Uma tarde inteira a não fazer nada senão matutar enquanto ouvia (e oiço) a smooth fm. Agora ao fim do dia, lembrei-me do post seguinte, que tem pouco mais do que três meses. Ainda não consegui resolver a questão da margem direita no copy/paste. Sei que dificulta um pouco a leitura, desculpem.
Adenda. Afinal já consegui e fi-lo através do método que usava nos primeiros blogues, há quase 20 anos, quer na edição de texto quer nas configurações da página: alterando a linguagem de dados (de marcação, como chamam os brasileiros, por tradução literal do inglês) HTML, da qual não percebo patavina. No caso, alterando os códigos de instrução, ou melhor, copiando-os de um post normal. Às tantas, há formas bem mais fáceis e inteligentes, mas estou-me marimbando, estou contente comigo.
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Nebulosa
Talvez tenhas exagerado nas recapitulações ao republicar várias de uma vez. Nem sequer foi uma seriação muito cuidada. Adiante. Desde ontem andas com ideia de escrever uma nebulosa sobre a dificuldade em dizer exactamente o que pensas. Há épocas em que o terreno parece estar minado. Custa-te menos expores a intimidade – e custa muitíssimo, apesar de poder parecer que o fazes de ânimo leve – do que declarares o que pensas verdadeiramente sobre o tempo presente e o que se avizinha ou pelo menos algumas ideias que te assaltam ocasionalmente. Se fizesses associações entre as desgraças actuais e passagens bíblicas serias de imediato rotulada de louca – como se estivesses a salvo, enfim. Se revelasses premonições logo serias etiquetada de cretina fora da realidade e do tempo. Se te permitisses expressar de modo claro a inviabilidade de um planeta com oito mil milhões de pessoas e a inevitabilidade de uma redução drástica na população mundial serias catalogada de uma assentada de louca, burra e, sobretudo, desumana. É difícil viver e tentar pensar em voz alta num tempo no qual em cada esquina está um piedoso e convicto cientista de trazer por casa pronto a dar ordem de excomunhão ao senso comum com o aplauso dos intelectuais da praça muito contentes com a liberdade que se respira à volta do seu umbigo.
Se tivesses arte e sabedoria suficiente para criar ficção digna de retratar o tempo presente, poderias escapar ao cativeiro. Mas não tens. Foge-te o pé para a realidade, por mais inverosímil que a tua visão possa parecer a olhos alheios. Além do que te falta arcaboiço de conhecimento acumulado para chegar aos vértices de cada questão. Por outro lado, sentir-te-ias ridícula e falsária pondo-te em bicos de pés, vivendo da aparência a debitar sapiência colada a cuspe como se fosses uma qualquer erudita – num tempo em que é cada vez mais fácil e há mais artifícios para dar o ar de que se sabe. Sabes pouco, além do que o senso comum e a atenção ao mundo te permite conhecer. E não podes deixar de frisar uma vez mais ideia tão repisada nas Comezinhas: o constante abafar e ridicularizar do senso comum em prol da doutrinação e da valorização da aparência gera o descambar do próprio bom senso em agressividade, ódio e violência.
O conhecimento da história da evolução da humanidade e da própria ciência não é incompatível, antes pelo contrário, com a valoração da força da Natureza no Universo. Reparas que é cada vez mais comum a ignorância e petulância na invocação da ciência e da erudição. Notas que a intolerância é cada vez mais aceite se tiver sinal positivo, isto é, se for proveniente de quem tem voz. E mais, cada vez mais confundida com Liberdade.