá-los sem sentido crítico de espécie alguma, por pura necessidade de criar frisson.


Com objectividade, e não pessimismo, afasto qualquer possibilidade de fazer ver a mais singela realidade. Apesar disso expresso a ideia uma vez mais para registo futuro. Neste mundinho pequeno em que melhor ou pior todos se conhecem não só de maus-caracteres é feita a corrente dominante e a prepotência dos interesses. Gente bem intencionada não resiste ao encosto e ao conforto se de dar bem com todos. Uma forma muito nossa de brandos costumes e, no fundo, de desonestidade – aos portugueses falta o "danoninho" para serem decentes apesar de usarem a palavra "decente" ou sinónimos amiúde como se soubessem o que é. Todos admiram muito todos na exacta medida em que isso beneficia as suas pequenas ambições. Todos, numa massa mole de cobardia, calam as sujeiras que conhecem para não prejudicar aspirações próprias.  Quando muito soltam uma verdadezita aqui outra acolá em conluio com a sua tribo, de costas bem quentes, e sempre para queimar algum sujeito que passe a malquisto por razões de conveniência e de sobrevivência das matilhas preponderantes.


E elogiam-se os "corajosos" que de modo desabrido ajudam a enaltecer a corrente dominante de pensamento, simulada num ou noutro toque alternativo ou de vislumbre genial forjados no momento para dar o ar de desalinho. Vale a aparência de independência e nunca a propriamente dita. Essa será irremediavelmente mantida a distancia prudente como se fosse lepra, por medo de contágio. A independência verdadeira será sempre convenientemente etiquetada de lunática e infundada, uma fraqueza de gente inadaptada do mundo normal.



  • Enquadrar


Basta a morte de uma personalidade ou uma qualquer efeméride para darmos de caras com enquadramentos assustadores. Os mortos e homenageados nas efemérides dariam voltas de cobra no caixão se ouvissem as palavras a si dirigidas. Um acumulado de lugares-comuns que dizem muito mais da educação ou falta dela, da experiência de vida e das aspirações dos obituaristas e lisonjeadores da praça do que das individualidades sobre as quais se debruçam. É um deserto árido, sempre mais do mesmo, a diferença que decorre entre a vida e o carácter dos homenageados e aquilo que sobre si é dito seja por total incompreensão do mundo dos primeiros seja pela aspiração dos lisonjeadores - ou dos detractores, também existem -, a dissertar sobre aquilo que desconhecem.

23/09/2022

A ler

Quarteirão Miguel Bombarda: 15 anos de galerias de arte, lojas alternativas e multiculturalidade, no Observador.


Não é que a perspectiva escolhida pelo jornal para apresentar a Rua de Miguel Bombarda me pareça a melhor. Mas, neste caso, antes dizer alguma coisa (na moda) do que nada.

The Matchbook

22/09/2022

Jornais

Não costumo fazer isto, mas vou dirigir uma pergunta aos pouquinhos leitores das Comezinhas. Nem vou destacar, para a coisa ficar entre nós, os poucos.


Nos últimos anos subscrevo um jornal. Nos últimos três, o Observador, que em muitos aspectos me encanita. A contenção de contas determinou que só tenha aderido a um, mas face aos tempos conturbados que correm e a necessidade de estarmos informados considero que posso fazer uma extravagância e subscrever outro.


Estou inclinada para o Público. Mas ainda não decidi. Até pode ser que não chegue a fazer a subscrição de mais nenhum. Mas, que acham? Devo aderir a um diário ou semanal? Português ou estrangeiro? Qual? E da vossa parte, subscrevem algum?

Marisa Liz (António Variações)

21/09/2022

Duas notas

Lembro agora, ao acordar de uma soneca no sofá após jantar e ouvir a sagrada dupla mediática da temporada Rogeiro/Milhazes (não é sarcasmo, se lerem as Comezinhas atrás podem perceber que os aprecio), os grandes pensamentos que me ocorreram ao fechar o estaminé ao fim da tarde. Bem, em rigor ao acordar pensei no recorrente, mas isso não merece registo, cedo ou tarde há-de ir a enterrar. Um pouco depois recordei detalhes que denotam falta de respeito pelo outro e no segundo caso indecência: o pedido descontraído para que alguém recorde o atarefado de uma obrigação e a pilhagem de ideias em proveito próprio. Ora, vou explorá-las sem me demorar. Quantas pessoas, sobretudo mulheres, dão por si a terem montanhas de preocupações e assuntos a tratar e ainda assim fazerem de babysitting ou secretariado de gente que se diz muito ocupada e sem tempo para gerir a própria agenda de compromissos. Trata-se em muitos casos de puro abuso. Quanto à segunda. Não raro assistimos à pilhagem indiscriminada de ideias ou apontamentos de várias pessoas por quem cria conteúdos (como é uso dizer). Já assisti ao caricato do pilhado fazer notar ao apropriador que disse aquilo em tal momento e o último assobiar para o ar como se tivesse descoberto a pólvora. Não viria mal mundo, antes pelo contrário, se o uso fosse em benefício de todos e não em proveito e vaidade de quem pilha. A diferença parece ténue, mas é muito fácil de traçar. Gente educada e de carácter (de facto e não na aparência) percebe bem essa linha divisória. Agora crescer à custa dos outros e quando a coisa corre mal falar de inveja e denegrir as fontes do conhecimento é de total pobreza de espírito. Esperteza saloia no seu esplendor. O mundo não está para os inteligentes, mas para os espertos. E até estas notas que acabei de escrever podem ser em pequena parte pilhadas para um qualquer florete de retórica oca. E nada disto tem a ver com a natural e salutar inspiração mútua que continua muito recomendável.

