O “plano maquiavélico” do José Milhazes, no Observador.
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«Daniel Oliveira publica no Expresso uma crónica com o título sugestivo “O cerco à Festa do “Avante” e ao PCP”.
E, imaginem, escreve ele: “ironicamente, a cruzada foi lançada há uns meses por José Milhazes, que, como militante do PCP, viveu na URSS, tendo descoberto a natureza do regime quando ele desmoronou. Por experiência própria sei que as pessoas mudam de opinião, mas nunca lidarei bem com o moralismo agressivo dos convertidos”.
Pois é, Daniel, mudei de ideias, mas dá exemplos de “moralismo agressivo dos convertidos”. Onde estão? Não posso criticar o PCP?
Escreves tu que “a posição dos comunistas sobre a Ucrânia nem sequer é um bom argumento para este paralelo. Qualquer pessoa informada sabe que o PCP não apoia o regime de Putin. É verdade que, por mais que diga que não apoia a invasão, não há um documento oficial ou uma declaração do secretário-geral – que vinculam o partido – que reconheça a invasão”.
Basta ler pacientemente o “Avante!” e ver o que escrevem pessoas influentes dentro do PCP para ver que isso não é verdade, a não ser que sejas um fiel apoiante da burocracia e só acredites em comunicados oficiais.
Há muito que o PCP tem sido uma das correias de transmissão da propaganda de Putin em Portugal. Aqui fica um exemplo: no dia em que Volodymir Zelensky discursou na Assembleia da República, Paula Santos, líder parlamentar do PCP, justificou a ausência dos comunistas dizendo que “esta é uma sessão concebida para dar palco à instigação da escalada da guerra”. E mais acrescentou: não alinhar “com a participação de alguém que personifica poder xenófobo e belicista”.
Será preciso publicar mais alguma coisa para compreender a verdadeira posição do PCP?
Tal como Daniel Oliveira, não compreendo as críticas que foram feitas ao PCP por não ter elogiado Mikhail Gorbatchov. Isso era mais do que expectável. Mas os comunistas podiam ter ficado calados. É muito fácil criticar líderes políticos que já estão afastados do poder e não podem enviar “ajuda internacionalista” aos partidos irmãos. Gostaria de ver os dirigentes comunistas portugueses falarem assim quando Gorbatchov dirigia o Partido Comunista da União Soviética e a própria URSS, quando eles recebiam “apoio financeiro para a actividade revolucionária”. Chamavam os nomes mais horríveis ao último dirigente soviético dentro das células do PCP à porta fechada, mas publicamente aplaudiam ou ficavam calados.
E já que decidiste falar de Gorbatchov, gostaria de precisar algumas impressões e mentiras que se difundem sobre o último líder soviético. Onde foste buscar essa tese de Gorbatchov “ter passado a vida a apoiar uma ditadura, trepar ao poder à boleia dessa ditadura e destruí-la por dentro para merecer elogio”? Ela é completamente falsa, pois, tal como o Daniel Oliveira, Gorbatchov tinha direito a mudar de ideias. Ou pensas como aqueles que afirmam que o derrube do comunismo era o seu sonho de criança?
Quanto ao legado, nos anos 90, ele já não exercia funções de Estado. É verdade que Gorbatchov falhou seriamente na realização das reformas económicas, sociais e políticas, pois pegou numa superpotência com pés de barro e irreformável no quadro de um sistema extremamente centralizado, burocrático, mas é injusto culpá-lo das políticas realizadas por Boris Ieltsin ou pelo actual ditador russo.
Escreve Daniel Oliveira que “o único legado de Gorbachev é o fim da URSS ou de qualquer coisa que lhe pudesse suceder”. Não te esqueceste de nada? E a libertação dos povos da “zona de influência soviética”?
E no campo do legado democrático para o futuro, também deixou muito: acabou com o sistema de partido único na URSS, não fechou as portas à liberdade de expressão, libertou os presos políticos, abriu a União Soviética ao mundo, pôs fim à guerra no Afeganistão, contribuiu para o fim de guerras civis em Angola, Moçambique, etc.
Claro que Gorbatchov cometeu erros, alguns deles tremendos, mas olhemos para as dimensões do país que governou e os obstáculos que se colocavam.»