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01/09/2022

Ambição

Bem sei que estamos em guerra e há uma central nuclear em perigo. Bem sei que o país está atolado em erros de governação e na política mais rasteira de parte a parte. Mas vai sair mais este postal pessoal sobre ninharias - escrito na passada segunda-feira e actualizado hoje -, de quem se importa com que os outros de si pensam. Facto que normalmente não se admite em público - muitas vezes nem em privado.


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O falso convencimento e a certeza atravessam a voz dominante, numa corrente de circunstâncias veiculadas pelas agências de comunicação e principais propagadores de “factos” nas redes sociais. A pretexto de expurgar do mundo as fake news tudo quanto seja mero bom senso é tratado ao nível de conversa de café. Ou se está alinhado com a corrente dominante ou amparado por tribos, ou se é tratado como ignorante e imbecil. A verdadeira e mais perigosa conversa de café prevalece desde que alçada a facto e verdade dominante. Daqui decorrem consequências nefastas já várias vezes referidas nas Comezinhas, pelo que me escuso a insistir nelas, dizendo apenas quão perigosos são os momentos de desencontro entre o genuíno pensamento e sentimento das populações e as revoadas de opinião das massas que resultam das lavagens cerebrais feitas pelas elites fajutas e gananciosas. A liberdade de expressão e contraditório são enviesados pela manipulação dos meios de difusão. Vive-se na aparência destes valores. E sempre que digo isto (ou algo parecido, mas sumarizado) sei quantos consideram as minhas palavras vagas e inconsistentes e que as ideias não passam de banalidades sem qualquer interesse e densidade – ou porque sou imbecil e nem sei bem o que digo querendo apenas alarde e conflito ou porque brinco com as palavras e as ideias, não as justifico ou provo, possivelmente com a má intenção de pôr em causa a tolerância e a perenidade dos valores democráticos ou mesmo apelar a radicalismos. Não podem estar mais enganados e, posso até ser a mais ingénua das opinativas, mas água mole em pedra dura tanto bate até que fura.


Dizer o que penso sem estar conspurcada com as torrentes de informação, fazendo finca-pé em não deixar formatar o cérebro pelos bem pensantes - recusando o jogo tentador de florete, de troca destrutiva e ad aeternum de argumentos assentes na demonstração casuística -, é uma atitude que gera antipatia, quando não desprezo – não concorro para miss simpatia nem miss esperteza saloia. Se respeito e admiro e disso faço reparo quem estuda, fundamenta e passa conhecimento a outros, não tolero que na ambição desmedida grupelhos usem, calquem e destruam gente cujas qualidades e mérito são manifestos e promovam outras de competência aparente por amiguismo, interesses e conveniências, perpectuando o atraso do país. Tudo em busca de um lugar ao Sol de tribos, sacrificando a honestidade.


Pela experiência de atitude há mais de 30 anos no tempo do liceu, ou há mais de 15 aqui na internet, posso até fazer futurologia, certa de acertar. Daqui a 15 ou 30 anos continuarei e enganar-me, a decepcionar-me e a acertar às vezes, todavia a dizer o que penso, em vez do que é conveniente. E a não jogar sujo. De cá de baixo continuarei a ver os bem-pensantes promover nulidades para a governação e oposição, tantas vezes de forma enviesada, e fomentar o acesso dos chicos-espertos aos lugares de destaque na sociedade. Continuarei na sombra, a lembrar que é esta elite fajuta que impede o país de ser melhor, cruzando-me com uma dúzia de pessoas em cada etapa, aprendendo com elas e tentando contar o pouco que sei – pequenos apontamentos que podem fazer diferença e, admito, com alguma esperança que na boca de outros mais simpáticos passem adiante. Na esperança que haja pequeníssimas mudanças para melhor. A sombra é o meu lugar e é nela que me sinto bem. Importo-me pouco de ficar com o odioso - ganhei calo nisso -, sei que a desconfiança que recai sobre mim é injustificada. Não me pesa a consciência de prejudicar o país e de o usar em benefício próprio e dos meus amigos. Cada um tem a sua ambição: a minha é de a partir do último degrau, no qual pretendo permanecer até morrer, fazer chamadas de atenção aos que lá em cima perdem a noção do respeito pelos outros. Sei, é o cúmulo da pretensão. Mas é mais tranquilo estar cá em baixo - é a prática de uma vida. Apesar de reparar na desconfiança que gero nos que vêem as críticas como inveja e ambição de trepar a todo o custo. Pelo contrário, quanto mais vejo gente em bicos de pés e pouco confiável, mais penso como me sinto e sentirei bem no meu lugar, cá na base - e isto não é lero-lero.