O real e a comunicação

Hoje a comunicação global condiciona e instiga o real. Mal de nós, por muito enganados estejamos pontualmente, se não entendermos a dinâmica da informação global e a importância do bom senso. Há momentos em que o poder de decisão parece estar absolutamente fora do controlo não só pela insanidade ou crueldade de figuras de poder de grande dimensão, como pelo enrolar em bola de neve da própria comunicação.

Mais menoridades

A propósito de um post de ontem sobre máscaras.


Em regra, nada me repugna no uso de pseudónimos, heterónimos, etc. e tal, ou mesmo no anonimato. Sucede que nem sempre o dito é usado para dar asas à criatividade, mas antes para azucrinar alvos precisos. Nada que não suceda com quem se identifique. Aliás, há os que acumulam: perfil identificado e perfis falsos. A dissimulação pode ser usada e causar ainda mais estragos por quem usa nome e apelido quando minimamente inteligente, engenhoso e sem escrúpulos.  


(hoje para variar vou escusar-me relembrar a pulhice a que fui sujeita no passado.)


O mundo online é tal qual o mundo físico. A aparência vinga. E os grandes proclamadores dos melhores princípios podem bem ser o que mais prejudicam quem consigo se cruza e não vai ao beija-mão.


No passado fartei-me de usar o que se chamava no início destas actividades cibernéticas nicknames. Usei o mesmo anos a fio em várias plataformas e quando regressei em 2018 voltei a usá-lo. O que só me trouxe vantagens, por voltar a rever gente de quem não sabia há 15 anos. Esse e outros que usei pontualmente ou apenas o nome próprio estavam, em regra, suportados nos meus endereços electrónicos que contém nome e apelido. O facto de não usar explicitamente nome e apelido tinha muito menos a ver com medo de assumir posições próprias e mais com a vontade de não desbaratar um apelido que não me identifica apenas a mim. Naturalmente quis preservar os que me são mais importantes.


Não sou impoluta. Recordo situações pontuais em que não tendo assinado nome e apelido vinquei posições a até me chateei. Na grande maioria dos casos, em igualdade de circunstância com quem se me opunha. E mais uma vez com suporte identificável. Não tenho a menor tolerância com moralistas e acusadores que, apesar de se afirmarem absolutamente puros e corajosos, a qualquer momento se revelam traiçoeiros.


Entre 2007 e 2018 afastei-me deste mundo a bem da saúde. Tinha medo e nojo deste mundo virtual. Quando se dá opinião, ainda que básica e sem pedigree, sobretudo se for política, e quando militantemente não se integra as tribos de protecção e ataque que se estabelecem na praça, agindo por conta própria, de modo inteiramente independente, está-se sujeito ao ódio e ao desprezo (a par, é claro, de algumas boas almas, em regra fora do mundo dos caciques virtuais, que vão permitindo que se respire). Por cada pecadilho meu, há uma pulhice de outro alguém. Anónimo ou identificado. E já lá vai o tempo em que, sabendo-me conscienciosa e usando isso, conseguiam amedrontar-me com intimidação traiçoeira e confundir-me com falinhas mansas.


A táctica de sub-repticiamente dizer que somos todos iguais por aqui não vingará: há uns bastante mais podres e falsos do que outros, por mais heróis se queiram apresentar.


Boa tarde.

20/09/2022

Jantar

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Dourada assada, tarte gelada de whisky e café.


 


Há quem maldiga a UberEats e congéneres, quando vejo várias vantagens, entre elas comer peixe sem ficar com a casa a cheirar mal. É muito provável que a dourada seja de aviário (podia dizer de viveiro, só não teria a mesma graça), mas nem me soube mal e o forno está limpinho.


A propósito pergunto-me a razão de sempre que cozinho bacalhau (raramente) ter visitas de gente de quem faço cerimónia. É azar, parece que esperam a casa cheirar mal para tocar à campainha.


Hoje apeteceu-nos sobremesa. Escolhi tarte gelada. Nada má. E por falar em doces, a tablete de chocolate da semana passada não durou até ao Natal. Ups. Está bravo, isto. 


Sexto post num dia. Que disparate. Viciada. Exagerada.

Não sou de intrigas, mas

Ouvi dizer que o Major-General Agostinho Costa ontem à noite perdeu a cabeça na CNN. Foi um estenderete. Não aguentou a pressão das perdas de posição russas.

Recapitulando


Para eventuais interessados (risos) na leitura integral d' O Livro dos Três Princípios - aviso desde já que é uma estucha, além de irritar -, informo que foi publicado neste blogue entre 1 de Novembro e  2 de Dezembro de 2019. Podem começar pelo link dos Destaques ali na barra da direita. 


Até agora estimo que tenha sido lido na íntegra por uma dúzia de pessoas. Muitas mais do que algum dia teria como leitores se me decidisse por uma edição de autor nos termos convencionais.


