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02/09/2022

Recapitulando

Hoje ocorreu-me este post a propósito dos jornais Público e Observador e dos reflexos opinativos nas redes sociais - das questiúnculas de facção que marcam os dias.


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Independência Zero


por Isabel Paulos, em 16.03.22

 




Quando se vive a vida como quem folheia um catálogo refastelado no canapé em frente ao espelho da vaidade perde-se o essencial. São escolhas: há quem prefira o conforto das alcofas, há quem escolha viver.


Da base da sociedade às mais sofisticadas elites intelectuais o vício é transversal e ataca feroz: o que é não existe pelo que é, pelo seu valor intrínseco, mas pelo ricochete da apreciação na boa imagem no sujeito. Gosta-se ou desgosta-se em função da boa imagem que se dá ao apreciar ou mostrar desagrado. Uma composição musical pode ser excelente, mas se tiver associado algum sinal de repulsa pelas gracinhas aleatórias em voga que faça o sujeito correr o risco de ser tomado por bronco, logo o dito desdenha da música - ainda que a adore.


Uma opinião pode ser cristalina e a mais avisada, mas se for dita por um rival da intriga palaciana, logo é achincalhada pelo viveiro de umas centenas (vá, talvez um milhar) de figuras que vivem nos media, no twitter, no facebook, nos blogs do encosto mútuo e de tecer maledicência sobre os rivais de ocasião. Nem vale a pena tomar as dores de alguns porque os vários grupelhos equivalem-se na baixeza e alimentam-se mutuamente. Para assegurar encosto próprio e dos apaniguados atacam em matilha com reprodução da mesma verborreia entre si, sendo incapazes de agir com independência. São facilmente identificáveis ao regurgitar a cartilha dominante ou reactiva-dominante (estejam certas ou erradas) a papel químico, ao aderir a todos os temas quentes (para os quais normalmente só despertam quando começam a render, estando na verdade a marimbar para a substância da coisa) e ao invocar as mesmas personalidades como referências. Tudo com cada vez maior abstracção e suposta sofisticação de raciocínio - sempre acompanhada de doses consideráveis de dados e informação - histórica ou actual - que servem sobretudo para se demarcarem da massa ignorante que consideram incapaz de pensar e ter opinião válida.


A música pode ser óptima e a opinião dos rivais clarividente, mas sentados no canapé em frente ao espelho ficam ofuscados com a imagem de erudição e carácter, quando o dito reflecte sobretudo soberba, intransigência e prosápia no lugar da espinha dorsal.


Entretanto, o mundo rola segundo as leis da natureza, um tanto indiferente às vaidades e vaipes videirinhos. Continua a fazer-se boa música, o que está certo continua a estar certo e o errado mantém-se errado, independentemente de ser tema quente e o próximo palpite ser inteiramente enquadrável na última alocução de alguma vedeta promovida por cada matilha.