Vestido de alças de algodão azul bebé. Peça comprada em Junho antes de ir para o Algarve no intuito de ter indumentária adequada para entrar e sair da praia. Comprei numa hora de almoço e para minha total surpresa fez sucesso junto das duas colegas de gabinete, na empresa. Tanto que ambas foram à Mango adquirir vestidos iguais noutras cores para usarem nas férias. Surpresa, primeiro por ser tão desligada das modas, depois por ao fim de vários anos caber nos tamanhos normais. Foi assim vestida que hoje apanhei o autocarro 203 com destino ao Castelo do Queijo. Não chamei Uber e prescindi de boleia, exactamente por me apetecer fazer o percurso do autocarro. No momento em que decidi pensei nos meus avós Júlio e Rosa que, como muitos casais do Porto e Gaia, aproveitaram os giros dos autocarros para passearem. Às vezes, quando vejo casais mais velhos muito postos por ordem passear assim, lembro-me dos meus avós paternos de braço dado, muito casal, numa cumplicidade antiga que já não se usa. Ao contrário dos avós maternos, na casa dos quais o automóvel era peça fundamental, os meus avós paternos não possuíam carro. Nunca tal impediu que tirassem partido das pequenas alegrias da vida. Lembro-me de ao fim-de-semana sabê-los na voltinha no carro do cunhado à Quinta da Conceição, em Leça da Palmeira, e tudo mais de curtos trajectos, não havendo automóvel, feito nos transportes públicos.
As férias do meu pai em criança começaram em Pensões e Barcelos era destino. Os meus avós veranearam nas Termas de São Pedro do Sul e mais velhos nas de São Vicente, por ser mais próximo. Houve também a fase do Inatel da Costa de Caparica e de Albufeira. Pelo meio um punhado de idas ao Brasil para o meu avô visitar a mãe - bisavó magra e tesa que perfez ainda os 102, nos meus 28 anos, de quem tenho memória de vez única nos anos 80 -, o irmão e família, há muitas décadas lá residentes. Em Setembro de 1975 os meus avós hospedaram-se no Hotel Baía em Cascais. E foi lá que abriram a porta do quarto ao filho, vindo em definitivo de Angola, em espanto total. Na noite anterior, em Luanda, o meu pai servira de cicerone num jantar especial, por ele sentido como fim de um tempo. Depois de no mês anterior ter seguido em coluna de evacuação de N'Dalatando com destino a Luanda. Numa decisão de momento, apesar da possuir guia de desembaraço há uma semana, meteu-se no avião com pequena mala e o remorso de deixar para trás ainda que por dias quem lhe tinha entregue a vida. Nós - mãe, Eca, tio F., irmãos e eu - já havíamos embarcado em Janeiro, nove meses antes, e vivíamos agora em Valinhas, por a minha mãe ficar colocada na escola em Felgueiras. Diz o meu pai que se lembra de se aproximar do Hotel Baía e ver a mãe (minha avó) na varanda a partir em gomos e descascar uma maçã. Recomeçava uma nova vida, nos primeiros anos ainda em Lisboa, onde vivera com a minha mãe no primeiro ano de casado.
Porquê escrever isto hoje? Por ter andado de 203 com destino à Praia Internacional que, apesar da areia bem marcada por petróleo do qual se sente o cheiro, é boa de calcorrear junto ao mar. Por lá ter jantado num dos botecos do mamarracho Edifício Transparente. E por antes, no início da tarde, ouvir o meu pai contar ao telefone alguns dos episódios acima relatados.