*


O Livro dos Três Princípios - Festejo - 30 (continua)


por Isabel Paulos, em 27.11.19


 


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        Terminado o curso, o Luís estreara-se a dar aulas de geografia no ensino secundário. Nos primeiros quatro anos deambulou por algumas escolas do norte do país, até arranjar colocação em Gaia. Mas a incursão no ensino durou apenas sete anos. Enquanto andou por fora, em escolas pequenas de meios rurais do Minho e de Trás-os-Montes, sentia-se bem a cumprir um papel, o de professor. Os miúdos, mais ou menos barulhentos e mais ou menos interessados, iam à escola muitas vezes contrariados, mas aprender qualquer coisa. Ao contrário dos encontrados nos dois anos em que deu aulas em Gaia e no Porto, onde não conseguia fazer perceber a criaturas a rondar os dezasseis anos, que havia o que aprender. Estavam todos convencidos saber tudo e tudo poder ensinar.  E entre a indisciplina e estupidez generalizada era quase impossível levar algum conhecimento aos poucos que se mostravam curiosos e interessados. Por isso, em 1996, tratou de arranjar colocação no segundo ciclo; achou graça a leccionar a crianças de dez e onze anos, na idade das descobertas. Ainda não estavam estragados pelas certezas que dominam o mundo adolescente, o universo moderno. Ali a missão de ensinar voltaria a fazer sentido. Mas se os miúdos o inspiravam, os colegas nem por isso, pelo tédio demonstrado por alguns em ensinar seja o que for a crianças. Conflituou bastante com o professor encarregue da direcção de turma. A atitude na escola deste ilustre docente pouco diferia da conhecida dos miúdos indisciplinados a quem dera aulas nos dois anos anteriores. A postura de enfado imbecil era a mesma. Tivera o azar de apanhar um frustradíssimo colega de profissão, cuja verdadeira vocação seria estar no guiché a preencher formulários e carimbar documentos, entre atestados médicos e licenças. Dono e senhor de profunda incapacidade de expressão oral e escrita, fundada na enorme ignorância, o espécime considerava-se um investigador de mão-cheia, destinado a trabalhar no ensino superior, mas injustiçado e atirado para o trabalho menor de lidar com crianças. Empenhara-se no mestrado e no doutoramento em ciências ocultas, perdão, em ciências da educação, produzindo teses ideológicas, sem qualquer critério científico, que envergonhariam um aluno de liceu, de mediana inteligência. Para o efeito os contribuintes pagaram a bolsa ao senhor professor que, claro está, nunca pusera a hipótese de pagar o mestrado com o esforço do seu trabalho. Ensinar a crianças menorizava-o, e a conjugação da bolsa paga pelo estado e licença sem vencimento permitia o melhor dos mundos ao logro da ciência, que ainda assim reclamava do curto período de atribuição, quatro anos, e do montante da bolsa, miserável, na opinião dele, apesar de corresponder a bastante mais do que muitos têm, esforçando-se, para sustento da família. E quando a facilidade terminou, regressou à escola para desdenhar de alunos, de colegas e de funcionários, e claro, perorar sobre o péssimo estado do ensino em Portugal e questionar todas as políticas do sector. Acabava por ter respaldo em muitos outros professores insatisfeitos. As razões da insatisfação eram vastas, mas a Margarida concordava com o Luís, quando chegavam à conclusão de que os bons professores, os que respeitam e instruem os alunos apesar das dificuldades, são sempre os que menos se queixam do estado da educação do país. Talvez seja uma questão de aproveitamento do tempo. Os bons professores estão ocupados a preparar aulas, cingindo-se à matéria a leccionar, sem parangonas ideológicas ou azias e frustrações. Estão determinados transformar as horas passadas com os alunos em momentos de aprendizagem e de respeito mútuo. Estão a corrigir testes, cingindo-se ao acerto da resposta, sem se deixar cair em estimas e ódios, que resultam de preconceitos quanto à aparência, ao carácter ou aos comportamentos dos alunos. Estão focados na ideia de ensinar. O foco está nos alunos e não em egos mal resolvidos ou ambições financeiras goradas. Aos professores que deixam marca não sobra tempo, se não para viverem a vida fora da escola, cientes de dentro dela terem actuado como bons profissionais.


       Depois da incursão no ensino num grande centro urbano, o Luís ponderou voltar a concorrer para a escola onde mais gostara de dar aulas. Pegar em armas e bagagens e rumar à, então, aldeia de Arcozelo, em Ponte de Lima, entretanto elevada vila, e lá assentar arraiais, mas a vida dá voltas e desafiado por amigo de longa data a criar uma empresa, foi para perto, Santa Marta de Portuzelo, em Viana do Castelo, não dar aulas, mas produzir estruturas metálicas. Quando comentava os planos na escola, sentia a perplexidade da maioria dos colegas. Onde? Estranhavam eles. A ideia do Luís assemelhava-se a um mundo ao contrário. Este estranho colega fazia o percurso oposto. Queria inverter a normalidade. Parte substancial dos professores, como o grosso da população das grandes cidades portuguesas, viera de terras mais pequenas, de aldeias e vilas espalhadas pelo país e de lá fugira à procura da oportunidade de uma vida confortável. Gostavam de lá voltar, matar saudades dos poucos familiares que ficavam. Em muitos casos, voltar à terra significava demarcação do passado; era preciso vê-la para confirmar que já não se pertencia àquele lugar e àquele tempo, mas a um mundo diferente, moderno e melhor. Ou, então, em muitos casos, provinham dos bairros pobres das grandes cidades, em condições de vida muito frágeis, mudando-se agora para as urbanizações e zonas habitacionais novas e melhoradas, que cresceram exponencialmente ao longo das décadas de oitenta e noventa.


        O país mudou radicalmente em trinta anos. Nas cidades portuguesas, até aos anos oitenta, salvo uma franja de privilegiados, estava instalada a pobreza tanto ou mais do que nas zonas rurais, nas quais o recurso à produção de subsistência permitia acesso a víveres. Entre os anos sessenta e os anos noventa o país essencialmente agrícola transformou-se num país de serviços. Deu-se a migração de milhões de pessoas das zonas rurais para as cidades ou suas periferias no caso de Lisboa e Porto.  Moldou-se o novo-citadismo, versão de novo-riquismo, que se manifesta por suposta superioridade dos habitantes de cidade, alegadamente mais evoluídos. Ideia longe da verdade, já que a riqueza e o grau de civilização de um país só podem decorrer da educação e do conhecimento. Enquanto não se diferenciar educação de dinheiro e consumo desenfreado, e conhecimento de deslumbre e adesão às modas de cada momento, o país vai manter-se ignorante, atrasado e pobre.


