Há domínios em que não enfio a carapuça da acusação de invejosa. Como é tradicional dizer que os portugueses são invejosos tornou-se táctica de quem usa meios sujos para conquistar vantagens económicas ou estatuto atirar essa acusação sobre todos que denunciam as artimanhas. E como mais do que invejar, os portugueses cobiçam, logo os trapaceiros têm um magote de aduladores: oh, tanto protagonismo e brilho, vou-me encostar, pode ser que sobre para mim.
Mas há matérias em que me assumo mesmo invejosa. Na questão de gosto. Adoraria possuir sentido estético mais apurado. Aliás, apurado, pura e simplesmente. Chegava, por pouco que fosse, já que pouco me tocou do dom de saber embelezar. Não só em matéria de vestuário, mas também de decoração de casa. Há casas e gente cujo sentido estético me deslumbra. O belo parece nascer-lhes do nada. Descomplicam sem perder o essencial. São criteriosos, sem ser caprichosos. Desprendidos sem cair na vulgaridade. Transportam consigo a alma da beleza sem ostentar. Simplesmente deixam que exista perto de si. Respiram beleza. Admiro gente assim.