Pesquisar neste blogue

03/09/2022

Recapitulando

Uma tarde inteira a não fazer nada senão matutar enquanto ouvia (e oiço) a smooth fm. Agora ao fim do dia, lembrei-me do post seguinte, que tem pouco mais do que três meses. Ainda não consegui resolver a questão da margem direita no copy/paste. Sei que dificulta um pouco a leitura, desculpem.


Adenda. Afinal já consegui e fi-lo através do método que usava nos primeiros blogues, há quase 20 anos, quer na edição de texto quer nas configurações da página: alterando a linguagem de dados (de marcação, como chamam os brasileiros, por tradução literal do inglês) HTML, da qual não percebo patavina. No caso, alterando os códigos de instrução, ou melhor, copiando-os de um post normal. Às tantas, há formas bem mais fáceis e inteligentes, mas estou-me marimbando, estou contente comigo.


*


Nebulosa


por Isabel Paulos, em 25.05.22

Talvez tenhas exagerado nas recapitulações ao republicar várias de uma vez. Nem sequer foi uma seriação muito cuidada. Adiante. Desde ontem andas com ideia de escrever uma nebulosa sobre a dificuldade em dizer exactamente o que pensas. Há épocas em que o terreno parece estar minado. Custa-te menos expores a intimidade – e custa muitíssimo, apesar de poder parecer que o fazes de ânimo leve – do que declarares o que pensas verdadeiramente sobre o tempo presente e o que se avizinha ou pelo menos algumas ideias que te assaltam ocasionalmente. Se fizesses associações entre as desgraças actuais e passagens bíblicas serias de imediato rotulada de louca – como se estivesses a salvo, enfim. Se revelasses premonições logo serias etiquetada de cretina fora da realidade e do tempo. Se te permitisses expressar de modo claro a inviabilidade de um planeta com oito mil milhões de pessoas e a inevitabilidade de uma redução drástica na população mundial serias catalogada de uma assentada de louca, burra e, sobretudo, desumana. É difícil viver e tentar pensar em voz alta num tempo no qual em cada esquina está um piedoso e convicto cientista de trazer por casa pronto a dar ordem de excomunhão ao senso comum com o aplauso dos intelectuais da praça muito contentes com a liberdade que se respira à volta do seu umbigo.


Se tivesses arte e sabedoria suficiente para criar ficção digna de retratar o tempo presente, poderias escapar ao cativeiro. Mas não tens. Foge-te o pé para a realidade, por mais inverosímil que a tua visão possa parecer a olhos alheios. Além do que te falta arcaboiço de conhecimento acumulado para chegar aos vértices de cada questão. Por outro lado, sentir-te-ias ridícula e falsária pondo-te em bicos de pés, vivendo da aparência a debitar sapiência colada a cuspe como se fosses uma qualquer erudita – num tempo em que é cada vez mais fácil e há mais artifícios para dar o ar de que se sabe. Sabes pouco, além do que o senso comum e a atenção ao mundo te permite conhecer. E não podes deixar de frisar uma vez mais ideia tão repisada nas Comezinhas: o constante abafar e ridicularizar do senso comum em prol da doutrinação e da valorização da aparência gera o descambar do próprio bom senso em agressividade, ódio e violência.


O conhecimento da história da evolução da humanidade e da própria ciência não é incompatível, antes pelo contrário, com a valoração da força da Natureza no Universo. Reparas que é cada vez mais comum a ignorância e petulância na invocação da ciência e da erudição. Notas que a intolerância é cada vez mais aceite se tiver sinal positivo, isto é, se for proveniente de quem tem voz. E mais, cada vez mais confundida com Liberdade.