        A democratização do ensino além da primária, o aumento substancial da média dos anos de escolaridade e o jorrar de fundos europeus mudaram o país. Proliferaram as infra-estruturas e o emprego, sobretudo nos serviços. Muitos portugueses puderam migrar para as cidades, e juntando-se aos que já cá estavam em pobres condições, puderam comprar casa e carro com recurso ao crédito, percorrer as novas vias rápidas e auto-estradas e desembocar à porta da sua terra, por altura da Páscoa, das vindimas ou perto da altura do Natal.


        A ascensão à qualidade de citadinos enriquecidos passou sobretudo pela imagem e pela linguagem. Antes de mais pelo modo de vestir e de se cuidar. A saia redonda preta, camisa clara, lenço, avental na barriga e chanatos abertos delas, e as calças castanhas, camisa branca, chapéu e chanatos fechados deles, deram lugar a todo um mundo de cor e novos cortes e texturas do pronto-a-vestir. O sabão rosa ou azul da mercearia e da drogaria deu lugar a infinita gama de champôs, sabonetes e geles dos hipermercados. O cabelo natural apanhado em puxo deu lugar a muita tinta, à mise e ao escorrido, cuidado no cabeleireiro, e o verniz berrante das unhas passou a certificado de modernidade. O vocabulário também mudou, os arcaísmos ficaram lá na terra ou no bairro, e hoje nos supermercados, nos bancos, nos cabeleireiros, nas empresas, nos centros comerciais, na rua ou em qualquer lugar onde se respire, reinam os advérbios de modo, os estrangeirismos, os termos da medicina, os preciosismos e todo o tipo de rebusque. Como diria a avó do Luís, nos idos de sessenta, aprenderam a falar como professoras de liceu. O português deixou de enjoar nas estradas portuguesas, de curva contracurva, para passar a ter náuseas por sobreviver a cinco horas consecutivas ao sol tórrido do Algarve no mês de Agosto, onde chega pela auto-estrada. Passou a acorrer em massa às urgências dos hospitais por causa de comichões e nódoas negras, ascendidas à categoria de reacção alérgica, pruridos, urticária e hematomas e, por isso, a novo grau de gravidade. O português enche as farmácias, florescidas à custa não só da desejável boa saúde dos utentes, mas também de uma panóplia de cremes, pomadas, pastilhas e bugigangas que só servem para entreter muitos com a ideia fútil de serem gente supostamente informada e cuidada. E aí se o salário ou o subsídio do estado não é suficiente para pagar todo este arsenal de luxos entorpecedores. Se isso acontecer vamos ter de ouvir vezes sem conta que o país está de mal a pior e falta o essencial, a miséria grassa e a saúde dos portugueses está em causa. Quando os portugueses cuja saúde está em causa são felizmente menos, apesar de serem cada vez mais os mesmos. Gente sem tempo de antena nas televisões e nas redes sociais, que vive de muito pouco, apesar de trabalhar uma vida inteira, e que nunca teve acesso a maior instrução. Gente sem capacidade de se fazer ouvir, ou porque acredita em coisas fora de moda, como o respeito pelos outros, ou porque tem medo de exigir o que merece, ou vergonha de viver da pedinchice, vista em concidadãos espertalhões. Porção do país desprezada por quem perora na comunicação social e redes sociais e por quem decide no Estado, e permite que essa fatia do país viva de salários e reformas miseráveis. Gente que nunca deixou de ser pobre, no campo ou na cidade. E mudos, longe dos gritos entoados sem esforço digno de consideração dos reivindicadores profissionais de regalias e privilégios, vivem com o pouco conquistado pelo esforço do trabalho e da contenção. Respeitar esta gente muda, reconhecer o seu valor e pagar o devido parece menos importante do que subsidiar os inúteis voluntários e fazer frente ao fosso entre sugadores e explorados.


        O grande fosso do estado novo, que dividia o país numa trincheira que salvaguardava a pequena minoria de privilegiados do país restante, pobre, analfabeto e opaco deu lugar à transparência dos muitos fossos. Fora desta trincheira, mantida até hoje bem à vista, na perspectiva económica, porque os altamente privilegiados continuam a sê-lo, estando o poder económico ainda mais concentrado em poucos, existe um sem número de outros fossos, o que separa o campo esquecido e a cidade prometida, como se a primeira tivesse sido proscrita do futuro e carimbada com o rótulo de passado, a visitar numa escapadinha de memória nostálgica.


       O fosso que divide o trabalho precário e mal remunerado do sector privado, do trabalho mais seguro e melhor remunerado na função pública, ou o fosso que divide empresas entre as que produzem e as que vivem à custa do erário público. A alusão a estas desigualdades é sempre sujeita à acusação de se estar a criar conflito desnecessário entre portugueses, e vai continuar a consumir a riqueza do país, não permitindo que se desenvolva e crie verdadeiro conforto aos portugueses como um todo. Medo de enfrentar a realidade, decorrente do poder encrustado em lugares na função pública e do tecido empresarial dependente do estado, leva governantes e fazedores de opinião a alimentar a fábula impostora do perigo da implosão do regime democrático, caso se mexa nessa base estável de eleitorado. Pretende-se, tão só, a perpetuação do status quo, através manutenção da base eleitoral dos partidos representados no parlamento, assente em aparente democraticidade dada por encenações de inconsequentes debates de ideias e críticas, que qualquer ser humano sensato percebe ser fantochada para entreter a opinião pública cada vez menos submissa e capaz de engolir o engodo. À custa da evidente pobreza do país, quando comparado com o que poderia ser, no seio da união europeia, e da perpetuação de desigualdades económicas e sociais gritantes.


