Era para ser mais uma mexerufada, batido de ideias, torta de bitaites, mas saiu o título de amálgama e vamos ver no que dá, que nada está planeado, quando muito alguns pensamentos afloraram na mioleira nos últimos dias e por nenhuma outra razão senão essa passarei a registá-los agora.
Começo talvez pelos sonhos da semana passada e em rigor neste exacto momento não me lembro deles, sei apenas que na altura pensei em escrevê-los aqui e não o fiz. Faço um esforço de memória e por isso os meus dedos páram de dedilhar. Dez segundos mais tarde, talvez nem tanto, descubro-os. Dez segundos pode ser uma eternidade quando estamos a conversar com alguém. A ideia que não sai, a palavra que esquecemos e o uso de outra ao lado que não traduz em rigor o que pensamos ou sentimos. A distorção do diálogo, os equívocos. Enfim, infinidade de pequeníssimos dramas da existência. Voltando aos sonhos da semana passada. Numa das noites foram muito simbólicos. Nas outras já nem me lembro o que sonhei. Os relevantes da tal noite dividiam-se em dois momentos. Aquele em que percorria a berma de estrada junto da qual se estendia um grande campo de milho. Caminhava e via-o em movimento. Sucede que o milho não estava nas espigas, mas numa espécie de pasta amarela, como se já tivesse sido moído mas continuasse com a cor exterior do grão, naquele belo dourado. As longas folhas e a haste da planta tinham agarrados pedaços de milho esmagado, meio húmido. E noutro momento segurando um ramo de pé só de folhas de japoneira me aproximava de outras árvores, como o castanheiro da Índia (que não o é) ou da magnólia, colocando-o junto às folhas dessas árvores e outras para ver se ligavam bem. Assim como quem escolhe duas peças de roupa e não quer que elas berrem muito entre si. Claro que fui ver as interpretações dos sonhos e são positivas. Longe de explicações bem mais reais e plausíveis como o facto de gostar de campos de milho e de em criança me tentarem incutir o gosto por arranjos florais. Arranjar jarras com folhagem e flores foi uma arte feminina em que me tentei esforçar em miúda com pouco sucesso mas muita alegria - um tempo que não volta. Também sonhei na semana passada, lembro agora, que tinha feito uma viagem de dois meses em trabalho a Luanda. O curioso dos meus sonhos em Angola, é que têm lugares e edifícios que só conheço desse mundo onírico. Uma praia com areia grossa que sempre surge quando a dormir atravesso o equador, mas parece uma qualquer praia do Norte de Portugal, e tem a curiosidade de por qualquer razão eu nunca chegar a entrar no mar. É muito distinta da Baía de Luanda, da Ilha ou do Mussulo, que conheci e onde nadei. O átrio do Hotel onde fiquei a dormir também é o mesmo de sempre e não é dos meus conhecimentos reais. Revisito-o em sonhos, apenas. As ruas são mais parecidas com as que vi e por onde andei, mas ainda assim acordo sempre com aquela sensação de ter estado num lugar irreal, só meu - é estranho haver sítios que não possam ser experimentados por outros, ou será que podem? Um dia, se tiver juízo, disciplina e persistência, tentarei em vão responder a esta questão nas Tílias. A parte cómica deste último sonho sobre Angola, é que a viagem de ida e volta - sim, trato destas coisas como se fosse o vaivém habitual a Lisboa - custou 300 euros, estando radiante por isso. A sovinice acompanha-me a dormir, registo.
Mais coisas? Continuo sem planos sobre as próximas linhas, se bem que mais uma vez já tinha qualquer reacção em mente quando há uns dias espreitei uns blogues. Alguém de quem li vários postais que me encantaram e a quem acho piada na escrita, aconselhava de modo muito franco e cuidadoso entre outros comportamentos: não descrever banalidades do dia-a-dia, ficcionar em vez de relatar a própria vida e procurar temas da actualidade que atraiam leitores. Vou por partes, dizendo o que penso sobre estes assuntos. Não escrever banalidades pode parecer um conselho avisado. Todos ficamos um pouco incomodados com as banalidades (às vezes, vulgaridades) do próximo e não é preciso avisar ninguém sobre o público que atraem, os autores sabem-no, mas sinto-me cada vez mais afastada da crítica ainda que bem intencionada ao kitsch. Contra todos os clichés se impuseram os contra-clichés de comportamento. Para dizer a verdade, se na primeira metade da vida me irritavam os clichés, na segunda aguento pior os contra-clichés, por se traduzirem na imposição de normas comportamentais que visam cercear a liberdade de movimentos dos outros. Além de mais, é começando pelas banalidades que se aprende a escrever sobre temas de maior envergadura. Quanto ao conselho de ficcionar, só comento que é preciso haver talento e não se pode exigir a todos. Agora o procurar temas quentes, aqui é que discordo com mais veemência. É um conselho muito disseminado e parece-me que só tem um sentido útil: arranjar clientela. Ora, por mais que seja evidente que quase todos escrevemos para ser lidos, vamos com calma. Nem todos desejamos resmas de leitores. Nem ter mais leitores é sinónimo, muito menos em exclusivo, de qualidade. Alguns satisfazem-se mesmo com poucos. Além do que é uma sensaboria correr 30 páginas e ver não só os menos temas tratados, mas ainda por cima as mesmíssimas opiniões expressas ou então pingues-pongues entre claques. A riqueza de espaços onde vivemos online está na diversidade. Haver gente que se afasta dos temas quentes só pode ser bom. Cabemos todos sem figurino pré-definido. Para lá de tudo, é uma questão de pensar um pouco sobre o que teria acontecido no passado se vários nomes maiores das artes tivessem decidido ficar tolhidos por conselhos benévolos e contraproducentes.
Por fim, deixo um balanço provisório de três meses de caixa de comentários aberta nas Comezinhas. A balança pesa francamente para o lado positivo. Uma coisa é certa: não era justo comentar noutros espaços não o permitindo aqui. Mantive-me assim durante quase três anos apenas por instinto de defesa, para não ser obrigada a responder a quem não me apetece aturar. A ideia nunca foi mostrar-me intocável, pelo contrário, sem peneiras, ao escrever em várias caixas de comentários, sempre me sujeitei ao que desse e viesse. Simplesmente, as regras de boa educação, e não de etiqueta, também explicam a reciprocidade. São pouquinhos, felizmente, e é com enorme gosto que vejo por cá gente na casa de quem deixei comentários ou leitores que já me acompanhavam há muito tempo e decidiram dar-me o gosto de deixar aqui uma palavra. Obrigada. E desculpem o longo comprimento de alguns postais, mas já sabem: gosto de me estender.