Na meninice fui muito feliz em Serralves. Lá passei esta manhã de quinta-feira e não decepcionou. Ontem ao ver a página online temi, como muitas vezes acontece nos últimos anos, ir parar ao antro dos conceitos e paradigmas - é como quem diz: à intelectualidade vã. Alguém há pouco comentava - não me lembro de quem - que Serralves se tinha transformado num espaço excessivamente intelectualizado. Também era essa a minha ideia e, talvez por isso, tenham decorrido vários anos sem lá pôr os pés. Bom, as filas ao fim-de-semana também afastam. Mas não posso esquecer que foi esta casa que me apresentou Goya, Picasso e Miró na viragem da década de 80 para 90. Tal como não esqueço os lanches de luxo nos jardins. Creio que a minha última entrada foi há mais de 10 anos, à noite, no programa Serralves em Festa. Hoje continua a haver programa nocturno: Serralves em Luz. Talvez me tente.
A visita de hoje dividiu-se em dois momentos, o da crosta e do miolo. Tal como o pão, esse alimento fora da moda lifestyle, a Fundação Serralves tem por onde saborear e muito se aproveita. Na crosta, no exterior, podemos passear pelo parque e nos últimos anos gozar de uma zona de passadiços ao nível das copas das árvores. É um percurso pequeno, mas muito recomendável. Podemos passar rente à Casa do Cinema Manoel de Oliveira e dar com a esplêndida buganvília. Ou, junto à bilheteira, ver a bela magnólia enquadrada nos traços do Museu idealizado por Siza Vieira. Não sigam a ordem da descrição para futuras visitas: desordenei-a em função das imagens que me vêm à cabeça, fazendo questão de não harmonizar a pequena descrição com a cronologia da manhã, senão por breves momentos.










Sigo agora para o miolo. Na Casa de Serralves propriamente dita, cujos jardim e fachada são a imagem de marca da Fundação, está a Colecção Miró. Não adianto muito senão que foi bom revê-lo, provocador e alegre, ao contrário da opinião de quem comigo observou as telas, tal como havia feito há 30 anos (outras). Não preciso, nem precisei há 30 anos, de explicações adiccionais - se bem que são úteis e convenientes ao entendimento da obra -, para deixar-me seduzir pelo pintor catalão. A mim o artista explica-se muito bem pelo traço e gozo. Não preciso mais. Sou muito fácil de contentar.










No Museu de Serralves - do arquitecto Siza Vieira - estão várias exposições, tendo visto apenas a de David Douard. Devo estar em dia muito bom: ontem achei que iria vê-la tão simplesmente para me obrigar a conhecer - educar o gosto, como é uso dizer - um artista francês nascido em 1983, isto é, novo. E não é que gostei? O nosso cérebro habitua-se de tal modo ao já visto e admirado, que as catadupas de obras já consensuais aos nossos neurónios repelem o novo ou divergente. Tenho a mioleira plena de luz e sombra renascentista, cheia de beleza e sentimento oitocentista, apinhada da confusão eléctrica e provocadora da primeira metade do século XX. Agora, há que arrumar a casa e dar espaço ao mais recente. Caso contrário, crio mofo, e não quero as células nervosas embutidas na naftalina - é este o espírito de hoje, amanhã pode mudar. Além de tudo aprendi uma palavra nova - assemblagem -, que diz a Wikipédia (essa página que os bem-pensantes desprezam e jamais admitem consultar, apesar de se notar que o fazem), "ser [o termo] usado para definir colagens com objetos e materiais tridimensionais". Acabei a ronda pelas instalações deparando-me com uma maravilhosa língua afiada - não vi sequer o nome da obra, mais tarde vou consultar por curiosidade.





Quase a final, um detalhe. À saída, na zona do bengaleiro, sem pompa nem circunstância, os meus olhos míopes pousaram à distância num pequeno conjunto de preciosidades. Aproximei-me e eram sete gravuras (?) de Paula Rego. Perdoem-me o bairrismo, mas o pormenor define a cidade do Porto. Os nossos tesouros podem estar no bengaleiro - esses espaços a que figuras maiores dão peso -, sem holofotes nem pretensões, ali, simplesmente para os que sentem. Assim são o Porto e a sua gente. Foi o bónus desta manhã perfeita.

Nota. A intenção deste postal é apenas compartilhar o que me dá alegria e só não o ponho ao nível da entrada do prato de grão com atum do mês passado por, apesar de gostar, ter sido mais feliz esta manhã do que ao fruir a dita salada. De resto, valem o mesmo. A ideia não é debitar conhecimento que não possuo. Por isso, se tiverem curiosidade nos artistas aqui mencionados, é só (ai credo, oralidade) dedicarem-se a ler sobre eles e ver as obras espalhadas na internet. Têm um mundo de informação ao vosso dispôr. Quanto a Serralves, vale bem a visita. É uma questão de contornar as estuchas intelectualizadas que por lá passam e desfrutar.