       Os debates são invariavelmente os mesmos. Pela esquerda o bolo deve ser entregue a quem tem fome, pela direita quem tem fome deve ter acesso ao bolo. Para os primeiros o custo da entrega fica a cargo de quem não tem fome, ou pelo menos não tem tanta fome quanto quem tem mais fome. Para os segundos o acesso decorre do grau de capacidade do esfomeado para aceder ao bolo. A esquerda e a direita encontram-se no ponto de convergência dos mínimos civilizacionais, representados na defesa do estado de direito, que é a verdadeira sopa de pedra. Tem tudo, menos a pedra. A elite civilizada, venha de que quadrante político vier, que teve o tempo, a sorte e às vezes o empenho, de perceber a superioridade moral dos estados de direito resultante da distância que marca do olho por olho e dente por dente imposto pela barbárie, não parece perceber que o estado de direito não é um dado adquirido, mas uma vitória ou derrota a cada momento e, sobretudo, se a lei deve ser geral e abstracta, quem a decreta, executa, administra e quem com ela se conforma, é particular e concreto. O que muitas vezes significa que a defesa intransigente dos ditos mínimos civilizacionais, sem conhecer o terreno de aplicação das leis e a natureza humana, tem o efeito contrário ao pretendido, criando injustiças muito maiores das que se pretendem combater. A defesa insensata do estado de direito é, em alguns casos, o escudo onde se esconde a preguiça civilizada na aceitação das maiores aberrações, e o bem-comum, a pedra perdida desta sopa.


A ler

“Entre 20 e 25% dos cuidados médicos são desnecessários e até fazem mal”, apontam especialistas, no MultiNews da Sapo.



A comunidade médica internacional, reunida na Fundação Calouste Gulbenkian, reforçou o aviso aos profissionais: é preciso que escolham criteriosamente os cuidados a prestar e evitem a sobreutilização dos recursos. Muitas práticas são, na verdade, desnecessárias e até prejudiciais para os doentes, apontou esta terça-feira o jornal ‘Expresso’. Afinal, entre “20 e 25% dos cuidados médicos são desnecessários e até fazem mal. São os casos dos efeitos adversos de medicamentos, exames desnecessários, entre outros”, garantiu Jeremy Grimshaw, do Instituto de Investigação do Hospital de Otava, Canadá.


[...]


Alguns dos exemplos são o desaconselhamento de check-up anual, testes sem benefício comprovado para diagnosticar múltiplas alergias, suplementos dietéticos não vitamínicos, produtos homeopáticos, ecocardiograma ou prova de esforço de rotina, evitar a vacinação em caso de doença ligeira mesmo com febre ou citologia cervical (papanicolau) em mulheres entre os 25 e os 65 anos.



*


Peço desculpa por me armar em parvalhona. Mas ando a dizer isto há anos. Claro que dito por mim tratava-se de conversa de café ou bocas. Ainda bem que tantos anos volvidos se tenham reunido especialistas na Fundação Calouste Gulbenkian para chegar a esta difícil conclusão. 


Só uma nota. Ao dizer que os portugueses se excediam nos cuidados de saúde e no uso bugigangas das modas da saúde, com a conivência e benefício dos médicos e farmacêuticos, era vista como insensível e desconhecedora da realidade. Ainda bem que frequento centros de saúde e hospitais, autocarros e paragens junto a bairros sociais e que toda a vida me dei com toda a gente e estive atenta aos seus hábitos, afastando-me das redomas.


Pena que estas notícias surjam em alturas em que é conveniente dar cobro ao desinvestimento no Serviço Nacional de Saúde e não no tempo devido, por simples critério de verdade.

Inveja

Há domínios em que não enfio a carapuça da acusação de invejosa. Como é tradicional dizer que os portugueses são invejosos tornou-se táctica de quem usa meios sujos para conquistar vantagens económicas ou estatuto atirar essa acusação sobre todos que denunciam as artimanhas. E como mais do que invejar, os portugueses cobiçam, logo os trapaceiros têm um magote de aduladores: oh, tanto protagonismo e brilho, vou-me encostar, pode ser que sobre para mim.


Mas há matérias em que me assumo mesmo invejosa. Na questão de gosto. Adoraria possuir sentido estético mais apurado. Aliás, apurado, pura e simplesmente. Chegava, por pouco que fosse, já que pouco me tocou do dom de saber embelezar. Não só em matéria de vestuário, mas também de decoração de casa. Há casas e gente cujo sentido estético me deslumbra. O belo parece nascer-lhes do nada. Descomplicam sem perder o essencial. São criteriosos, sem ser caprichosos. Desprendidos sem cair na vulgaridade. Transportam consigo a alma da beleza sem ostentar. Simplesmente deixam que exista perto de si. Respiram beleza. Admiro gente assim.

