Lembro agora, ao acordar de uma soneca no sofá após jantar e ouvir a sagrada dupla mediática da temporada Rogeiro/Milhazes (não é sarcasmo, se lerem as Comezinhas atrás podem perceber que os aprecio), os grandes pensamentos que me ocorreram ao fechar o estaminé ao fim da tarde. Bem, em rigor ao acordar pensei no recorrente, mas isso não merece registo, cedo ou tarde há-de ir a enterrar. Um pouco depois recordei detalhes que denotam falta de respeito pelo outro e no segundo caso indecência: o pedido descontraído para que alguém recorde o atarefado de uma obrigação e a pilhagem de ideias em proveito próprio. Ora, vou explorá-las sem me demorar. Quantas pessoas, sobretudo mulheres, dão por si a terem montanhas de preocupações e assuntos a tratar e ainda assim fazerem de babysitting ou secretariado de gente que se diz muito ocupada e sem tempo para gerir a própria agenda de compromissos. Trata-se em muitos casos de puro abuso. Quanto à segunda. Não raro assistimos à pilhagem indiscriminada de ideias ou apontamentos de várias pessoas por quem cria conteúdos (como é uso dizer). Já assisti ao caricato do pilhado fazer notar ao apropriador que disse aquilo em tal momento e o último assobiar para o ar como se tivesse descoberto a pólvora. Não viria mal mundo, antes pelo contrário, se o uso fosse em benefício de todos e não em proveito e vaidade de quem pilha. A diferença parece ténue, mas é muito fácil de traçar. Gente educada e de carácter (de facto e não na aparência) percebe bem essa linha divisória. Agora crescer à custa dos outros e quando a coisa corre mal falar de inveja e denegrir as fontes do conhecimento é de total pobreza de espírito. Esperteza saloia no seu esplendor. O mundo não está para os inteligentes, mas para os espertos. E até estas notas que acabei de escrever podem ser em pequena parte pilhadas para um qualquer florete de retórica oca. E nada disto tem a ver com a natural e salutar inspiração mútua que continua muito recomendável.