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18/09/2022

A ler

Wolfgang Beltracchi, o meu avô e a arte do engano: uma história verdadeira de intrujões supremos, de Sandro William Junqueira, no Observador.


 


Beltracchi, aproveitando os espaços em branco nos catálogos de grandes pintores e o desaparecimento de inúmeras obras durante a vigência do Terceiro Reich, pintou quadros de fazer inveja rebarbada a Max Ernst ou Heinrich Campendonk, vergados pela tragédia de não terem sido eles próprios a assinar aquelas telas. Beltracchi não copiava. Beltracchi, roubando a técnico e o estilo, pintava obras das quais só se suspeitava a existência. Quadros que nunca tinham sido vistos. Afamados críticos de arte não tiveram pejo em afirmar que eram aqueles os melhores Max Ernst alguma vez expostos e apreciados em galerias, museus ou coleções privadas. Aqueles, os pintados por Wolfgang Beltracchi.


[...]


Maurice F. Gonalons, escritor francês de terceira linha, que publicou meia dúzia de livros anódinos nas duas última décadas do século XX, talvez conhecesse as façanhas de Beltracchi, mesmo não conhecendo as diatribes do meu avô. Cansado da falta de visibilidade e atenção que o seu trabalho talvez merecesse, decidiu dedicar-se à obra da sua vida. Nessa empresa, destruiu o casamento, foi rejeitado pelos três filhos e teve de vender a casa que tinha herdado dos pais na Bretanha. Pondo de lado as obrigações terrenas, partiu em busca, qual garimpeiro metafisico, de textos desconhecidos de grandes autores da literatura mundial.


Trabalhou obsessiva e compulsivamente durante anos na compilação de Du Tiroir à la Lumière. Uma reunião de contos inéditos de autores como Anton Tchéckov, Raymond Carver, Flannery O’Connor, William Saroyan, Dino Buzzati, Julio Cortázar, Marguerite Duras, entre outros. O livro teve algum impacto no meio editorial francês, mas a grande vitória de Maurice F. Gonalons já estava assegurada. Nenhum daqueles contos pertencia de facto a quem o livro dizia pertencer. Gonalons, imitando o estilo, a técnica, a semântica, os temas, escrevera ele próprio a prosa daqueles textos sem que ninguém do meio literário francês tivesse sequer suspeitado da autencidade dos mesmos.