Jamie Cullum

19/09/2022

Recapitulando


 


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        Se do Carlos Alberto e outros colegas e amigos de liceu, perdera o contacto, com a Helena conseguiu restabelecê-lo por volta de 2011, quando a filha mais velha ingressou no ensino superior. Sem alarde e contrariando a intenção dos pais, que concordavam casasse em Espinho, numa pequena quinta com casa destinada a festas, a Helena resolvera casar em Coimbra, onde vivia desde os dezoito anos. Tinha plena consciência que a decisão de ir para Coimbra, e de lá permanecer depois de acabado o curso, fora a mais acertada da sua vida. Desta forma, conseguiu espaço para respirar e ganhar a autonomia necessária, e confiar em si própria, vingando como gente. Não via a Ana Paula desde o jantar de convívio em 1996. Por isso, estranhou quando, em 2011, recebeu o telefonema da amiga de infância, a comunicar que a filha mais velha, Inês, iria para Coimbra fazer o curso de design e multimédia, pelo que, disse-o sem rodeios, contava com a velha amiga para dar o apoio necessário. E, nos três anos seguintes, os encontros sucederam-se um pouco contra vontade da Helena, cuja tranquilidade entretanto alcançada já não fazia tolerar as invasões de espaço e a falta de freio da antiga amiga, que se pespegava em sua casa com marido e filhas, a atazanar alguns sábados. Tardes passadas a seis. As miúdas deslocadas na sala apinhada de livros, vinis e cd, esses estranhos objectos do século passado, que sobreviviam naquela casa lado a lado com plantas da mais variada espécie. O par de homens a procurar temas de conversa comuns entre silêncios custosos, que só se diluíam no desviar do olhar para a televisão. O comando a distância conveniente de duas jovens curvadas sobre os smartphones, por onde deslizavam os polegares. E o par de mulheres em que uma falava quase interruptamente e a outra balbuciava hums, hums, pois, pois, e outros monumentos da eloquência, intervalados com tentativas de desviar a conversa de assuntos que não se cravassem em coisas ou pessoas. Em tentativas raras de agradar aos donos da casa e, num misto de vontade de exibir a sua ilustração, a Ana Paula recordava tempos antigos, o expendido filme de culto do genial Tarantino, o Pulp Fiction, ou os saudosos e fantásticos Nirvana, e seu som alternativo. Filme de culto e música alternativa eram expressões adquiridas nos anos noventa e que a elevariam ao patamar das pessoas que riscavam. Ou seja, da mole de gente que consumia e gabava tudo quanto era vendido com o rótulo de exclusivo.


       Mas, como sempre, o mais marcante destes ocasionais sábados era a preponderância imposta pela Ana Paula. Gostava da ressonância das suas palavras, gostava de se ouvir e gostava que a ouvissem. E falava por cima dos outros. Achava perda de tempo ouvi-los, a não ser que lhe contassem uma história de intriga, daquelas que detonam a curiosidade e a bisbilhotice. Saber dos outros, como se sentiam face a determinado acontecimento ou circunstância, o que os interessava, o seu dia, as suas alegrias e tristezas, era tudo desperdício de tempo. Do ponto de vista da Ana Paula, o tempo seria sempre melhor usado a falar de si própria ou a falar de agrados e ódios do que a ouvir os outros, que acha invariavelmente terem vidas chatas ou sem importância. Tudo gravita à sua volta. E mesmo como mãe, apesar da aparência de mãe zelosa, cuja imagem promove junto de familiares, amigos e colegas de trabalho, dando a ideia de mãe galinha sempre a par da vida das filhas, a verdade é que as trata como meros satélites. Nunca lhes dera importância como seres autónomos que merecem respeito, atenção e incentivo pelos seus interesses, escolhas e decisões. Não havendo coincidência exacta com aquilo que considera ser a orientação certa dos satélites, despreza todas as vontades, opiniões e decisões, não por prejudicarem os rebentos, mas pelo motivo fútil de não corresponderem à imagem de sucesso que criou ou tão simplesmente por não ter tempo ou pachorra para as aturar. Duas palavras a definem: primeiro eu.


       A filha mais velha, a estudar em Coimbra, era rapariga determinada e segura de si. Puxara à mãe, impondo-se facilmente aos outros. Já a Mariana, era uma miúda retraída e confusa. Sofria de sensação de inadequação e, em família, não conseguia ultrapassar as dificuldades. A mãe e a irmã eram incapazes de a compreender e de permitir que manifestasse o temperamento. E, ao cabo dos anos, o retraimento crescia na directa proporção do aumento de investidas no seu espaço de afirmação, criando o círculo vicioso que dificultava a definição do carácter da Mariana. A Helena percebeu facilmente os sinais, e aproveitou alguns momentos daqueles sábados, para conversar com a ela, dando respaldo que a miúda até, então, só encontrara em amigos da sua idade. À Ana Paula parecia estranha a cumplicidade estabelecida entre a filha e a velha amiga. Como é que uma miúda de quinze anos alinhava nas tretas desenxabidas, como plantas ou pintura, e gostava daquela casa tão pouco clean. O pó dos tapetes, dos livros, das telas e das plantas impressionavam negativamente a Ana Paula, que se tornara obcecada pelas limpezas, por causa das alergias. Além de mais a leitura, a pintura e a jardinagem eram coisas de reformados e desocupados. Gostaria que a filha se interessasse por coisas próprias das raparigas actuais. Que criasse uma página na internet sobre cosméticos, ou desenhasse uma colecção de biquínis ou monoquínis, como a irmã fizera com grande sucesso entre as amigas, ou um blogue sobre moda ou viagens. Qualquer coisa assim feminina e desempoeirada. Mas a filha mais nova desiludia-a; tinha interesses e amigos esquisitos e chatos, e agora mais esta, achava piada aquela casa cheia de poeira.


