O defeito é meu, sem sombra de dúvida. Confesso a desde sempre desconfiança face ao entusiasmo com os romances e o traçar de perfis psicológicos dos facínoras que marcam a história. Hoje nos escaparates brilha Putin, o último assassino em massa que o mundo conhece. Sobre ele muita lírica se vai escrever.
No início dos anos 2000 conheci uma russa de Moscovo, casada com um ucraniano, e uma ucraniana de Lugansk, que cuidaram da minha avó durante poucos anos. Atrevida e inconsequente, com a primeira tentei encetar uma conversa sobre o perigoso KGB Putin. Com o dobro da minha idade, a Maria reduziu-me à insignificância mostrando que não ia fazer qualquer comentário que revelasse aquilo que pensava sobre o espécime. Aprendi a lição, no caso da Nina já não fiz perguntas incómodas.
É o que dá viver na ficção por ter lido na adolescência um punhado de livros sobre espionagem internacional e conhecer superficialmente as teorias da criminologia sobre traços fisionómicos dos criminosos, passando a ser sensível a caras patibulares.
Na minha ignorância e juízo leviano olho para a fronha de Putin tal como a via há 20 anos. Como então sinto-o assassino.