18/09/2022

Espanador

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Uns curtos, outros longos, uns pessoais, outros objectivos, uns sobre o longo prazo outros em cima do momento, uns com cunho, outros mais plásticos, aqui estão os textos da primeira ronda a espanar o mundo, publicados entre Setembro de 2020 e Maio de 2022. Se tiver juízo, nos próximos tempos começarei a escrever sobre países europeus (a ideia de aqui reafirmar isto serve mais para me incentivar a fazê-lo do que para anunciar - há quem precise de permanente auto-motivação para seguir em frente).


 


Das intenções


1. O espanador - E.U.A.


2. O espanador - Venezuela


3. O espanador - Peru


4. O espanador - Brasil


5. O espanador - Áustria


6. O espanador - Hungria


7. O espanador - Angola


8. O espanador - Nigéria


9. O espanador - Moçambique


10. O espanador - Rússia e Ucrânia


10.A. O espanador - Ucrânia


11. O espanador - Turquia


12. O espanador - Síria


13. O espanador - Israel


14. O espanador - Índia


15. O espanador - China


16. O espanador - Coreia do Norte


17. O espanador - Nova Zelândia

Regresso à rotina

Foram 15 dias e ao contrário do que se costuma dizer das férias, não direi que pareceram uma eternidade, mas foram bem esticadinhas - ai credo, usar diminutivos, crime de lesa majestade. A sensação é a de há muito me ter distanciado do trabalho vindo para casa, tão lá atrás ficou no espírito. E afinal foram só duas semanas. Amanhã é dia de voltar à rotina, manhãs com café apressado, autocarros, muitas solicitações, corridas à hora de almoço para vir a casa, chegar a tudo até ao fim da tarde, tempo de distender do corre-corre e ainda assim a última agitação ao entrar em casa esbaforida vinda do supermercado ou de outra qualquer obrigação. É a vida de muitos e muitas. Na maioria das vezes, e não havendo contrariedades domésticas, tudo acalma ao serão. Em paz adormecerei e bem disposta acordarei.


Ainda faltam quatro dias de férias para gozar, dois em Outubro, dois em Dezembro. E já tenho em mente ideias para as férias do próximo Verão. Convém é até lá não me desgastar com idiotices alheias (e próprias, também as há), cortar a direito e em definitivo com o que é reles e valorizar o que de facto tem importância e significado.


Quanto ao blogue, ainda estão por pensar e escrever os posts para o Espanador. De resto hoje o cérebro esvaziou: nada em mente. A partir de amanhã sairá o que ocorrer no momento, aliás, como já vem sendo usual.

Brevíssima

Da escória saloia ascendida nunca esperes atitude digna. Deves contar com dissimulação, artimanhas e pelintrice. 


Bem caracterizas há anos as auto-promovidas elites de fancaria portuguesas. Hoje topaste com mais um pequeno episódio sórdido de um dos exemplares, que vive do encosto, da troca de elogios e favores de tribo, na podridão usual que os define. É só mais um. 

A ler

Wolfgang Beltracchi, o meu avô e a arte do engano: uma história verdadeira de intrujões supremos, de Sandro William Junqueira, no Observador.


 


Beltracchi, aproveitando os espaços em branco nos catálogos de grandes pintores e o desaparecimento de inúmeras obras durante a vigência do Terceiro Reich, pintou quadros de fazer inveja rebarbada a Max Ernst ou Heinrich Campendonk, vergados pela tragédia de não terem sido eles próprios a assinar aquelas telas. Beltracchi não copiava. Beltracchi, roubando a técnico e o estilo, pintava obras das quais só se suspeitava a existência. Quadros que nunca tinham sido vistos. Afamados críticos de arte não tiveram pejo em afirmar que eram aqueles os melhores Max Ernst alguma vez expostos e apreciados em galerias, museus ou coleções privadas. Aqueles, os pintados por Wolfgang Beltracchi.


[...]


Maurice F. Gonalons, escritor francês de terceira linha, que publicou meia dúzia de livros anódinos nas duas última décadas do século XX, talvez conhecesse as façanhas de Beltracchi, mesmo não conhecendo as diatribes do meu avô. Cansado da falta de visibilidade e atenção que o seu trabalho talvez merecesse, decidiu dedicar-se à obra da sua vida. Nessa empresa, destruiu o casamento, foi rejeitado pelos três filhos e teve de vender a casa que tinha herdado dos pais na Bretanha. Pondo de lado as obrigações terrenas, partiu em busca, qual garimpeiro metafisico, de textos desconhecidos de grandes autores da literatura mundial.


Trabalhou obsessiva e compulsivamente durante anos na compilação de Du Tiroir à la Lumière. Uma reunião de contos inéditos de autores como Anton Tchéckov, Raymond Carver, Flannery O’Connor, William Saroyan, Dino Buzzati, Julio Cortázar, Marguerite Duras, entre outros. O livro teve algum impacto no meio editorial francês, mas a grande vitória de Maurice F. Gonalons já estava assegurada. Nenhum daqueles contos pertencia de facto a quem o livro dizia pertencer. Gonalons, imitando o estilo, a técnica, a semântica, os temas, escrevera ele próprio a prosa daqueles textos sem que ninguém do meio literário francês tivesse sequer suspeitado da autencidade dos mesmos.


Falsidade

Já me havia esquecido. O tempo faz-nos contemporizar com atitudes que não devíamos deixar passar em claro. Mas hoje a propósito de uma leitura recordei o momento em que tive uma discussão, iniciada por mim de modo duro para defender o que considero essencial. Continuo a julgar ter razão, mas isso é o que menos interessa. O importante é o modo como cada um está na vida e o tipo de armas que usa. Finda a discussão logo surgiram pessoas em meu entorno a apoiar-me e elogiar-me, e o que fiz? Silenciei-as. Por não querer ataques fáceis a quem me opus, não querer claques, nem precisar de intriga para fazer prevalecer os meu ponto de vista. Que fez a outra parte? Silenciou quem o punha em questão e me apoiava (sendo que não conheço quem defendia a minha posição), preferindo dar voz apenas a quem me diminuía. São formas de estar na vida. É nos pequenos pormenores que se revela o carácter. Não escrevi isto na altura por achar uma menoridade ou mesquinhice, mas não é. Estou fartinha de ver gente a afirmar-se à custa da desonestidade (apregoando valores que não pratica) e de sempre condescender, pondo a hipótese de ser eu a estar errada. Não, não estou. E não me devo deixar levar pela retórica e falinhas mansas, que em nada jogam com as acções dos seus autores. Estou farta de iluminados e de heróis da fava rica, todos muito parecidos. 

16/09/2022

Passeata

Dia de voltinha. Depois do almoço na Póvoa de Varzim, passagem na Praia da Memória em mais um giro usual dos tempos de criança. Leça da Palmeira tinha, no meu estranho gosto, grandes atractivos: a Refinaria, o Porto de Leixões e o Farol da Boa Nova. Não me perguntem a razão, creio que nunca fui incentivada a apreciar paisagem industrial, mas o certo é que as refinarias, os portos, as cimenteiras despertavam-me imenso interesse. Ficava extasiada, achando paisagens atraentes ex libris como as Fábricas de Cimento da Secil na Serra da Arrábida e, cá no Porto, em Massarelos. Chamem mau gosto e falta de consciência ambiental, mas a vida é como é e os gostos também. Não vale a pena fazer de conta e fingir.


Deixo imagens de hoje do Farol da Boa Nova, da Refinaria (desactivada) e do Porto de Leixões.


Crescendo a ouvir histórias que dividiam os meus antepassados entre conservadores absolutistas e impetuosos liberais, que acabaram casados e bem dados como mandam as leis da sã reconciliação, do amor e da conveniência, a Praia de Memória é destino anual: lá vou dar a voltinha, pasmar com o mar do dia e comprovar que está tudo sereno.


Deixo fotografias de hoje do Obelisco da Memória.


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Fim de férias

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Não podia acabar as férias sem dar um pulinho à Póvoa de Varzim.

Trilho

É nas alturas em que perco, entre os poucos, mais "seguidores" (credo, é medonho escrever esta palavra), que percebo estar a trilhar o caminho certo.

15/09/2022

Por falar em chuva

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A chuva convida a um chá preto e torradas.


(A introdução dos guardanapos na mesa de chá é minha, não foi assim que aprendi - lá está, simplifiquei e abandalhei um bocadinho.)

Rua de Miguel Bombarda

Mais um hábito incutido pela minha mãe desde cedo: visitar galerias e museus. Por essa razão, a Rua de Miguel Bombarda é muito dos meus conhecimentos. Com a mãe, amigos ou sozinha muitas vezes a calcorreei e tantas vezes me apaixonei por telas expostas nas várias galerias que vão salpicando alguns prédios da rua.


Hoje, dia de reabertura do Mercado do Bolhão, justamente promovida pela comunicação social (não pode senão festejar-se o facto), recordo esta rua onde é raro ver turistas, todos aglomerados na Lello e no Majestic ou noutros locais despersonalizados da cidade ao serem transformados em produtos de merchandise.


Deixo em imagens um pouco do que vi ontem à tarde.


(Agora ao rever o post, para tentar que não passem gralhas nas poucas palavras, apeteceu-me um cigarro.)


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Prescrição médica

Hoje foi manhã de consulta. Após 45 minutos de conversa a médica, que conheço há uns bons anos e sempre dá bom tempo, disse-me que nunca lhe tinha falado de mim salvo aspectos profissionais (vou começar a dar o endereço das Comezinhas aos médicos para os pôr a par da minha vida pessoal tintim por tintim) e que nunca me viu tão bem. Logo hoje que lhe contei parte dos os meus dramas, caramba. É impressionante o que podemos ganhar quando nos dispomos a ser francos e abertos. No caso pude conhecer as melhores qualidades profissionais da médica. Gostei de ouvir as apreciações e os conselhos. Entre muitos e bons, disse-me: não pode mudar desse marido. Já desconfiava que estava atada, mas agora tenho a prescrição médica: conservar o Nuno.

14/09/2022

Cadeia da Relação

Hoje iniciei a tarde na Antiga Cadeia e Tribunal da Relação do Porto. Se pretenderem saber um pouco sobre a sua história podem consultá-la aqui. O edifício alberga, desde 2001, o Centro Português de Fotografia. A entrada é livre. Escuso-me fazer visita guiada em texto, mas aconselho o programa. Deixo só um apontamento trivial que me contaram: quando criança, alguém hoje com 78 anos, receava passar nas contíguas Rua e Travessa de S. Bento, uma vez que era usual os presos arremessarem lixo aos transeuntes por entre as grades das janelas. Funcionou como cadeia até 1974.


(Quem costuma passar pelas Comezinhas já sabe que, em regra, a qualidade das minhas fotografias é má. Parecerá desculpa, mas não é de todo isso que mais me importa.)


Deixo a ligação ao vídeo da RTP Ensina sobre as Memórias do Cárcere, nas quais Camilo Castelo Branco - detido nesta cadeia tal como Ana Plácido, pronunciados por adultério -, relatou as condições deprimentes das prisões oitocentistas e testemunhos de outros presos.


 


O edifício histórico


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Exposição Fernando Lemos - Na Estrada do Surrealismo


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Exposição Gentes, Lugares e Quotidianos


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Exposição A Luz da Infância


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A Sala da Memória


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